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Esse samba é das moças

5 maio 2008

Da “CartaCapital” 493, de 30 de abril de 2008.

O samba das moças

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

A história é excêntrica sob vários ângulos. São oito mulheres entre os 20 e os 40 anos, várias delas mestiças de origens diversas, algumas delas de visual “moderno” à moda de roqueiras ou clubbers. E cantam samba, samba de raiz, vinculado à tradição que parte de Ary Barroso, Ataulfo Alves e Adoniran Barbosa e fazem parada orgulhosa no relicário feminino de compositoras como Dona Ivone Lara, Leci Brandão e Jovelina Pérola Negra. Formado em São Paulo há cinco anos, o octeto Samba de Rainha completa um imaginário heterogêneo com um rol extenso de sambas de punho próprio, que ocupam a maior parte do recém-lançado segundo CD, Vivendo Samba.

A história foi se erguendo meio à revelia, a partir de encontros informais e amadores entre participantes que trabalhavam, originalmente, com arquitetura, fisioterapia, moda, marketing… A vocalista principal, Núbia Maciel, resume o imponderável que ronda o Samba de Rainha: “A idéia não era ser um grupo, nem de meninas, nem de samba”. Mas logo vieram sessões em espaços alternativos de São Paulo, como Vermont Itaim (onde o grupo ocupa até hoje as matinês de domingo), Traço de União, Bar Brahma, palcos de periferia e até a praça da Sé.

No início deste ano, os portões do Sesc Pompéia tiveram de ser fechados para barrar a pequena multidão que tentava entrar além da lotação do espaço. Lá dentro, uma platéia tão miscigenada e heterogênea quanto o grupo cantava em coro todos os sambas, fossem de Dorival Caymmi, Paulo Vanzolini, Benito di Paula, Zeca Pagodinho, Teresa Cristina ou composições próprias. “Até hoje não sei bem quem era o público daquela noite”, reconhece Núbia com certo espanto. Em fevereiro, o grupo partiu para uma série de oito shows em Portugal, mais um na Inglaterra.

Diante do êxito sempre crescente, a maioria delas abandonou os empregos de origem e tenta viver de samba. “Vive-se, mas na corda bamba”, afirma a vocalista. Houve algum assédio por parte de figuras carimbadas da indústria musical, mas, cordas bambas à parte, o grupo preferiu até agora permanecer independente. “O produtor Arnaldo Saccomani nos procurou, mas queria mudar tudo, fazer um disco de pagode. A gente não quis”, diz Núbia, fluminense interiorana de Teresópolis (“nasci na roça mesmo”) entrosada entre uma maioria de paulistas.

Embora reconheça o octeto como um caso único na música brasileira (com a exceção parcial das não-compositoras Frenéticas, nos anos 70), ela afirma que o Samba de Rainha não empunha bandeiras feministas. Mas abre uma brecha ao lembrar a origem do nome do conjunto. “Pensamos em Samba na Cozinha, Samba de Saia… Mas queríamos exaltar as mulheres, íamos colocá-las na cozinha de novo? Cantamos Clara Nunes, Beth Carvalho, Jovelina, Leci, homenageamos as rainhas do samba.”

 

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O “prefeito” de Xerém

4 abril 2008

Texto-reportagem extraído da “CartaCapital” 490, de 9 de abril de 2008, nas bancas desde a sexta-feira 4.

O PREFEITO DE XERÉM

Um dia na vida interiorana de Zeca Pagodinho, com cerveja, angu com miúdos e distribuição de cestas básicas

 

Lá fora, uma longa fila serpenteia sob o sol da manhã e do início da tarde. Há uma farta distribuição de cestas básicas, que o dono da casa controla cá de dentro, entre gritos, broncas e uma dose considerável de divertimento. Embora a situação lhe confira ares de líder comunitário, cacique ou chefe político interiorano, ele rejeita com veemência qualquer rótulo dessa natureza. “Ah, não faz isso comigo, porra. É atividade de gente, você também pode fazer isso”, protesta. Não, ele é cantor, músico, sambista, só. Chama-se Jessé Gomes da Silva Filho, mas é nacionalmente conhecido como Zeca Pagodinho. 

O cenário é Xerém, eleito como segunda residência há mais de 20 anos pelo carioca suburbano do Irajá, hoje estabelecido no bairro de classe alta da Barra da Tijuca. Distrito do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a cerca de 50 quilômetros do Rio de Janeiro, Xerém é local pobre, plantado em área intensamente verde, ao pé da serra de Petrópolis. O repórter chega de táxi, às 10h30, e encontra Zeca com um copo de cerveja na mão, de bermuda, descalço e sem camisa, torso adornado por uma tatuagem de Cosme e Damião e barriga proeminente, aboletado num quiosque no pátio em que se misturam automóveis, cavalos e uma charrete, a meio caminho entre a ampla ala residencial da família e a rua. 

As 997 cestas estão amontoadas numa das salas principais da casa, e são fruto de uma “parceria” que o artista firmou com uma marca de sapatos. Zeca compareceu e levou amigos da Globo ao desfile da marca. Em troca, recebeu as cestas levadas como ingressos, em nome da Escolinha de Música Mata Virgem, que ele construiu do outro lado da rua. 

Os primeiros beneficiários da assistência entram de bicicleta no pátio. Cumprimentam de cabeça baixa o benfeitor, trocam com ele uma ou duas frases tímidas e se vão. A rua se agita pela notícia de que é dia de Zeca distribuir cestas. O portão se fecha, e o funcionário Negão, responsável pelas entregas, cumpre a tarefa com uma expressão de medo no rosto, controlado pelo patrão em regime simultâneo de pressão e simpatia.

Ao lado da churrasqueira, funcionários com pinta de compadres (ou vice-versa) preparam o angu com miúdos que será servido no almoço. Abridores de garrafa pendurados por barbantes facilitam o ritual quase ininterrupto de abrir cervejas, depois acondicionadas em recipientes de isopor ornados por emblemas da Portela. Jane Barboza, divulgadora do artista junto à imprensa, chegou com a filha pequena já vestida de biquíni, pronta para mergulhar na piscina com a caçula de Zeca, de 4 anos. O sambista tem mais uma filha adolescente e dois filhos universitários, que cursam Direito e Administração. 

Para tirar fotografia, a assessora pede que ele vista uma camisa. Por vontade própria, ele mostraria a barriga. “Eu não me importo também, não”, concorda Mônica, a esposa há 21 anos, sorriso largo espalhado no rosto. “Eu é que sou a mala”, lamenta Jane. “Demorou tanto para conseguir essa barriga, né, Zeca?”, brinca Mônica, num vaivém constante entre o quiosque e o portão de entrega das cestas. 

O repórter é convidado a sentar e se integrar ao burburinho. “Tu não bebe, não, cara?”, provoca o anfitrião. “Estou trabalhando.” “Eu também estou, pô. Vamos resolver logo essa questão.” O repórter agradece, mas se furta da cerveja, dos pedaços de pão que Zeca come com apetite, de outros convites eventuais. Limita-se a uma água industrializada, aromatizada com limão, da mesma fábrica de bebidas de que o artista é garoto-propaganda. 

De dentro da vulnerável fortaleza, Pagodinho volta e meia troveja uma ordem, em tom algo autoritário, algo brincalhão. Bota banca sobre a população carente que protege. Criança não pode. “É cesta básica. Se você tiver dez filhos, vai mandar os dez filhos aqui?”, indaga.

O paraense Gilberto, que antes de trabalhar para Zeca foi funcionário de Gilberto Gil por 15 anos, denuncia: tem gente trocando de camisa para entrar na fila de novo. O chefe solta uma bronca de longe, para disciplinar. Mônica reaparece: “O cara saiu todo feliz, disse ‘ai, que legal, ele falou comigo’”. “Só se foi para dar um esporro”, Zeca diverte-se, entre risos gerais.

O atual ministro da Cultura é hoje um dos amigos mais próximos do sambista. “Você imagina, chega um Gil aqui, arrebenta até o portão. Mas ele veio duas ou três vezes, cantou aí até de madrugada. Chega aqui, nego entra no espírito, vai comer um angu. Não temos área vip. Aqui é a geral, sempre.” 

Política? “Não falo disso com ele.” 

Um cachorro vira-lata ronda o quiosque, e enternece o dono da casa: “Aqui é legal porque nego vem e traz cachorro. Tem sempre um bocado”. O portão de acesso ora se abre, ora se fecha, mas o ambiente nunca perde um aspecto de casa aberta, espontaneamente descontrolada. 

“Aqui come todo mundo”, discursa o artista que se diz apolítico e não é candidato a nada, mas andou acolhendo ali em Xerém, na campanha eleitoral de 2002, um certo Luiz Inácio Lula da Silva. “Aqui tem você que é jornalista, ele que é deputado, eu que sou um artista, maluco, mendigo. Todo mundo que passar por aqui entra, senta, come, conta uma história. Só o que não pode é ser abusado.”

Sim, está presente um deputado federal, Reinaldo Betão, do Partido da República, hoje secretário de Agricultura de Duque de Caxias. É amigo do sambista desde antes de entrar na política. Chega à hora do almoço, conversa, conta do bicho-preguiça que encontrou outro dia. “Pô, por que não levou para o meu sítio?”, brada Zeca. “Não pode, tem o Ibama”, reage Betão. 

Outra visita é um adolescente portador de síndrome de Down, que veio buscar sua cesta. “Tá morando onde agora, Léo?”, pergunta o músico. “Eu moro aqui, moleque”, Léo retruca, sob gargalhadas gerais. O “padrinho” serve pão com fígado, e sublinha repetidas vezes: “Não vai deixar ninguém roubar sua cesta”.

A entrevista não acontece, ao menos não como imaginada pelo repórter habituado aos ditames da indústria cultural. O entrevistado responde brevemente às questões, desvia-se dos temas, dirige o entrevistador rumo ao bate-papo errático. A certa altura, ocorre ao repórter que a saraivada de perguntas solicita muito do artista, mas nada oferece em troca. Resolve aceitar um copo de cerveja. 

Pela hora do almoço, um caminhão se insinua na rua estreita por entre a pequena multidão. É da mesma marca de cerveja que Pagodinho anuncia, e veio entregar 30 engradados. “Tenho uma cota por ano”, explica. “Mas tenho de pedir cinco dias antes, e como nada aqui é programado, às vezes vou lá e compro, fazer o quê?” 

Mônica passa perto do cozido: “Eu não gosto dessa comida aí, não, mas está cheirosa para caramba”. Explica que lá dentro, na “ala feminina” da casa, o cardápio é diferente. “Hoje vou comer maionese com hambúrguer”, ri. Bem no portão fronteiriço, um dos carregadores derruba uma caixa. Garrafas quebradas se espalham pelo chão, sob os olhos sedentos da torcida lá fora. O dono da bola manda entregar uma cesta para cada um dos trabalhadores da cervejaria. 

É deixa para entrar em assunto delicado, aquele pelo qual Zeca mais aparece na mídia. Por vezes, ele parece o homem-cerveja em pessoa, com cachês volumosos, mas também enroscado no ônus de permitir que tal imagem se cole a ele assim. 

Em que a fase de homem-sanduíche de cerveja transformou sua vida? “Ganhei uma grana, né, cara? Pude ajudar uma porrada de gente, pude me ajudar também. Foi bom para a minha carreira.” 

Em 2003, ele se transformou em pivô de guerra feroz entre duas cervejarias. Tal como num caso romântico, rompeu com uma, “experimentou” outra, voltou à primeira “por amor”, foi acusado pela “namorada” preterida de “traíra”. Tudo sob o olho público, diante das maiores vitrines publicitárias do País. Em 2006, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defendeu o veto de celebridades em propagandas de cerveja e, ao se voltar contra o teor abusivo e preconceituoso saído das mentes dos publicitários, mirou artilharia contra Zeca: “É preciso pedir que ele pare. É patético, constrangedor”. 

O artista até hoje segue em apologia na tevê, de “Zeca-feira” e criações mirabolantes afins. Talvez acuado, ele costuma exacerbar a autodefesa, mas admite que o assunto o chateia. “A gente faz tanto disco bacana, ninguém fala porra nenhuma.” 

Tal situação é fruto de uma inversão de que Zeca é vítima, mas pela qual também é co-responsável. A publicidade não inventou o Zeca “biriteiro”, ostensivo em cada um dos 18 discos que lançou desde 1986. A sombra marqueteira se apoderou dele, a ponto de falseá-lo como se só se preocupasse com isso. 

Tributário de uma linhagem que inclui o nobre Monarco como influência e Beth Carvalho como madrinha, Zeca é fértil em lançar sambas que abordam problemas sociais, menores abandonados, atitudes não-violentas, sátira comportamental, o viés democratizante da pirataria. Diluiu e desenvolveu o samba rumo ao partido-alto, ao fundo de quintal. Dá guarida a uma galeria de compositores suburbanos e desconhecidos. “Torço sempre para que o cara que está fodido traga um samba perfeito”, explica.

O excesso é característica onipresente em sua obra, mas não se refere só à bebida. Seus discos fazem pensar nos versos de Roberto e Erasmo Carlos que perguntavam será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?, por entre alusões abundantes a comida, sexo, amor e uma ou outra referência velada a drogas ilícitas. Até nisso sua obra é idêntica à sua casa e, provavelmente, à sua vida. 

“Não completei o segundo grau, não pude estudar, fui fazer escola de música aos 18 anos. Aí eu já bebia, fumava, já estava perdido”, evoca. 

Escorregadio quanto ao tema cerveja, mostra que não é acrítico em relação ao que vê na mídia: “Não sou contra nada, mas hoje em dia tudo tem de falar de sexo. Você liga a tevê, sua filha está ali, ‘ué, pai, ele não estava com não sei quem?’ Para a gente que vem da ignorância, é outro choque. Como explicar para os filhos, se a gente não sabe nem para a gente mesmo?” 

Antes de partir, o repórter almoça, na “ala feminina”, angu com miúdos, maionese e um saboroso porco curtido três dias na própria banha. Jean, o taxista da volta, mora na mesma rua que o cantor famoso e conta que nem mesmo nas fases de baixa Zeca deixou de levar ovos de chocolate para seus três filhos. O carro passa pela escolinha de futebol do Fluminense e por cartazes de “Zeca Pagodinho e Banda Calypso na vaquejada”, de “Jackson Lima, o prostituto do forró” e do político peemedebista que afirma que “Caxias nunca viu tanta obra”. 

Vários Brasis convivem ali, em contraste e harmonia simultâneos, sob a sombra e os sons do prefeito informal de Xerém.

 

Quinteto multicor

1 abril 2008

E, encerrando o ciclo Jair Rodrigues-Quinteto em Branco e Preto, segue a reportagem publicada na CartaCapital 489, mais uma transcrição da entrevista com Magnu Sousá, que a originou.

(E comentários sobre Jair, sobre o Quinteto, alguém se habilita?, alguém ouviu?…)

SÃO PAULO PEDE PASSAGEM

“Quinteto em Branco e Preto não é nem o samba carioca, nem o paulista”, tateia nas definições Magnu Sousá, paulistano de 33 anos, um dos cinco integrantes do conjunto em atividade desde 1997. “O samba paulista, segundo os estudiosos, é mais interiorano, vem do Vale do Paraíba, é o samba de bumbo, da terra, tradicional”, elenca.

De fato, o samba urbano do Quinteto não se ajustaria bem às definições habituais, e as origens e rotas dos rapazes explicam as razões. “Eu e Maurílio, os dois pretinhos, vínhamos de Santo Amaro. Os três branquinhos, de São Mateus. O Quinteto começou quando nos encontramos nas rodas de samba do Boca da Noite, ali na rua Santo Antônio”, Sousá rememora o trajeto entre os bairros periféricos e a casa de shows que funcionou no Bexiga, região central da capital.

Foi no Boca que conquistaram uma madrinha carioca, Beth Carvalho, e o trampolim para uma carreira sólida que desemboca no elegante CD Patrimônio da Humanidade (Trama). Nesse meio-tempo, estiveram à frente da criação da Comunidade Samba da Vela, descendente indireta do Boca localizada na periferia, e com preocupação especial de fazer o samba paulista avançar e se renovar.

Ali, conquistaram até adesões de baluartes do samba carioca, como conta Sousá: “Os mais velhos, quando vão ao Samba da Vela, falam que é parecido com o começo das agremiações. Monarco disse que lembra o início da Portela, Nelson Sargento falou que estava se sentindo na Mangueira de outrora”.

Em Patrimônio da Humanidade, as composições novas, quase sempre de punho próprio, atestam que o Quinteto teve de reinventar o samba paulista a partir de referenciais cariocas como Candeia, Bezerra da Silva, Martinho da Vila, Fundo de Quintal, e daquilo que Sousá classifica como um “currículo invisível”. “É algo que a gente tem, mas não sabe de onde veio.” Na reinvenção, tiveram de contornar a hegemonia radiofônica do pagode ultracomercial dos anos 90. “O que estava acontecendo era o pagode moderno, mas para a gente não rolava. Não levávamos jeito”, diz, sem negar autenticidade à outra turma: “Quando o Negritude Jr. canta samba sobre a Cohab, é samba de raiz, da raiz deles, pô”.

E o currículo invisível se materializa, em 2008, não só no CD próprio, mas num projeto paralelo, em que a gravadora Trama entregou ao Quinteto a produção do disco Jair Rodrigues em Branco e Preto, do mais expansivo e atuante dos sambistas paulistas. Com eles, Jair faz, aos 69 anos, um passeio heterogêneo por subgêneros do samba paulista, em que cabem samba-enredo, samba-rock, uma composição do pai de Magnu e Maurílio (Gilberto Alves, o “Xique-Xique”) e Migração, homenagem dos dois irmãos ao pai nordestino, com participação de Dominguinhos.

No solo fértil do álbum do nem sempre reconhecido Jair, assoma, aqui e ali, uma atmosfera rural, acaipirada, o elo perdido (ou melhor, reencontrado) entre a urbanidade do Quinteto em Branco e Preto e as origens interioranas “invisíveis” estudadas nos livros e nas rodas por Sousá e parceiros.-POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Agora, a entrevista:

Pedro Alexandre Sanches: Você poderia fazer uma retrospectiva da história do Quinteto, desde o começo?

Magnu Sousá: O Quinteto em Branco e Preto começou em 1997, numa casa de São Paulo chamada Boca da Noite. A gente era muito molequinho e dava um pulo Boca da Noite para ver aqueles negos véios tocarem.

PAS: Onde ficava o Boca da Noite?

MS: Ficava ali na rua Santo Antônio, no centrão. Os dois pretinhos vinham de Santo Amaro, de ônibus (são Maurílio Oliveira, cavaquinho e voz, e ele, pandeiro e voz) , e os três branquinhos vinham de São Mateus, de metrô (Everson Pessoa, violão e voz, Vitor Pessoa, surdo e voz, e Yvison Pessoa, percussão e voz). E a gente se conheceu ali no Boca. Entre uma roda de samba e outra, o dono, Wilson Sucena, acabou apresentando uns para os outros. A gente se conheceu e começou a trabalhar na noite. Já trabalhávamos em alguns lugares, mas isoladamente. Numa determinada noite Beth Carvalho chegou lá e nos batizou como Quinteto Café com Leite.

PAS: Então Beth batizou vocês, mas com esse outro nome?

MS: Não, é que dois anos depois fomos registrar esse nome e não podia, porque o nome já era marca de um grupo, acho que um grupo de forró do Nordeste, Banda Café com Leite, uma coisa assim. Nesse ínterim, fomos gravar um programa-piloto para a CPC-Umes, que era nossa gravadora na época do primeiro disco. Por coincidência, veio Beth Carvalho gravar, já fazia um tempo que a gente não via ela. Ficamos quase três anos sem ver a madrinha. Quando reencontramos a madrinha, falamos que não dava para usar aquele nome, por causa do resistro. Ela falou: “E agora, como vou chamar vocês no programa?”. “Ô, madrinha, a gente não sabe.”

PAS: Chamavam ela mesmo de madrinha, desde essa época?

MS: É, sempre chamamos de madrinha. Na hora do programa, o rapaz entrevistou a Beth, ela: “Estou aqui com meus afilhados, esse conjunto maravilhoso, o Quinteto…”. Aí olhou assim para o lado e disse, de improviso: “…Quinteto em Branco e Preto”. Aí ficou esse nome. Naquela noite estavam fazendo uma homenagem ao Boca da Noite, que já tinha acabado fazia tempo, numa casa da Consolação, e por coincidência aparecemos nós e a Beth lá. Ela falou no microfone: “Hoje acabo de rebatizar o grupo, tantos anos depois do Boca da Noite, como Quinteto em Branco e Preto”.

PAS: Como era o Boca da Noite, o ambiente, o que acontecia lá?

MS: Era uma casa em que rolava roda de samba, música popular brasileira da melhor qualidade. Era muito parecido com o Villaggio Café. São duas casas contemporâneas, o Villaggio sobreviveu as décadas de 90 e 2000, e o Boca não resistiu. Por lá passaram Nelson Cavaquinho, Djavan, Filó Machado, toda aquela leva da MPB. Era mais eclético, aberto à música mesmo.

PAS: O que atraiu vocês, que eram mais da periferia, para aquele lugar?

MS: Acho que foi por causa da boa música, né? A gente sempre ouviu boa música em casa, minha família é de músicos. Meu pai é músico, os outros meninos também são de uma família ligada a música e poesia. Na época, acontecia o pagode mais moderno, era uma realidade, mas com a gente não rolava, porque a gente não levava jeito, nunca levou jeito. Embora fôssemos muito novos na época, na febre do pagode, mesmo assim com a gente não rolava. Então quando eu, particularmente, descobri o Boca da Noite, fiquei encantado, pela roda de samba, aquele povo todo cantando os sambas mais antigos. Convivi muito também porque meu pai, quando eu era garotinho, me levava para as boates, onde rolava boa música. Quando vi o Boca, me senti como quando era bem garotinho, meu pai levava às boates e me deixava na cozinha. Não podia nem ficar no recinto.

PAS: Histórias de hoje em dia, como a Comunidade Samba da Vela, são de algum modo uma continuação ou uma evolução daquilo?

MS: Não, o Samba da Vela eu nem sei explicar muito, por que a gente fundou… Porque os mais velhos, quando vão ao Samba da Vela, falam que é muito parecido com os redutos de samba do começo das agremiações. Monarco foi lá e falou: “Pô, parece a Portela no começo”. Nelson Sargento falou: “Nossa, estou me sentindo na Mangueira de outrora, daquele tempo em que era pouca gente”. Era muito legal, porque as pessoas iam no intuito de se divertir, o entretenimento de forma geral, e tinha a coisa séria do samba, da música, da cultura. Hoje em dia já não tem muito mais isso em escola de samba.

PAS: Mas vocês aprenderam um pouco disso em lugares como o Boca da Noite. Ou não?

MS: Na realidade o Boca é mais a roda de samba em si, a malandragem da roda, de perceber a noite, os compositores, como se portar. Fomos aprendendo essas coisas. Mas o Samba da Vela é uma coisa mais intuitiva, como se estivéssemos fazendo algo que a gente não viveu, mas aprendeu intuitivamente. É aquela coisa do currículo invisível, mesmo, que as pessoas têm e não sabem de onde vem.

PAS: Currículo invisível, você disse?

MS: É, uma coisa interessante. Existe um currículo que as pessoas têm, mas determinadas coisas não dá para a gente descrever. Se vou falar, por exemplo, do Osvaldinho da Cuíca, ele de repente é uma pessoa diplomada, formada, e tudo, mas ele viveu o samba, conviveu a vida inteira. Esse currículo é invisível, né? E é muito importante.

PAS: É interessante o relato de que gente como Monarco e Nelson Sargento se identifica, porque eles são do Rio, de uma cultura e uma cidade totalmente diferentes de São Paulo.

MS: É, o samba tem essa coisa, né? A gente tem essa escola. No caso do Quinteto, somos o único grupo de São Paulo que fez turnê acompanhando Beth Carvalho, acompanhando todos esses sambistas. Não é que a gente aprendeu as coisas todas com eles, não. Já vem de berço, porque o samba proporciona isso em qualquer lugar do mundo. A família que é tradicional do samba é característica, embora tenha um sotaque diferente na Bahia, em São Paulo, no Rio, em outros estados também. Cada um faz um samba diferenciado, mas o samba é uma linguagem só. As pessoas acabam se identificando e se reconhecendo.

PAS: O que você diria se fosse explicar que tipo de samba o Quinteto faz, ao longo de todos os discos que lançaram?

MS: Olha, as pessoas acabam dando nomenclatura para tudo, mas acho que o Quinteto não é nem o samba carioca, nem o samba paulista.

PAS: Nem o paulista (espantado)?

MS: É, porque, o samba paulista, segundo as pessoas que estudam e se aprofundam no samba daqui, é uma cultura mais interiorana, que vem do Vale do Paraíba, aquela coisa de Tietê, o samba de bumbo, aquela coisa mais da terra, supertradicional. Se, por exemplo, você vai para a Bahia, tem o Recôncavo Baiano, que é outro sotaque, a chula, aquelas coisas. No Rio de Janeiro, é o samba carioca, uma mistura do samba baiano com características que eles têm lá. São três coisas diferentes. E a gente é de São Paulo, e a linguagem do paulista é diferente, né? Então temos a linguagem do paulista e um pouco do sotaque carioca também, e um pouco a coisa da Bahia também. São as referências do que a gente ouvia. Embora tivéssemos em São Paulo Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa, a gente não teve eles como referência. Por quê? Por causa do rádio. Hoje tenho 33 anos, e eu, na periferia, quando tinha 6, 7 anos, lembro que ouvia muito Partido em Cinco na favela, na periferia, na quebrada.

PAS: Partido em Cinco que é carioca, não?

MS: É, carioca. Ouvia muito Candeia, Bezerra da Silva e Martinho da Vila, que era o que tocava muito nas periferias de São Paulo. Adoniran não tocava.

PAS: Por que será, você sabe?

MS: Então… O rádio, a gravadora…

PAS: Santo de casa não faz milagre…

MS: É, e a gente não tem essa referência, essa é que é a grande verdade. No meu caso fui ter a referência de Adoniran Barbosa em casa, por causa do meu pai, que era músico, conhecia Adoniran, Jorge Costa, Geraldo Filme, Talismã, essa turma. A gente tinha alguns discos de Jorge Costa, Geraldo Filme, Osvaldinho da Cuíca e Demônios da Garoa. Mas se pegar a massa, a periferia de modo geral não teve esse acesso, de poder ouvir a música paulista, as referências paulistas. A gente não teve, a gente ouviu muito no rádio Clara Nunes, Beth Carvalho…

PAS: E como era sua relação com esse samba carioca chamado de fundo de quintal, Zeca Pagodinho e companhia?

MS: Ah, acho que o fundo de quintal é a maior referência do samba para o Quinteto e para todos os grupos e comunidades. Eu, particularmente, acredito que o samba tem várias fases que nem sei enumerar, mas uma fase muito importante é o surgimento da Beth Carvalho. Porque, quando Beth chegou, ela fez a ponte dos antigos com os novos que são contemporâneos dela. Então veio revelando um monte de gente nesse período, e uma das revelações foi o grupo Fundo de Quintal. A partir do momento em que eles passaram a fazer parte do cenário musical, começaram a reverenciar os antigos e a fazer a mesma coisa, a ponte dos que estão vindo, nós inclusive. Eu tive a felicidade de ouvir Beth Carvalho antes do Fundo de Quintal, mas, quando ouvi ela, conheci todos aqueles outros compositores. Martinho foi uma fase, depois veio Beth, uma fase muito importante do popular, da coisa do povo mesmo, porque tem Paulinho da Viola, que é um grande sambista, mas não tão popular. Beth tem isso, a coisa do povo, até mais que Clara e Alcione, sem discutir o trabalho, mas de popularidade.PAS: Leci Brandão também faz essa ponte, não?

MS: Leci faz, mas principalmente com relação à negritude, de segurar a onda. Alguém tem que levantar uma determinada bandeira. Embora Leci seja um pouco criticada por levantar muita bandeira, ela é muito importante por isso. Beth levanta muito a bandeira do samba, e ensinou para a gente que, pegando o disco dela, conhecemos Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Candeia, Geraldo Filme, fulano, beltrano… Por intermédio dela a gente conheceu a Velha Guarda da Portela, da Mangueira… E por intermédio dela conhecemos também Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz… Ela é muito importante.

PAS: Vocês costumam compor grande parte do repertório. Há a preocupação de apresentar mais compositores paulistas, o samba paulista? Sei que o disco novo tem músicas do Nei Lopes, do Edil Pacheco, mas a maioria é de São Paulo mesmo, não?

MS: A gente tem a preocupação de fazer valer um espaço que ficou vazio por muito tempo. Sem querer fazer uma crítica, mas uma observação, acho que os veículos de comunicação ajudaram nisso, de certa forma, depois daquela frase do nosso querido Vinicius de Moraes de que “São Paulo é o túmulo do samba”. A mídia valorizou muito essa frase, né? E isso fez com que o samba de São Paulo estagnasse um pouco. Durante um bom tempo, a gente tem uma lacuna. Depois de Osvaldinho da Cuíca, Germano Mathias, Zeca da Casa Verde, Talismã, Geraldo Filme, o que tem um destaque maior é Adoniran Barbosa. Depois de Adoniran e Geraldo, se não me falha a memória, não consigo visualizar mais ninguém…

PAS: E Geraldo Filme, assim como a maioria, não chegou a ficar conhecido fora de São Paulo, no resto do Brasil.

MS: Exatamente. Ficou essa lacuna muito grande, a agora conseguimos visualizar o Quinteto e, através do Quinteto, todas essas comunidades, e os sambistas que vão surgir, se tiverem a oportunidade de a mídia divulgar. Então a gente tem a preocupação de cantar os autores daqui, não para fazer afronta com nada, mas para valorizar mesmo. Se a gente pegar na música popular brasileira hoje, se tirar de São Paulo a Rita Lee, quem tem, estourado na mídia no Brasil? Ninguém. É um ou outro, muito isoladamente – os baianos, os cariocas, os mineiros lá com o corporativismo deles de Skank e aquela galera, alguns de Brasília, e mais ninguém. São Paulo não tem ninguém. Do samba, então, nem pensar… Dá a impressão de que São Paulo é proibido de ter artista de samba. Santa Catarina tem tanto sambista, cara. No disco, a gente dá um alô, um salve, para todas as comunidades do samba de São Paulo, do Rio, Santa Catarina, Ceará, Minas, Rio Grande do Sul… Tem muita gente, a gente não tinha noção da importância que essas comunidades todas dão para o Quinteto, por intermédio do Samba da Vela, do Berço do Samba de São Mateus e outras coisas que estão surgindo.

PAS: Dentro do panorama do samba paulista que você traçou, não podemos esquecer Jair Rodrigues, que, por sinal, está trabalhando com o Quinteto em Branco e Preto.

MS: Exatamente. Sempre falo que Jair é o canga, aquela figura que está em todos os segmentos. Ele é esse cara, um figuraça, um grande ícone da música, acima de muito questionamento. Ele contribuiu muito para a música popular brasileira, né?

PAS: Mas não é muito reconhecido, de forma geral…

MS: É, não é. Mas, olha, a contribuição que Jairzão deu é muito forte. Deveria ser mais reconhecido, acho que ele é assim um Ray Charles para nós aqui no Brasil, da mesma forma de Dona Ivone Lara é uma Ella Fitzgerald. Esses artistas deviam ser reconhecidos, estar naquele glamour, quando tem um Oscar tinham que estar Jair Rodrigues, Dona Ivone, Nelson Sargento, Xangô da Mangueira…

PAS: E como foi produzir um disco do Jair?

MS: Foi maravilhoso. Foi espetacular. A gente fica meio intimidado, né?, de às vezes chegar no Jair e falar alguma coisa, porque ele é um mito. A gente fica meio assim de chegar numa pessoa como ele, tão grande quanto um Paulinho da Viola, um Martinho da Vila.

PAS: Não só chegar como orientar um disco dele…

MS: Então, e ele deixou a gente super à vontade, “vocês é que mandam na história”. Deu os palpites que tinha que dar, a gente deu os nossos. Depois de um tempo escolhendo repertório, a coisa ficou mais aberta, mais espontânea, e aí foi só risada o tempo todo.

PAS: Como foi escolhido o repertório? Ele mesmo, ou vocês interferiram bastante?

MS: A gente sugeriu, tanto é que tem uma música minha no disco dele, Migração, que eu e meu irmão Maurílio fizemos para o nosso pai, que veio do Nordeste. E tem uma relação muito grande com Disparada, do Geraldo Vandré, que Jair gravou. Inclusive Vandré foi ao estúdio.

PAS: É mesmo? E aí?

MS: Foi, foi. Foi muito legal ver Geraldo Vandré, ele é mito, a gente fica ouvindo falar dele na escola. Daqui a pouco você encontra o cara na sua frente, “o cara tá aí!”…

PAS: No caso dele, é um mito misterioso, além de tudo…

MS: Misteriosíssimo. A gente foi almoçar com ele depois, ele não fala muito. É meio reservadão. Mas foi fantástico, porque a música que a gente fez, Migração, fala que o retirante veio do sertão, chegou aqui, não deu certo e voltou. Disparada é o contrário.

PAS: Vocês fizeram um pouco pensando em Disparada mesmo?

MS: Fizemos, mas nem imaginávamos que o Jair fosse gravar um dia. É uma pessoa relatando, dizendo que veio do sertão, passou por maus bocados aqui, não deu certo, voltou.

PAS: Não detectei isso no disco de vocês, mas do Jair tem música de Luis Vagner, Bedeu, o pessoal do chamado samba-rock de São Paulo. Tem Eu Vou Só, que é bem samba-rock, tem essa mistura.

MS: Exatamente. A gente sugeriu ao Jair que fizesse um disco com as pessoas que são contemporâneas dele, e alguns compositores novos também, mas que o disco fosse bastante eclético no sentido do samba, que tivesse todos os estilos de samba. Jairzão é muito ligado em tudo. Por que não um samba-rock, um samba-enredo? Tem uma seleção de sambas-enredo que algumas pessoas jamais gravariam, um samba do Paulistinha, de Nenê de Vila Matilde, misturado com outro do Zé Di, da Vai-Vai, e um do Império Serrano, do Rio. E tem samba da Comunidade Samba da Vela, Toda Maria, do Azambuja, um compositor que está esquecido, numa cadeira de rodas, teve um derrame. Meu pai, que é músico, compôs um samba, estávamos lá no dia, “pai, bota aquele samba lá”. Jair: “Que samba bonito, vou gravar”. Gravou o samba.

PAS: Qual é? MS: É Depois Chorei, meu pai é Gilberto Alves, o Xique-Xique. É músico, conhece o Jair, mas não tinha aquela ligação, e Jair acabou gravando. Muito legal, foi uma grande experiência. Uma coisa muito legal foi na hora de Jair colocar a voz. Foi gravada simultaneamente com o coro, o que é difícil acontecer hoje em dia. Geralmente as pessoas gravam o couro, depois o artista vai lá e põe a voz. Ficou gravado em estúdio, mas a voz ficou meio ao vivo, todo mundo cantando junto, saca?

PAS: Por que no disco de vocês não tem tanto essa mistura com samba-rock e outros tipos de samba, como no do Jair?

MS: Acho que é porque é mais específico, mais do gênero. Eu, por exemplo, componho samba-rock, tive um gravado pela Alcione em 2005. samba-rock é uma cultura paulista, uma coisa muito sofisticada. Me emocionei vendo o documentário no DVD dos Racionais MC’s, é demais. Retrata o que era a periferia, os bailes black e tal. A gente, sendo do samba, aqui em São Paulo, não tem jeito. Quem é crioulo não tem como ficar, “ah, sou tradicional do samba”, porque é uma mentira. Os pais, os avós, todos eles dançaram nostalgia, samba-rock. Todos vêm daquela cultura também, não dá para ficar naquela coisa de se fechar no tradicionalzão. No nosso disco não tem samba-rock e outras vertentes por causa de estilo mesmo. No disco do Jair rolou, foi uma experiência.

PAS: Em geral, transparece como se fosse uma rivalidade mesmo, o samba e o rap, ou o samba e o pagode mais moderno, como você falou antes. Sempre ficam turmas separadas, mas no fundo, pelo que você está falando, não é bem assim…

MS: Não, não é. Falam samba de raiz para separar do samba novo, mas eu caracterizo o samba de raiz como ligado às raízes mesmo. Não é a forma como é gravado ou composto. Quando Negritude Jr. canta samba da Cohab, to chegando na Cohab, é um samba de raiz. Estão falando do lugar deles, do que são eles, e isso é válido para qualquer gênero. Todos os sambas cantados na Comunidade da Vela são de raiz, independe do estilo.

PAS: Mas, pensando em São Paulo, existe mesmo uma rivalidade entre, por exemplo, samba e rap?MS: Acho que não, nem com o samba moderno nem com o antigo. Nos discos do Negritude Jr., por exemplo, os Racionais participam. No disco do Consciência Humana, o Quinteto participa, com Beth Carvalho. A faixa é o maior barato, homenageando o Pato n’Água, da Vai-Vai, numa comparação com um amigo deles que foi morto pela polícia. Pediram para que a gente cantasse o refrão, silêncio, o sambista está dormindo. A gente fez isso misturado com rap, ficou superbacana, rolou bem, a gente cantando samba, e eles, rap. O Quinteto não é muito a favor de mistura, de misturar os gêneros, rap com samba, aquela batida misturada. Acho que aí perde para os dois lados. Se o Consciência Humana me chama para ir cantar um rap, eu não sei cantar rap, vou lá e canto um samba no rap. Acho que é mais legal, que dignifica mais os dois gêneros. Não é que a gente é contra, a gente evita fazer mistura de batidas.

PAS: Isso na música do Quinteto, você diz?

MS: É, na nossa música. Não que a gente critique qualquer outro artista que faça. A gente tocou com Fernanda Porto, maravilhosa, ela mistura samba com drum’n’bass, e tem uma verdade dela. Só que, se fosse para o Quinteto fazer, não ia rolar.

PAS: O que você está dizendo é que pode, sim, misturar, mas cada um ficando na sua, sabendo de sua especialidade? MS: É, exatamente. A gente até está fazendo um projeto no Sesc, chamado Quem Não Canta Samba, é o quinteto com Célia e com Zélia Duncan, e Zélia vai cantar samba. Pode ser que na hora ela peça para misturar, a gente não vai chegar e dar uma de radical. De repente acontece, no mundo da música tudo é possível. Rivalidade acho que não existe. O que vejo que o pessoal do hip-hop não gosta é algo de que a gente não gosta também, é muita baixa qualidade, essa pornografia toda que rola. Hip-hop faz crítica, o samba também faz, de uma forma mais bem humorada, mas rola muita promiscuidade. Tenho filhas que ouvem vários gêneros aí, alguns são meio complicados para uma criança. E as coisas entram na casa da gente, né? E se a gente fala qualquer coisa, as pessoas já acham que a gente é preconceituoso. Está meio complicado o mundo de hoje para se expressar, embora tenhamos uma democracia. Todo mundo fala, mas ao mesmo tempo é “pô, mas você falou mal de mim”.