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André Midani

19 setembro 2008

As páginas de uma revista ou jornal não permitem, mas aqui cabe perfeitamente uma versão extensa estendida e aprofundada da entrevista “O senhor da sombra”, com André Midani, publicada à CartaCapital 513, de 17 de setembro de 2008. Segue a introdução à entrevista, conforme publicada na revista, e então a cauda longa conforme se desenrolou na segunda-feira 8 de setembro de 2008:

Dirigentes de gravadoras não despertam unanimidade, nem mesmo simpatia, junto ao público admirador de música. São freqüentemente tratados como os “vilões” da história, e não foi diferente com André Midani, nas cinco décadas em que esteve atuante em multinacionais do disco na França, no México, nos Estados Unidos e, mais que todos, no Brasil. Mas o passar do tempo trabalhou a favor desse sírio nascido há 76 anos em Damasco, criado em Paris e ancorado ao Brasil desde 1955, quando fugiu da França para não participar da Guerra da Argélia e veio aportar na Baía de Guanabara. Hoje, a perspectiva histórica permite perceber que quando João Gilberto inventou a bossa nova na Odeon (hoje EMI), em 1958, Midani estava lá. E dirigia a filial da Philips (hoje Universal) em 1968, quando a gravadora disseminou o levante tropicalista. E foi o homem que, em 1976, instalou a sucursal brasileira da Warner, um dos futuros epicentros do terremoto comercial do rock brasileiro dos anos 80. 

Ou seja, trabalhou nos bastidores de todo e qualquer movimento de absorção de música estrangeira pela brasileira entre 1958 e 1990. E teve sob sua guarda nos anos 70 os tropicalistas, mas também Elis Regina, Chico Buarque, Edu Lobo, Nara Leão, Jorge Ben, Erasmo Carlos, Wilson Simonal, Raul Seixas, Tim Maia, Fagner, Odair José e dezenas de outros. 

Os anos amortizaram amores e ódios, e Midani hoje é visto como um dos últimos diretores efetivamente “criativos” de uma indústria que logo seria abarrotada por executivos egressos das fábricas de refrigerantes e sabonetes. Os “criativos” nutriram a indústria de lucro inédito com o sucesso roqueiro dos anos 80, o mesmo que atirou de vez as gravadoras, os discos e os artistas no colo das bolsas de valores. 

Essa é uma das muitas histórias contadas por Midani, por vezes com precaução exacerbada, no livro de memórias Música, Ídolos e Poder (Nova Fronteira, 296 págs.). Ele parte das lembranças de menino que testemunhou bombardeios e combates da Segunda Guerra Mundial, e chega até os anos 2000. De uma ponta à outra, traz a público uma trajetória condensada com exagero numa frase: “Nasci com o vinil e morri com o download”. 

Midani recebeu CartaCapital na ampla casa em que vive no alto da Gávea, no Rio. E mostrou, ao falar de Elis Regina, que os impopulares homens de negócios também choram, e se emocionam. 

Pedro Alexandre Sanches – Qual é sua avaliação sobre o livro? Contou a sua história?

André Midani – É, contei uma parte da história, né? Tomei alguns parâmetros nesse sentido. Um, não me meter em fofocas. Segundo, a falar mal é melhor não falar. E terceiro, ser o mais fiel possível à minha memória. Então o livro, para mim, apresenta algumas surpresas, será que estou contando as histórias como aconteceram? Talvez seja só a minha visão dessa história. Eu achei que não devia falar só de música brasileira, que os antecedentes da minha entrada no mundo da música eram suficientemente interessantes para poder falar deles. Inclusive, Pedro, recomendo a entrar no TouTube e ver Jammin’ the Blues.

PAS – O filme que você viu na juventude e depois procurou a vida inteira, de que fala no livro…

AM – É espetacular.

PAS – Dos três parâmetros que você citou, não fazer fofoca e não falar mal provavelmente diminui o número de leitores.

AM – Com certeza.

PAS – Essa não é sua maior preocupação?

AM – Com certeza. Certamente que… (faz uma pausa) É, com certeza.

PAS – Mas você também se meteria em encrencas, se fosse contar histórias mais picantes…

AM – É, mas também a falta de respeito com as outras pessoas. Foi sobretudo isso que me levou a ser discreto. E você pode ter visto que coloquei três ou quatro fofocas, mas tudo relacionado com artistas estrangeiros.

PAS – São as mais apimentadas (risos). Se bem que também achei uma ou outra coisinha de brasileiros, que depois vou lhe perguntar.

AM – Tá. Vamos ver.

PAS – Você diz no livro que sua profissão era “o mundo das maravilhas”. Deixou de ser?

AM – Com certeza.

PAS – Por quê?

AM – No livro explico uma das versões do porquê, que é a entrada dos tecnocratas. Acho que isso é um dos aspectos mais interessantes do livro, porque não toca propriamente à música e pode acontecer em qualquer indústria criativa. Para condensar isso numa frase, o drama é que os homens criativos acabaram trabalhando para os tecnocratas, em vez de os tecnocratas trabalharem para os criativos. A culpa é de quem ou de quê? Evidentemente os fenômenos são vários, mas um que me chamou sempre muito a atenção, e menciono no livro, é que os homens criativos sempre tiveram uma tendência a olhar para o lucro com um certo desprezo. E os homens criativos, quando falavam com certo rancor do board lá em cima – em português, no Brasil, tínhamos uma palavra para isso, “os homens”. E foi uma profunda besteira deles, porque, se tivessem entrado num curso, ou numa série de cursos de administração para não-administradores, de financista para não-financistas, aquelas histórias, teriam descoberto que aprender esse mundo, pelo menos o teórico, preto no branco, em números, não é tão complicado assim. Então abdicaram do comando dessas coisas, por preguiça, por omissão, por, sei lá, aristocracia. Mal sabiam eles que iriam se foder muito mais abdicando do que aprendendo e comandando.

PAS – Então você credita o fim das maravilhas principalmente aos tecnocratas?

AM – Não, credito como um aspecto. Um outro é o fato de as companhias de discos terem sido compradas pelos conglomerados de comunicação. E tem fatores agravantes que não são inerentes ao business, na minha opinião. Pertencem à própria criatividade artística. Pegando um exemplo não irônico, mas um exemplo entre tantos: se você pensar que estamos com uma guitarra, um teclado, um baixo, uma bateria e um cantor fazendo rock desde 1955, não tem quem agüente, isso tem mais de 50 anos (risos), e é a mesma coisa. Do lado criativo, e aí não falo mais especificamente do rock, estou falando em geral, o que a gente pode ver é que na melhor das circunstâncias existem fatores evolutivos, musicalmente falando. Mas ninguém rompe com alguma coisa. Você tem artistas formidáveis, eu diria por exemplo Lenine, para citar um, maravilhoso como evolução. Mas não é um rompimento. Quando a gente vê no Brasil que o último rompimento de importância que tivemos… Foram dois, aliás. Um foi o rock’n’roll, 1982. Já faz 25 anos…

PAS – Uma geração.

AM – Uma geração. E o outro, que evidentemente foi um pouco abortado pelas circunstâncias, foi Chico Science. Depois desses dois, que eu conheça e que tenha uma repercussão importante, não vi.

PAS – Hip-hop e funk carioca você não conta aí? Na verdade nem são da indústria…

AM – É, mesmo que fossem da indústria. Eles rompem, é claro, todo mundo rompe com alguma coisa, mas quando você considera que os pontos de partida foram Jorge Ben, Banda Black Rio e Tim Maia, vamos tomar só esse trio, você vê que também se trata de uma evolução.

PAS – Eles rompem, você me disse isso em outra entrevista, com a classe média, com o gosto da classe média.

AM – Socialmente é outra história, mas musicalmente… Socialmente, bendito hip-hop, bendito rap, bendito tudo que você quiser imaginar. Porra! Porque os negros aqui estavam confinados à favela e ao samba, e não é possível. A favela estava, em 1980, na mesma situação em que a música brasileira estava antes da bossa nova. A bossa nova rompeu com seu passado, com Carlos Galhardo, e em 1980, o hip-hop e não sei o quê romperam com as velhas tradições do samba. Quando digo Carlos Galhardo, você pode mudar para qualquer um, “o rei da voz” e companhia.

PAS – Você já mencionou vários fatores, mas não citou ainda internet, computador, MP3, download, pirataria. O que você acha desses?

AM – Vamos falar do virtual. Se isso aconteceu do jeito como aconteceu é justamente pelo desconhecimento que os tecnocratas tinham da evolução tecnológica, das oportunidades que se apresentavam, ao mesmo tempo que apresentavam ameaças. Eles escolheram lutar contra as ameaças e não criar as oportunidades. Foram para a porta errada, né?

PAS – Se fossem os criativos você acha que seria diferente? Talvez eles não percebessem também na hora a revolução tecnológica.

AM – É impossível que eu responda essa pergunta (chega sua esposa, Gilda, ele a apresenta). Será? Mas pela própria palavra, “criativo”, você pode imaginar que tem um pensamento um pouco mais aberto. Agora, será ou não será, não sei. A pirataria física, isso francamente acho que não foi culpa de ninguém.

PAS – São as máfias que você cita várias vezes no livro?

AM – É. São desses infortúnios que acontecem na vida.

PAS – Mas, ainda que a indústria tivesse sido muito bem conduzida, a revolução tecnológica não teria acontecido e teria acabado tudo do mesmo jeito?

AM – Não, porque faria parte. Em vez de processar Kaazaa, por exemplo, comprava Kaazaa. Quando digo comprava é no sentido… ou se alia, ou se associa. Kaazaa estava aberto para isso. Ninguém gosta de ser pirata, como ninguém gosta de fazer tráfico de droga. É uma vida de merda, né?

PAS – Às vezes não há alternativa.

AM – É. Evidentemente que no caso de Kaazaa é um pouco mais sofisticado que o cara na favela. Mas, de qualquer maneira, por que esses meninos da tecnologia não entraram dentro das companhias de disco? Porque elas fecharam as portas. Se não, pô, obviamente! Você não convida um artista novo que te apresenta uma música completamente nova, no lado criativo? Por que não vai fazer a mesma coisa no lado da distribuição? Mas há grandes oportunidades, grandes oportunidades. Estou pensando em valor econômico também, se você olha por exemplo o detalhe dos custos de uma gravadora – antigamente, hoje está em transição -, você tinha 11% a 12% de custo de produto, depois 3% de custo de de departamento de venda, 3% de comissão a vendedores, 3% a 5% de obsolescência de produto, 3% de contas a pagar, maus pagadores. Você vai multiplicando isso tudo, adicionando, adicionando, e considere o mundo virtual hoje. Gerente de venda teria, mas não tem mais vendedor, não tem mais loja, não tem mais, não tem mais, não tem mais. E você, como dirigente de companhia de disco, não vai encher seu saco todo dia, durante umas cinco horas das tantas que você trabalha, em ficar verificando se o vendedor foi àquele lugar ou não sei o quê. Eu realmente passava das nove da manhã até o almoço tratando dessas coisas, de dinheiro que entra em caixa para poder pagar as pessoas.

PAS – Você está dizendo que mesmo o criativo teve que ir se distanciando do criativo propriamente dito?

AM – Exatamente. Mas você pode fazer uma balança. As oportunidades do mundo virtual são e serão, mas poderiam ter sido muito benéficas. Você tirava uma puta dor de cabeça, e essa ausência de dor de cabeça te deixava livre para os elementos criativos, marketing, novas tecnologias, novos suportes, novos todos. Vou te dar um exemplo. Quando o CD nasceu, uma parte importante da indústria mundial achou que era uma furada, porque o long-play era muito melhor. Trabalharam contra o CD imensamente. Passam alguns anos, essas pessoas que tiveram que engolir o CD não souberam reconhecer quando foi que a tecnologia CD ficou obsoleta por sua vez. Mal engoliram, tinha que mudar. E são pessoas que conviveram com tecnologias durante 30, 40 anos antes disso.

PAS – O CD está obsoleto já há muito tempo?

AM – Há muito tempo. Eu lembro, já em Nova York – portanto, estou te falando em 1991, suponho -, que nós tínhamos lá um grupo de trabalho para o que seria o 5.1, que era uma tecnologia absolutamente disponível naquele momento, industrialmente falando. Um dos erros (enfatiza) capitais foi… Foram dois. Um, que em vez de planejar ter um mercado de 5.1 em cima dos aparelhos de cinema e DVD que já estavam no mercado, foram planejar o seu futuro sobre aparelhos especiais, nos quais se tinha outra vez que comprar amplificador, tralalá. Bom, claro que era de uma qualidade melhor, mas, entre não ter e ter uma coisa melhor, há um meio termo prático. A segunda coisa é que os cinco conglomerados – estou falando de Sony, BMG, Philips, Warner e Universal – não conseguiram se colocar de acordo no tipo de suporte, CD não sei o quê, blue tooth ou não… Porque cada um tinha um interesse nos elementos da fabricação. Aí, o que aconteceu? Os fabricantes disseram: “Olha, quando vocês estiverem interessados venham falar com a gente”. E a indústria fonográfica se encontrou…

PAS – Nesse meio tempo a indústria das telecomunicações de certa forma não roubou para ela o que era da fonográfica?

AM – Acho que não foi no meio disso, foi depois.

PAS – Mas no final das contas não teve esse significado? E antes você citou os conglomerados de comunicações…

AM – Estou falando de Time Warner…

PAS – Por que isso foi um fator?

AM – Foi um fator importante, Pedro, porque as companhias têm ações na bolsa de valores.

PAS – Ou seja, “vamos para o lucro”?

AM – Vamos para o lucro. Aliado a isso, não sei se mencionei no livro, mas quando a segunda geração do rock’n’roll estourou foi um pânico das grandes companhias comprar as companhias de disco, fazer sociedades nesse sentido, numa compra frenética. E então o que aconteceu? Tinha certas companhias que eram compradas a 14 vezes o lucro líquido, enquanto o normal seria exagerado se chegasse a sete ou oito vezes. Se o mercado for conservador, compra por quatro ou cinco. Mas 14, menino! Quando a notícia chegava lá em cima, “porra, mas em quanto tempo vamos recuperar isso?”. Aí começava. Você comprou caro demais, tem que devolver rápido demais. Aí fodeu.

PAS – Mas só para fechar aquele ponto, hoje a telefonia não lucra o que a indústria fonográfica lucrava antigamente com música? Não foi uma troca?

AM – Não. Ainda é uma tecnologia nova, uma mídia nova, com grandíssimas perspectivas.

PAS – Falei telefonia, mas quero dizer também informática, Microsoft, Apple…

AM – Telefonia é o grande negócio, porque, no parâmetro no Brasil, hoje em dia declaram que têm 8 milhões de aparelhos aqui. Estavam declarando que têm 50 milhões de telefones, alguma coisa por aí. Penso ver no computador o caminho do futuro, acho que hoje todo mundo está revisando isso e se conscientizando que vai ser para a telefonia.

PAS – Para encerrar esse assunto, não quero usar a palavra “culpa”, que você usou, mas o “país das maravilhas” acabou, você falou tudo isso, e qual foi sua cota de responsabilidade para esse final?

AM – É, então vou te dizer. Eu não tive o poder ou o uso do poder necessário para fazer com que o futuro se desenvolvesse de outra maneira. Porque eu comandava alguma coisa como 7% do mercado mundial.

PAS – O que é respeitável…

AM – É, mas era ninharia (ri). Eu estava frente ao meu colega da Europa, aos meus colegas norte-americanos, aos japoneses. Eles tinham outras preocupações, forçosamente. Nem pirataria digital existia naquela época, e pirataria física nem pensar. No livro menciono que em várias reuniões o pessoal do Sudeste Asiático tem os mesmos dissabores que nós da América Latina. Mas juntando eles e nós, dava 10%, quando muito. A gente chegava lá, o pessoal ouvia se tivesse tempo, se não tivesse, “desculpa, tchau”. Eu não tinha esse poder. Tivesse tido, talvez eu teria sido uma outra pessoa também (ri), a gente não sabe nunca.

PAS – Os criativos não poderiam ter segurado o poder, em vez deixar passar o rolo compressor capitalista?

AM – É, acho que sim. Foi o capitalismo, mas sobretudo foi a tecnocracia, que não tem partido político nem cheiro econômico. Pode haver tecnocrata no Japão, na Rússia, em qualquer lugar. Eles são iguais ao dólar, não têm cor e não têm cheiro (ri).

PAS – Mudando de assunto agora, vou voltar bem ao começo. Uma das coisas que mais me impressionou e foi mais legal de ler foi o início mesmo, o seu relato de ter assistido à Segunda Guerra Mundial de perto. Cheguei a me perguntar se aconteceu tudo aquilo literalmente, o menino de oito anos “brincando” em tanques de guerra?

AM – É uma imagem tão forte que essa lembrança, por exemplo, eu tenho certeza que é real. Há outras que podem ser isto ou podem ser outra coisa (ri), mas essa, não. Essa passagem que você descreve, para as crianças… Acho que nós tivemos, como eu poderia dizer?, a mais imaginativa ou imaginária felicidade de, em vez de ter tanques de brinquedo, ter o tanque. Em vez de ter um fuzil de plástico, tinha o fuzil. São coisas que, quando você tem seis, sete ou oito anos, são um privilégio, por cima de todos os perigos que isso pudesse envolver.

PAS – Você diz “felicidade”, mas isso não poderia ter produzido crianças bélicas?

AM – Não, estropiadas.

PAS – Estropiadas?

AM – Claro. Bélicas, voltando a essa coisa que você deixa em suspenso, claro que é bélico, claro. E, para um brasileiro, essa coisa bélica é muito abstrata, porque até a história brasileira disfarça a sua atitude bélica, quando necessária. O que foi feito por Brasil, Argentina e sei lá quem mais no Paraguai é uma das coisas mais belicosas, mais sangrentas… É só estar nas circunstâncias adequadas (ri) para se tornar bélico, o ser humano é assim. Mas, para nós, era talvez ao mesmo tempo festejar o fim da guerra. Não havia mais o medo. Nós brincávamos com os elementos da guerra, mas não tínhamos mais esse medo.

PAS – Fiquei pensando nisso mesmo, vou dar um exemplo. Minha mãe tem a sua idade, durante a guerra ela era criança e vivia no Rio Grande do Sul. E se escondia debaixo da cama porque tinha medo do que houvia no rádio. Mas ela não teve nenhuma experiência real com o que fosse a guerra. Era tudo meio imaginário…

AM – (Ri) O meu era real.

PAS – O que isso faz na cabeça de um menino e depois de um homem, para o resto da vida?

AM – Deve influenciar distintamente segundo a personalidade, né? Mas eu, por exemplo, me lembrava de perguntar à minha mãe de que se fala quando não tem guerra (risos). Eu não tinha noção, porque tudo que se falava era sobre guerra, só se falava sobre guerra. Mas o que isso provoca? Sem dúvida, provoca uma certa dureza. Sem dúvida.

PAS – Mas uma dureza do cara que depois vai trabalhar na indústria criativa, descobrir talentos?

AM – Tudo bem, mas eu fui duro também nisso, não é? Tenho uma reputação razoável (ri), não vamos fingir. No entanto, muita gente deve ter te dito que talvez eu fosse autoritário demais, que eu fosse… A própria Maria Bethânia fala isso.

PAS – Ela fala que você era autoritário?

AM – É.

PAS – No livro você não se compromete, mas diz que Bethânia “tinha fama” de presunçosa…, como é mesmo (consulto minhas anotações)? É uma das passagens apimentadinhas, você diz não que ela era, mas que tinha fama, de “soberba, pretensiosa e arrogante” (risos).

AM – É, mas ela apavorava a indústria. Apavorava. Bethânia era uma princesa.

PAS – Apavorava como?

AM – Sua atitude, a soberba. É sempre complicado fazer comparações, porque não cabem, mas, no que Caetano pode haver de aristocracia no comportamento dele, certamente Bethânia o tem multiplicado.

PAS – É de família?

AM – Não, porque dona Canô é uma pessoa muito tranqüila, e os outros irmãos que conheço são pessoas como você e eu.

PAS – Dona Canô pode ser tranqüila, mas fez aqueles dois…

AM – Bom (risos)… Ela não sozinha, o pai também.

PAS – Também me impressionei com as histórias da sua mãe no livro. Ela foi forte para você, não?

AM – Minha mãe, formidável (ri). É a mesma história que no disco a gente estava falando. Isso é ou desastre ou oportunidade. Para mim foi uma oportunidade ter uma mãe dessa. Você pode dizer ao certo que eu agradeço a minha mãe de ter sido firme, para não dizer mais, do jeito que ela foi comigo, porque, menino, eu fiquei espartano.

PAS – Por causa dela?

AM – É, por causa dela, da formação que ela impôs em cima de mim. E só posso agradecer a ela, porque, olha, se eu tivesse tido uma infância mole em primeiro lugar não estava no Brasil e em segundo não estava assim (olha para a ampla sala ao redor).

PAS – Fiquei esperando, curioso, como você ia descrever a morte de sua mãe no livro, mas aí você descreve a de seu pai, e a dela, não. Só fala que ela tinha morrido.

AM – É, mas é que ela, isto é off the record, se suicidou. Ela já tinha 85 anos, e uma dor aqui, uma dor lá, não sei o quê, e sempre dizia: “Quando esse negócio de dor for irreparável, eu me suicido”. Ninguém acreditava, mas um dia se suicidou.

PAS – Não posso mesmo colocar isso? É tão forte, uma mulher de 85 anos… É um dado interessante da história, não?

AM – Pode ser, não sei. É, pode, pode, por que não? Eu sei que isso traumatizou muito meus filhos.

PAS – Ela estava próxima de vocês?

AM – Muito, muito.

PAS – Ou seja, ela veio para o Brasil também?

AM – É, ela veio na segunda vez que estive lá, na época da tropicália. Aí ela se mudou para o Brasil.

PAS – Ela chegou junto com a tropicália?

AM – Veio na hora da tropicália.

PAS – E, bem, isso tudo porque estávamos falando da aristocracia da Bethânia…

AM – É. Mas você pode contar essa história, sim, por que não? Os meninos sabem, mas se recusam a saber. Até hoje eles fingem… Minha mulher da época fala um pouco, mas não gosta, e minha primeira mulher, que é mãe dos meninos, tenho impressão de que também deve fazer um pouco o mesmo, dizer “não, não aconteceu, morreu”. Inclusive, eu já estava nos Estados Unidos.

PAS – Você não estava aqui quando ela morreu?

AM – Não. Eu tinha estado uma semana antes. Mas houve alguma dificuldade para ter o registro, como se diz, de obituário? Porque tinha essa coisa, “não morreu, não”, “ah, por favor, velhinha, morreu…”. Sei que Mônica, minha mulher na época, resolveu isso, muito bem. Se você achar que é um dado que vá interessar, que seja importante, que seja correto, que não seja outra coisa, eu não… Eu tenho toda a confiança em você, Pedro, use seu raciocínio, seu julgamento, para isso. Não faz um grande drama dessa história, mas…

PAS – Não, nem sensacionalismo. É que foi sem querer, eu notei algo e não sabia por quê…

AM – Claro, claro. Ótimo.

PAS – …Mas tinha alguma coisa.

AM – E é por isso que não escrevi. Faz parte daquelas histórias que não falei.

PAS – Bom, vamos adiante. Gostei deste pedaço aqui: “Eu não entendia o Francisco Alves e outros cantores românticos, com vozes impostadas e operísticas que, aos meus olhos, os tornavam ridículos e obsoletos. Ficava confuso com a barulheira que não permitia escutar claramente as gravações de samba: o ritmo se ouvia ao longe e soava como uma massa informe. E, acima de tudo, não entendia as palavras. Confesso que não gostei de coisa alguma, a não ser de Inezita Barroso e, sobretudo, de Caymmi”. Você pensa assim até hoje?

AM – Basicamente. Quer dizer…

PAS – Aqui você detonou todo mundo, o samba, a velha-guarda inteira (risos)…

AM – Não (ri), eu não acho que tenha detonado. Se a imagem que estou passando é de detonar… O samba não detonei, disse que era muito barulho, que a gravação era uma merda. Era um barulho, blublublublu, não detonei o samba. Detonei o Francisco Alves e companhia.

PAS – Esses, sim?

AM – Isso sem a menor dúvida.

PAS – Por quê?

AM – Pedro, eu estava chegando no Brasil…

PAS – Era um choque de culturas, também.

AM – Era um choque de culturas, porque essa história na Europa, ou vamos dizer na França, do cantor lírico de segunda categoria (risos), era um fenômeno já ultrapassado. A gente já tinha Juliette Grecco, Jacques Prévert, Boris Vian, um montão de gente, e mesmo Henri Salvador, que em 1950 já tinha começado, e muito. Lá se tinha criado uma atmosfera, não estou falando da música nem nada. Uma atmosfera. E, para uma pessoa que vinha desse tipo de meio, pegar um Francisco Alves era uma pedrada (risos). E tem um que não me lembro mais, que tem um nome meio italiano, daquela mesma época… Vicente Celestino! Eu não entendia! Quer dizer, entendia, mas não tinha nenhum afeto ou associação.

PAS – Os tropicalistas pegaram Vicente Celestino meio para Cristo, tinha influência sua por trás?

AM – Não, não (ri).

PAS – Ele até morreu do coração, claro que você se lembra dessa história.

AM – Qual?

PAS – Que ele morreu durante a gravação de um programa da tropicália.

AM – Quem?

PAS – O Vicente Celestino.

AM – Ah, é? Eu não me lembro.

PAS – Ele foi a São Paulo participar da gravação do programa deles, e morreu do coração no hotel.

AM – A gente entende isso, né (ri)? Pedro, quando eu falo dessas pessoas é evidente que não falo delas pessoalmente. Tenho o maior respeito por toda pessoa que vá fazer uma arte e que esteja lutando para isso etc. etc. Estou falando da especificidade da música.

PAS – Perguntei se você ainda pensa assim porque, ainda que você não gostasse, dá para reconhecer que Francisco Alves teve uma importância, não dá?

AM – Ah, não, mas é claro. Hoje em dia, dá…

PAS – Aracy de Almeida… Na primeira vez que o entrevistei você pareceu um pouco traumatizado com Aracy de Almeida (risos).

AM – Aracy me olhava de um jeito… Ela sempre andava com Lúcio Rangel.

PAS – Que era um crítico de música…

AM – Puta, que crítico (risos)! Não, ele era certamente um belo crítico, para os parâmetros daquela época, e sobretudo extremamente conservador. E os dois andavam sempre juntos. E eu devia ter pinta de quê, 24 anos, pinta de menino, todo francesinho. Eles olhavam para mim com uma desconfiança… E era mútuo, porque eu olhava para essa Aracy de Almeida, que bofe, que horror que era. Agora, hoje, por exemplo, eu posso ouvir a Aracy e reconhecer as qualidades que ela tem. Naquela época, não, não era capaz.

PAS – Falei do Francisco Alves porque, nem que fosse pelo inverso, ele, entre outros, também possibilitou que João Gilberto nascesse, não?

AM – É, claro.

PAS – Pela ruptura, como você tinha falado antes.

AM – É. O problema é você ser grato a ele por causa daquilo (ri), né? Grato não é a palavra. Não vou admirar ele por causa disso, né?

PAS – Isso foi percebido? Aquela velha-guarda odiava você?

AM – Naquela época eu não tinha poder nenhum, visibilidade nenhuma. Era recém-chegado, foi quando fiz essas observações. Devia ter três meses de Brasil, não era conhecido por ninguém, não conhecia ninguém, não influenciava ninguém em nada. Poderia contar se influenciasse, mas eu não tinha repercussão nenhuma, nenhuma, nenhuma. Agora, uma parte importante do trabalho que supervisionei é que sempre – sempre, não, majoritariamente – dirigi para as novas gerações. Esse fato que constatei quando cheguei, que não havia música brasileira para a juventude, foi uma coisa que “puf!”, ficou na minha cabeça pelo resto da minha vida. Quando fui para o México foi a mesma coisa, tentei a mesma coisa. Quando o rock aconteceu, tentei a mesma coisa. Sempre eu estava virando para o que é que vem, e não para o que é que foi.

Mas das raras incursões que foram dadas ao samba tradicional durante minhas gestões, uma foi abortada pela morte do Ataulfo Alves. Mas eu tinha o maior carinho, o maior respeito por ele. Eu o conhecia bem, e achava que eu podia dar o respeito a Ataulfo que não lhe era dado até aquele momento, da mesma maneira como eu talvez tenha contribuído a dar a alguns artistas – eu pensaria no Jorge Ben e no Erasmo Carlos, não na mesma direção, é claro. Nós tivemos uma relação relativamente curta, mas muito amorosa e respeitosa, e também com Dona Ivone Lara e com… Como se chamava esse compositor fantástico que estava em cadeira de roda? Super-importante, morreu.

PAS – Sambista?

AM – É, compositor.

PAS – Zé Keti, não?

AM – Não. Desse nível, mas não o Zé Keti. Enfim, não importa (até agora não consegui saber de quem o Midani falava, alguém ajuda a decifrar o enigma? ). Tive alguma relação assim muito específica, respeitosa e enriquecedora. Mas claro que andava sempre em busca do que é que tem, do que é que está por vir.

PAS – No geral, você foi um estrangeiro que chegou pelo mar, adorou a Baía de Guanabara, mas não tanto o samba…

AM – Não tanto. Também (pausa)… É, não tanto, se pode dizer. Por exemplo, hoje em dia adoro Martinho da Vila. Acho inclusive que ele é muito inspirado pela atmosfera da bossa nova, com sua vozinha lá.

PAS – Então o Brasil transformou você um pouquinho quanto a isso?

AM – Bichinho, o Brasil me transformou… Me transformou com a bossa nova, me transformou com a tropicália, me transformou na minha maneira de pensar, na maneira de analisar, na maneira de amar, tudo isso, até hoje, até hoje. Eu só tenho a agradecer ao Brasil por ter feito de mim a pessoa que sou hoje. Você talvez se lembre, no livro tem um comentário muito pequenininho sobre meu contato com Caetano, no qual digo que ele falava coisas que eu não entendia, que eram muito acima da minha capacidade daquela época. Imagina você o quanto sou grato.

PAS – Nas entrelinhas você está dizendo que Caetano teve meio de enfrentar você?

AM – Não.

PAS – Não é um conflito, o presidente da gravadora que não entende o que o artista diz?

AM – Mas isso não era só Caetano, era geral. É por isso que fiz o grupo de trabalho (um grupo montado nos anos 70, com psicólogos, jornalistas, gente de gravadora etc., para entrevistar e tentar entender os artistas). Você pode imaginar que tipo de cabeça e maturidade humana uma pessoa com seus 33 anos de idade tem que ter para agüentar?… Não, agüentar e compreender. Agüentar você ainda agüenta, mas o problema é compreender toda a cambalha de gênios que estavam acima da minha companhia.

PAS – Você fala “cambalha’, penso em Raul Seixas, Tim Maia, Rita Lee, os mais “malucos”, digamos assim…

AM – Mas você sabe que é bem difícil também entender um Caetano, um Gilberto Gil, enfim… Quando eu digo cambalha, não é no sentido pejorativo.

PAS – Claro, ao contrário, você falou cambalha de gênios.

AM – É, se fosse outro jornalista eu falaria com outras palavras (ri), sendo você eu posso falar. Conto no livro, isso é um pouco fantasiado, mas o espírito é esse: numa mesma tarde me chegam três artistas, três gênios, me dão um puta esporro porque eu não estou entendendo nada. Três, completamente diferentes, rapaz. Eu não tinha cabeça para isso. Aí comprei cabeças para me ajudar.

PAS – Quem eram esses três?

AM – Não me lembro, francamente não sei. Ali no livro eu mando os três.

PAS – Acho que são Elis Regina, Chico Buarque e Caetano, se não me engano.

AM – Pode ser. Pode ser até inventado. Mas não estou falando especificamente quem são, estou falando da problemática, sobretudo porque eu tinha dito aos artistas: “Minha porta está aberta, na hora que quiserem vocês entram”. Então entravam.

PAS – Entravam e brigavam?

AM – E brigavam, claro. Mas não brigavam comigo por passividade, nem burrice, nem omissão. Brigavam porque eles queriam mais, o que é diferente.

PAS – Não é mais ou menos o que você falou antes sobre ruptura? Desde que me conheço por gente não me consta que funcionários entrem na casa do patrão para brigar com ele. Eu nunca fiz isso…

AM – É, mas artista não é funcionário.

PAS – Ah, é, sim…

AM – Não, de jeito nenhum. É o melhor ativo que uma companhia podia ter naquela época, a coisa mais preciosa. Eles são os patrões, em última análise.

PAS – Era isso que permitia eles chegarem até você? Por não se verem como seus empregados?

AM – Mas é claro, claro. Olha, também é perigoso isso, Pedro, você sabe tão bem quanto eu, botar tudo a 100% é impossível. Estamos falando numa idéia geral, básica. De minha parte, não havia na relação de superioridade quanto a eles.

PAS – Eles também acham isso?

AM – Eu não perguntei, mas tenho certeza que sim.

PAS – Mesmo uma Maria Bethânia?…

AM – Uma vez – estou falando em 1977, por aí -. quando a PolyGram estava construindo os novos estúdios, o que ainda foi sob minha gestão, eram quatro ou cinco horas da tarde, estou chegando de carro para ver as obras. Pára um carro ali, “ei, ô, Midani, espera que eu quero falar com você”. Era Carlos Imperial, com o qual eu tinha praticamente nenhuma relação de trabalho. Não me lembro de ter cruzado profissionalmente com Carlos. Conhecia, como todo mundo conhecia Carlos. Sabia das suas virtudes e das suas “invirtudes”. Ele sai do carro e me diz: “Cara, meus parabéns, você é foda. Você tirou o músico da cozinha no Brasil”. Então, se há um ser, uma pessoa como Carlos, que pensa que eu tirei o músico da cozinha, é porque eu não tinha uma relação estabelecida de superior, não é?

PAS – Ele estava se referindo a alguma coisa específica?

AM – Aos artistas que trabalhavam comigo, todos eles. E certamente, como conseqüência, em outras companhias o tipo de relação com os artistas passou a se modificar um pouco, se é que já não tinha se modificado.

PAS – O artista, de um modo genérico, é um cara maluco?

AM – Não. Mesmo quando é maluco, ele é maluco e não é maluco. Ou seja, patologicamente maluco ele não é. Algo que se chama de maluco dentro da sua pergunta eu entenderia talvez que fosse um artista com criatividade exacerbada.

PAS – Acho que eu estava pensando em alguém muito difícil de lidar, incontrolável…

AM – Não, também. Quer dizer, tem ou teria que ter, não vou te dizer que fiz isso bem ou mal… O artista tem que ter em determinado momento como se fosse uma rédea com um cavalo puro-sangue… Você tem que segurar um pouquinho de vez em quando e soltar em outros momentos. Essa percepção é sumamente importante, porque se você fizer ao contrário, segurar quando tem que soltar e vice-versa, aí você tem um inimigo feroz.

PAS – Genericamente, qual seria o momento de segurar?

AM – Ah, a circunstância do momento.

PAS – Talvez Rita Lee, que foi segurada numa hora em que talvez tenha ficado bem brava, e aí foi embora da gravadora?

AM – Com a Rita foi mais complexo que isso. Ficou um pouco mais complexo, porque a Rita, naquela época, tinha o desejo de ser uma estrela internacional.

PAS – É mesmo?

AM – Né? Mas não tinha o preparo profissional, físico, emocional, racional – não estou dizendo que é burra, não, de jeito nenhum, bem pelo contrário. Mas ela não tinha a força adequada para fazer isso. Evidentemente teria necessitado que ela mudasse completamente sua carreira, que migrasse para os Estados Unidos, que gravasse em inglês. Talvez hoje fosse possível, mas naquela época não era, ela queria ser uma estrela internacional ficando no Brasil. Estou fazendo uma caricatura super-respeitosa.

PAS – Você acompanha a molecada do Cansei de Ser Sexy? Eles estão conseguindo isso. Sabe quem são?

AM – Sexy?

PAS – Cansei de Ser Sexy. Uma banda de São Paulo que canta em inglês, faz sucesso na Europa, em todo lugar, tem a líder (Lovefoxxx) que sai em capas de revistas…

AM – Deve ir para a Inglaterra, com certeza?

PAS – Estão morando lá.

AM – É como se você tivesse um artista no Amapá que quer ser sucesso nacional ficando no Amapá. Não dá, tem que vir para São Paulo, para o Rio. No mínimo tem que descer para Salvador ou Recife, e ainda está fazendo a metade do caminho. Também era uma época, para Rita e para todos nós, em que estava todo mundo imaturo ainda.

PAS – E o cara que cuida, que administra dos artistas, é maluco? Ou é muito racional?

AM – Você está falando do empresário?

PAS – Não, de você.

AM – Ah, da companhia de disco, de mim? É a mesma coisa do cavalo puro-sangue, de vez em quando tem que segurar e outra vez tem que ir (ri).

PAS – Quem segura é a matriz?

AM – Não. Quem se segura é a gente mesmo.

PAS – Outro tema do livro: você diz que Tom Jobim, quando jovem, andava sempre na sombra da cantora Violeta Cavalcanti…

AM – Não, não.

PAS – Está escrito no livro (risos)!

AM – Não, mas aí é fora do contexto, pô, Pedro.

PAS – Então vamos ver, o pedaço que copiei. Isso, e depois “eu ficava muito perplexo ao ver um rapaz tão bonito e tão fino parecendo um gigolô!” (risos).

AM – Exatamente. Eu via, é isso que estou falando. Eu recém-chegado, vamos dizer que cheguei aqui em dezembro de 1955 e me tornei operacional em 1956. No escritório entrava gente, saía gente, entrava gente, saía gente, e tinha esse rapaz que eu não sabia de onde vinha, o que era, não sabia nada. De vez em quando ele aparecia lá, ele muito bonito – porque Tom era bonito o que o diabo não quer, né? – atrás de uma moça exuberante.

PAS – Ela também era exuberante?

AM – Suponho que sim, aos meus olhos naquela época Violeta Cavalcanti era uma moça exuberante.

PAS – Eu estava imaginando ela como uma Aracy de Almeida (risos)…

AM – Não, não, era mais Rádio Nacional, tipo Marlene. Uma moça exuberante, na minha lembrança não era tão bonita, mas era um mulherzaço. E ele atrás. E me perguntei isso, eu não sabia quem era o menino. Aí meses depois, claro… Inclusive eu ria muito com Tom sobre isso.

PAS – Meses depois aconteceu  o quê? Revelou-se um rapaz talentoso?

AM – Exato, meses depois soube quem era Tom Jobim. Teve Orfeu da Conceição, a Sinfonia do Rio de Janeiro. Eu cheguei por ali, e Aloysio de Oliveira também tinha voltado ao Brasil. Dali me introduzi dentro de um meio ambiente.

PAS – Em passagens como essa, me dá a impressão de que você abriu uma fresta, começou a contar não sei se uma história, uma pequena maldade sua, um veneninho.

AM – Não vejo nada de maldade, não, Pedro…

PAS – Não? Eu já fico entendendo que ele era mesmo gigolô da moça…

AM – Não, não, não (risos)!

PAS – E seria o máximo se fosse, para a gente, no contexto histórico.

AM – Olha, era casado, Já era casado com uma moça chamada Tereza, pessoa maravilhosa. Não, não passa pela cabeça. Não, eu conto essa história para mostrar o absurdo, não é nem para dizer mal de Tom ou bem de Tom, mas pelo absurdo de uma pessoa que chega num lugar sem nenhuma referência e vê um troço desse, para a pessoa que logo seria o maior compositor que esse país jamais teve. Acho cômico, desavisado da minha parte.

PAS – Achei muito interessante também a historinha sobre o Fernando Lobo, porque é uma referência que já ouvimos mil vezes, mas você conta sob outro ponto de vista. Fernando Lobo estava dentro da gravadora, e tinha um filho que era compositor (Edu Lobo), achou que os tropicalistas estavam ameaçando o sucesso de seu filho, e começou a falar mal dos tropicalistas para você…

AM – Bom, falar mal, não falaria mal, porque não dava. Aí, sim, era empregado, de luxo, mas era empregado. Você não deve associar isso isoladamente ao problema da bebida. Quando essas duas coisas se encontravam, tornavam o comportamento do Fernando meio incontrolável.

PAS – Mas deixe eu explicar por que me chamou a atenção. No imaginário, é corrente que haveria na época uma rivalidade, os tropicalistas de um lado, Chico e Edu do outro. Eles negam, dão a entender que a imprensa foi que inventou. Mas você dá um dado de bastidor que poderia ajudar a justificar uma rivalidade. Existia uma coisa, no fundo, motivando…

AM – Não, Pedro, rivalidade deles dois, Chico e Caetano, enquanto seres musicais, compositores, homens de proa, não houve. Houve rivalidade pelos seguidores. A imprensa não inventou nada, a imprensa tinha razão, porque os seguidores estavam, e você sabe melhor do que eu que não foi possível naquele momento – estou falando aí inclusive do Edu – tomar as iniciativas para que isso não acontecesse. É igual a doença, tem que esperar o ciclo da coisa acabar. Agora, uma pessoa como Fernando, por exemplo, se minha memória é bem exata, nos seus momentos mais exaltados não gostava que os tropicalistas estivessem lá. Não posso me expressar de uma maneira mais “puf!”. Não gostava. Agora, evidentemente, não vamos também fazer do Fernando uma caricatura. Ele não pensava só no filho dele.

PAS – Tinha convicções também.

AM – Tinha convicções de bossa nova, de samba-canção mais ainda que de bossa nova.

PAS – Canção de dor-de-cotovelo…

AM – É, toda aquela coisa de Dolores Duran, Antonio Maria e companhia. Ele pertencia àquele mundo. Então imagina, bossa nova tudo bem, foi engolida. Aí chegam esses porras desses tropicalistas?

PAS – Foi um trauma atrás do outro?

AM – Foi um trauma atrás do outro. Agora, Fernando era uma pessoa das mais brilhantes que eu conhecia dentro do jornalismo brasileiro, isso sem dúvida.

PAS – Ele era jornalista também, além de compositor.

AM – Brilhante pensador. Enquanto estávamos de porre no Vilarinho, no bar, para mim era de morrer de rir. Mas quando essa capacidade de fazer morrer de rir está ligada ao trabalho é outra história.

PAS – Aí logo depois, em 1969, Caetano gravou Chuvas de Verão, de Fernando Lobo. Por quê?

AM – (Ri.) Não sei…

PAS – Era para amansar a fera?

AM – Não sei, não sei, não sei…

PAS – Você não teve qualquer participação na escolha, nas instâncias da gravadora?

AM – Não.

PAS – Era Caetano mesmo que decidia?

AM – Sempre, sempre, sempre.

PAS – Porque a gente sabe que existem exemplos, alguém vai lá e fala “tem que gravar música de tal compositor”…

AM – Caetano, não.

PAS – Naquele tempo, não?

AM – Nem sei hoje, não creio.

PAS – Não sei se vou eu fazer agora uma caricatura, mas, por exemplo, quando Marcos Maynard era presidente de uma gravadora, todos os artistas do elenco cantavam músicas do Cláudio Rabello, que era um diretor artístico na mesma gravadora.

AM – É, mas isso é um infortúnio, né?

PAS – Todo o elenco da RCA gravava Michael Sullivan e Paulo Massadas quando Sullivan dirigia a gravadora (*). Acontece, né?

AM – Tem. No meu repertório nunca teve. Mas que tem no mercado, tem. Ou tinha, não sei. Mas sempre teve trambiques, né (ri)? E Maynard ainda existe?

PAS – Ai, mais ou menos, não sei.

AM – Estou perguntando porque não sei mesmo. Ele foi sócio do (empresário de artistas) Manoel Poladian.

PAS – Sobre as referências que você à Censura da ditadura. Há pouco eu estava lendo um livro (Cães de Guarda – Jornalistas e Censores, do AI-5 à Constituição de 1988, da historiadora Beatriz Kushnir) sobre essa época nas redações de jornais, sobre a existência de censores e policiais implantados dentro das redações. E nas gravadoras, havia?

AM – Que eu tenha conhecimento, não.

PAS – A pressão vinha só de fora? Havia censores, por exemplo, dentro d’O Pasquim.

AM – Claro, tinha censores dentro da Rede Globo.

PAS – Mas isso não pegava as gravadoras?

AM – Na minha companhia, não. Não resta dúvida que a pressão era muito grande, mas que se instalassem dentro da gravadora, não.

PAS – No livro você passa muito de raspão pela história com Wilson Simonal, não? O que você fala no livro e acho que eu não sabia é que foi Marcos Lázaro (empresário, nos anos 60 e 70, de artistas como Roberto Carlos, Elis Regina e Simonal)  a pessoa que intermediou a contratação dele pela Philips, a “pedido” da ditadura.

AM – Foi.

PAS – E aí foi do jeito que você relata, você levou o assunto Simonal para discussão no grupo de trabalho?

AM – Foi uma barra. Foi a primeira reunião. Hoje acho que faria de outra maneira. Na primeira reunião disse “olha, tenho um puta pepino aqui, achei que tinha que contratar o Simonal”. Zuenir Ventura me olhou de um jeito que me lembro até hoje.

PAS – Ninguém queria ele na gravadora mesmo? Você tinha me falado isso uma vez, eu tinha entendido que era o elenco da Philips que resistia. Eram então os membros do grupo de trabalho?

AM – Não, eu temia que pessoas como Chico, que são, ou eram, no sentido convencionalmente político, não no sentido pejorativo, mas no sentido da posição, me dissessem “olha, se um filho da puta vai entrar eu não fico”. Eu temia isso. Então cheguei ao grupo de trabalho e dizia: “Estou temendo isso, como é que eu faço?, o que faço?”. Foi assim.

PAS – Mas não aconteceu? Ninguém disse “ou ele ou eu”?

AM – Que eu me lembre não. Eu lembro que o Chico não ficou lá muito contente (ri).

PAS – Mas você explicou para a companhia, que era uma imposição da ditadura?

AM – É, eu tinha que ser um pouco discreto também, fazia entender que era adequado tomar essa decisão.

PAS – Simonal era filho de uma empregada doméstica. E Elis Regina era filha de uma lavadeira. Daria para fazer algum paralelo entre os dois?

AM – Não, não, não, ela, não.

PAS – Qual era a diferença? Ela era branca e ele era preto…

AM – É, para começar. Os anseios sociais de cada um dos dois eram completamente diferentes.

PAS – Ela foi patrulhada, também teve acidentes em relação à política.

AM – Teve. A Elis foi imprudente. Mas ela… Vou te dizer, eu conheço o doutor Lula da Silva, não pessoalmente, mas conheço sua existência quando ele ainda era um dos líderes metalúrgicos. Estou falando de 1979, quando muito. Quem dava dinheiro para ele, seu dinheiro, e quem me pedia para dar dinheiro a ele? Elis Regina.

PAS – É mesmo? E você dava?

AM – Claro.

PAS – E você gosta do doutor Lula da Silva?

AM – (Pensa por alguns segundos.) Gosto. Acho que tem coisas que são ótimas.

PAS – Nunca ouvi um presidente de gravadora falar isso (risos).

AM – Ora, se você olhar tem coisas muito positivas. Claro que pode ser uma overdose, mas basicamente era necessário, é necessário, até o momento em que essa oligarquia sindical se tornar – e já pode ser – tão horrorosa quanto era a oligarquia medieval brasileira.

PAS – Mas só recapitulando, Elis pedia dinheiro a você para dar para o Lula? Ou para o partido, para a criação do PT?

AM – Não sei para quê. Mas a figura a quem o dinheiro chegava era o Lula. Figura essa que ela achava de grande mérito, de grande importância e de grande futuro.

PAS – E ela não ficou para ver…

AM – Ela não ficou para ver.

PAS – Por que ela morreu cedo, André?

AM – Não sei. Não sei.

PAS – Ela teve uma história radical, passou por muita coisa, deu e levou muito chute, não?

AM – Não, isso não acho que seja. É porque ela era combativa, então você apanha e você dá. Eu não sei dizer, ou se intuo alguma coisa, mas não quero entrar nessa situação.

PAS – Estou lhe perguntando porque ela nunca se afastou de você, desde a Philips até a morte. Brigava, mas seguiu junto.

AM – É isso que te digo, era brigona mesmo. Mas tinha muito caráter.

PAS – Mas muita gente se zangava com ela, não gostava dela, não é?

AM – Voltamos nessa questão fundamental: críticos, executivos e público devem olhar para o artista pelo que faz artisticamente ou pelo que é como pessoa?

PAS – O que você acha?

AM – Tem mil razões, mil escolas para justificar qualquer uma das posições. No entanto, o fato de não gostar da impertinência, da obsessão dela, da cabeça-dura que era, dos esporros… Tem o direito de ficar ofendido, isso não há dúvida. Mas isso não tira o fato de que foi uma das grandes cantoras brasileiras de todos os tempos (ele silencia e chora).

PAS – Pelo que percebo de você, uma das grandes pessoas também…

AM – Eu tenho a maior… (pausa, respira fundo, chora) …a maior emoção , até hoje (chora, silencia).

PAS – (Tentando disfarçar minha própria vontade de chorar.) Quantos anos faz?, 30…

AM – Não é? (Silêncio.) Bom… (Chora, fala com a voz embargada) Tem que ter isso também, se não tiver emoção você está fodido.

PAS – Tem que emocionar o presidente da gravadora, também?

AM – Quando a gente está falando sobre esse pessoal está falando com o diretor da gravadora…

PAS – Isso que estou vendo, você emocionado, é raro acontecer? Ou é freqüente?

AM – Você sabe que eu não me emociono por tristeza? Não me emociono por perda. Mas me emociono por… como diria?, você vai ter que me ajudar… Não é por unanimidade, não. Me emociona a expressão… humana não quer dizer isso… Me emociono às vezes até por coisas babacas, não sei te explicar. Sei que pelo que normalmente se chora eu não choro. E me emociona demais a grandeza do ser humano em determinados momentos ou ocasiões. Aí, sim, eu choro.

PAS – Chorava, ou chorou na frente de seus artistas, muitas vezes, poucas vezes, nenhuma?

AM – Se eu chorei na sua frente, por que não choraria (risos)? Obviamente que sim.

PAS – Lembra algum caso de quando chorou na frente de um deles?

AM – De Maria Bethânia. De Maria Bethânia.

PAS – Por quê? Vai chorar de novo (risos)?

AM – Não (ri). É difícil responder essa pergunta, porque nem me lembro em que… Não, vou te dar. Não era mais patrão dela, mas estava em Nova York. Um dia recebi esse disco que foi muito criticado por muita gente, no qual ela interpreta Roberto Carlos. Eu chorava, rapaz.

PAS – Mas então não foi na presença dela?

AM – Não. Não me lembro do disco o qual chorei na frente dela, mas teve um disco, sim, vamos dizer em 1973, o terceiro ou quarto disco dela na companhia.

PAS – Drama?

AM – Não me lembro, mas vou te dizer. É uma capa em que ela tem cara de palhaço. Não tem cara de palhaço, mas é uma coisa meio palhaço.

PAS – Ah, sei, é o Drama ao vivo.

AM – Será ao vivo esse? Eu me lembro, ficava transtornado, emocionado, ouvindo isso com ela. E a Bethânia também tem – ou tinha, porque a gente já não trabalha junto – uma capacidade de me emocionar muito, muito grande, pela generosidade dela, pelo caráter amoroso dela, mas genuinamente amoroso.

PAS – Ou seja, aquela imagem de soberba também é só de fachada?

AM – (Ri.) É. Quer dizer, não sei como ela está hoje, né? Mas mesmo naquela época acho que não era para inglês ver. Era assim, uma pessoa que guardava suas distâncias, socialmente falando. E quando você penetrava na outra porta, que era a porta pessoal que se abria para você, você tinha um personagem maravilhoso.

PAS – Você conta ali de ter que ter ido a Santo Amaro apagar um incêndio entre ela e Caetano, a chamado de dona Canô, quando estavam gravando Drama. Também conta isso bem rapidinho…

AM – (Ri.) É, dona Canô quase que me deu uma bronca.

PAS – Era culpa sua?

AM – Dizia ela. Mas dona Canô sabe de tudo, ela não falava no sentido “seu filho da puta”… Primeiro que não falaria assim, o tempo que convivi com ela realmente apreciei ela muito, muito.

PAS – Era “vem aqui resolver, você que criou essa confusão”?

AM – É, exatamente. Mas ela estava também triste. Como falaria uma baiana? “Olha, veja, meu filho. Sempre e sempre estiveram muito bem e agora, por causa dessa idéia tua, estão brigando.”

PAS – Quando você menciona o episódio de Eu Também Quero Mocotó (no Festival Internacional da Canção de 1970), dá uma versão que eu nunca tinha ouvido, de que as loiras ao redor de Erlon Chaves se ajoelhavam simulando fazer sexo oral nele. Foi isso que irritou as esposas dos generais? Sempre se diz apenas que foi porque elas estavam seminuas…

AM – Muito vestidas não estavam. Mas que se ajoelhavam na frente do Erlon e simulavam sexo oral, disso tenho absoluta certeza. Agora, se isso chocou as esposas dos generais? É até uma falta de elegância, porque chocou o Brasil inteiro. Não foram só as mulheres de generais, não. Quando as mulheres começaram a se ajoelhar e o público percebeu o que era o mocotó, ninguém mais queria.

PAS – O público mesmo se voltou contra ele?

AM – É. Foi um escândalo.

PAS – Você achou o que na época? Também se chocou?

AM – Não, eu fiquei puto com Erlon, francamente. Entendo que Erlon e companhia possam querer agredir a sociedade porque a sociedade agrediu a eles. Agora, não fez bem para ninguém, não ganhou a causa de nada. Fiquei puto com Erlon, porque, porra, a música não era dele, nada era dele, eu é que fui lá, eu que pedi para ele. E pedi consciente de que ele tinha toda a capacidade de fazer isso muito bem. Aí o cara toma essa iniciativa sem falar? Poderia dar um telefonema, falar “olha, André, eu estou com vontade de fazer isso, o que você acha?”, ou “estou te informando que vou fazer isso”. Não, nada.

PAS – O episódio causou problemas para você e a gravadora junto à ditadura?

AM – Não. Não me lembro, não. Foi?

PAS – Não sei. Sei que ele foi preso.

AM – É, mas aí eu não estava com disposição para ir lá falando grosso para salvar a pele dele (ri).

PAS – Havia uma questão racial em o Brasil se chocar de ver um homem negro rodeado de mulheres brancas? Não devia ser só pela coisa sexual.

AM – Ah, claro. Você bota tudo, né? Sexualidade, racismo, agressividade, recalque.

PAS – Falar nisso, não tem nada a ver, mas é engraçada a passagem em que você conta que o pessoal da bossa nova andava ou na sua frente ou atrás de você, e que era por causa dos tamancos e das roupas que você usava.

AM – Era 1957. Na época ninguém falava nada. Depois de muito tempo, Roberto Menescal se lembrou e me contou a história.

PAS – Quer dizer, você tinha percebido que acontecia, mas não sabia por quê?

AM – Pois é, eu achava estranho, né? Uns estavam três passos na frente, outros três passos atrás, e eu estava no meio. Mas eu dava pouca conta do português, pensava que estavam querendo falar entre eles ou não sei o quê. Mas eu não tinha me tocado que havia uma coisa, primeiro, tão intencional e, segundo, tão micha.

PAS – Seria uma vergonha deles em relação a você?

AM – É, a bossa nova era muito careta, né?

PAS – Esse fato isolado dá a dimensão de que havia um lado careta mesmo, mas também era década de 1950… Mas você era exótico, digamos? Como era isso, para a cabeça careta deles?

AM – Eu não era exótico. O jeans eu trazia da França, os tamancos da França, e a camisa era Lacoste, não é tão exótico assim, né? Só que a camisa era vermelha (risos).

PAS – Era outro choque cultural…

AM – Eles eram, e são, todos eles, de uma classe média muito bem pensante, muito bem estruturada sobre o que faz, o que não faz. Todo mundo foi educado nos colégios de melhor qualidade, se não me equivoco.

PAS – Um tipo de aristocracia também?

AM – É… A Galeria Menescal está ali, eu acho que o pai do Carlos Lyra era um militar muito graduado. Tom vem de uma família se não rica pelo menos de muito boa classe média. Vinicius de Moraes já entrou depois dessa época, mas era a mesma coisa, um diplomata. João é que talvez seja a pessoa mais chão, mais pé na terra.

PAS – Veio do interior da Bahia…

AM – É, interior da Bahia, e naquela época, né? Mas você vê, o João estava sempre de gravatinha e terninho. Nara Leão era de uma família inclusive rigorosa.

PAS – É curioso que o cara mais destoante de todos viesse a se tornar a síntese de todos.

AM – É mesmo, é isso mesmo.

PAS – Estávamos falando das confusões políticas, e esta história também é surpreendente: fizeram um abaixo-assinado para que você fosse expulso do Brasil, e alguns artistas assinaram? Como foi isso?

AM – Isso de mim você não vai tirar um nome (risos).

PAS – Mas você tem mágoa deles?

AM – Não, não tenho nem mágoa. Mas acho que é um assunto que é tão vergonhoso para eles que talvez já tenham mudado de opinião, e quase 30 anos depois vão ter que responder por uma coisa que disseram em certo momento. Posso dizer que eram quatro ou cinco. Mas não eram quatro ou cinco michos, eram pessoas de uma certa importância.

PAS – Deve ter te chocado saber disso?

AM – Eu não acreditei. Eu não acreditei. Porque achei que, dentro do meio dos artistas, eles tinham o direito de ter opinião divergente de mim, tinham direito em determinados momentos de ter raiva e até ódio de mim. Mas isso é em família, não era para passar para político ou para militar.

PAS – O que motivou essa reação?

AM – A origem dessa história foi que havia um jornalista negro aqui no Rio que se chamava Tales Batista, um repórter da Manchete. E por essas coisas malucas do Adolpho Bloch, ele adorava o Tales Batista. Eu conhecia bem o Tales, ele veio me ver um dia e disse: “Você sabe que existe um movimento negro na zona norte, espetacular?”. Eu fui lá, nem sei se o lugar que menciono no livro é o lugar certo, um estádio de basquete, São Cristóvão ou não sei muito bem onde, mas não tem importância. Cheguei lá, tinha 15 mil pessoas, e aquele “gan, gan, gan”, todo mundo bonito, os únicos brancos éramos eu e minha mulher. Aí comecei a falar com a imprensa, tanto do Rio quanto de São Paulo. Começou notinha aqui, notinha lá, até que Veja fez cinco ou seis páginas. E aí baixa lenha!

PAS – Baixa lenha? A Veja falava mal?

AM – Puta! Que isso é perda da cultura negra, não sei o quê, pode imaginar tudo que poderia ser. As pessoas que nessa situação tinham mais ressentimento comigo por ter trabalhado tropicália e outras coisas, e não ter trabalhado o samba convencional, largaram a lenha. Dali aconteceu, um dia Aloysio e João Araújo me telefonam, dizendo “ó, estão queerendo te expulsar do País”.

PAS – Mas qual era a justificativa desse abaixo-assinado?

AM – Aí, estou chegando nisso, tinha um coronel que naquelas épocas de Calabar já tinha nos tirado de problemas. Telefonei ou pedi ao João Carlos Müller, que era meu advogado, que telefonasse para esse militar, e ele disse que, de fato, estava passando um processo lá. “E tem mais, tem artista pedindo a expulsão.” Mas por que motivo? Porque o Midani estaria trazendo dinheiro dos negros norte-americanos para fazer revolução nas favelas brasileiras. Tudo isso por intermédio de Quincy Jones e da Time Warner. Eu aqui, ele lá estaria me mandando dinheiro que passaria pela Time Warner para fazer levantamento nas favelas aqui!

PAS – E não era verdade?

AM – Imagina!

PAS – Hoje você poderia falar, se fosse, seria até legal.

AM – É, seria legal, mas não foi o caso, não.

PAS – E nem você era “agente da CIA”, como se chegou a publicar na imprensa?

AM – (Ri.)

PAS – Ih, olha, você não respondeu, hein?

AM – Pedro, vou dizer, você está implicante (risos)!

PAS – Tem aquela parte em que você encontra um agente da CIA no Caribe…

AM – Essa história é maravilhosa. Ele e outras pessoas tinham sido convidados para ajudar o Estado-Maior brasileiro a planejar a revolução de 1964. E o cara tinha adorado o Brasil (ri), achado ótimo. Falava um português ruim, mas falava. Gostava, dizia, “puta, a gente passou um tempo tão gostoso lá” (risos).

PAS – Os brasileiros não tanto…

AM – É, os brasileiros não, mas isso não era o caso.

PAS – Ele tinha o maior orgulho do que fez?

AM – É, ele “fez bem” para o Brasil, visto assim, entende? Mas encontrar isso numa ilha em que eu estava perdido no meio das Caraíbas, numa pequena pousada? Porra, é uma sorte de um em 10 milhões, né?

PAS – Isso porque você tinha ido para um congresso e foi parar na ilha errada.

AM – É, ademais.

PAS – Mas André, então era um delírio total essa história de que Quincy Jones dava dinheiro para o movimento negro brasileiro?

AM – Total, total.

PAS – Porque, no fundo disso, há mais uma vez um componente racista, não? Black music, você dando apoio, a imprensa reagindo contra…

AM – É, como menciono talvez mal no livro, porque não sou escritor, acho que o establishment brasileiro, quer seja Juscelino, Jânio, Lott, Castello Branco, Fernando Henrique, Lula, todo mundo tem medo dessa coisa da favela. Porque sabem que se um dia esse troço explodir estão fodidos, ou estamos todos fodidos.

PAS – Você gostaria de ver o circo pegar fogo? Que a favela descubra esse poder?

AM – Olha, vou te dizer, se eu tiver satisfação de que pegue fogo, e poderia estar, a primeira coisa que vou fazer é ir para Paris (risos). Eu não vou ficar aqui, porque eles estão ali (aponta para a floresta que se vê das janelas), vão chegar aqui em primeiro lugar. Por mais idealista que eu seja, não sou suicida.

PAS – Mas aí você falaria para eles que ajudou, que recebeu dinheiro do Quincy Jones (risos)…

AM – E reencontrei essa mesma coisa na história das rádios comunitárias, você deve ter visto no livro. Tem sempre esse medo, e eles têm razão de ter medo. Mas medo enfiando a cabeça dentro da areia não facilita nada. Eles têm que ter medo e confrontar esse medo e dar os meios para que isso não aconteça.

PAS – Para terminar, fiquei pensando, acho que você está feliz com este livro. A última vez que entrevistei você foi quando estava fazendo o Ano do Basil na França, e sua cara era mais preocupada…

AM – Mais tensa, né?, claro. Foi muito bom o livro por vários pontos de vista. O primeiro que acho é que tive a coragem inconsciente de escrever um livro, e segundo, em português. Terceiro, consegui escrever um livro de cuja qualidade eu não tenho a menor idéia, mas consegui escrever da maneira que falo. Então já essas três coisas são gratificantes, sinceramente. Mas se o livro é bom ou não é bom, isso o público é que vai saber. Fico também feliz de não ter me metido em fofocas. A tentação é grande, né?

PAS – Embora o jornalista aqui fique aqui cutucando bem nelas…

AM – É… Mas sinto uma satisfação para comigo mesmo. O que isso vai representar são outras coisas, mas isso de dizer “eu vou sentar às 9 horas da manhã, só saio daqui às 3 da tarde, escreva uma linha, porra nenhuma ou três páginas”, você sabe bem, e eu nunca tinha tido isso. Para uma pessoa como eu é um desafio filho da puta.

PAS – Deu vontade de fazer outro, já?

AM – Não, não, porque acho que num outro eu deveria, aí sim, ter certas qualidades de escritor. E nesse me safei porque estou contando histórias, então não precisa muito mais do que contar histórias. O que eu fiz foi isso, e pronto, confiando que a história é boa, interessante. Outro livro certamente eu gostaria de escrever, mas eu teria que ter qualidades que não possuo.

PAS – As fofocas, coitadas, também são discriminadas, não? É como se fossem péssimas, mas… Essas histórias nunca vão ser contadas, nem depois que você e nenhum dos personagens estiverem mais aí?

AM – Se os artistas que são relacionados vão falar, eu acho ótimo, não tem problema nenhum.

PAS – Mas eles não vão querer…

AM – Não vão querer.

PAS – Fora do Brasil há de tudo, inclusive biografias mais fofoqueiras, mas não existe esse bloqueio todo.

AM – Não, eu não gostaria, não. Pessoalmente não gostaria. Nem sei se contaria com qualidade. Justamente porque é uma coisa com a qual eu não concordo.

PAS – Isso porque é história da vida privada?

AM – Não é, quando a gente começa a falar sobre isso a gente pensa em histórias amorosas, sexuais. Mas não é bem isso, ou nem só isso. Acho que tem circunstâncias de convívio, de confidências mútuas. Minhas ou das outras pessoas, mas certamente das outras pessoas para mim, que me fizeram reservadamente. Conseqüentemente, no jogo está escrito que…

PAS – Mas então o destino é esse, ninguém vai contar e um dia a história não vai existir mais, porque os personagens não estarão mais aí?

AM – Se perderam civilizações inteiras.

PAS – Não pode deixar uma cápsula para o futuro?

AM – Uma fofoca ou outra (ri), né?

PAS – Como você mesmo disse, no início da entrevista, com os estrangeiros – principalmente Rod Stewart – você não tomou tanto cuidado assim.

AM – Claro, eu sabia que não podia escrever um livro inteiro sem alguma coisa. Então fui buscar nos de lá, não fui buscar nos daqui.

PAS – Não há o risco de eles ficarem sabendo, e bravos?

AM – Bom, podem ficar bravos, eu não trabalho mais em disco, então não me importa. E se ficarem mesmo bravos eu tenho pessoas que podem aferir o que eu estou dizendo. Rod não andou sozinho, estava acompanhado. E a pessoa que estava acompanhando ele existe até hoje, está por aqui, sei onde ela está.

PAS – Mas no fundo disso está um apreço maior seu pelos artistas brasileiros?

AM – Uma discrição maior. Mas também acho que, em muitos casos, o comportamento dos artistas brasileiros é muito lisonjeador.

PAS – Você está dizendo que os estrangeiros são mais encapetados?

AM – É, e conquistadores, né? O que eu lamento que o Brasil não seja o bastante, eles o são demais. É a história que conto de colonizado e colonizador. Acho seriamente que até o dia que o Brasil considerar que é um país colonizador ele não vai encontrar o seu equilíbrio. Você imagina os Estados Unidos reclamarem que “pô, você sabe que nós, colonizados…”? Isso nem entra pela cabeça.

PAS – Brasil colonizador, é uma idéia no mínimo incomum…

AM – Não. Seus antecedentes quais são?

PAS – Não sei bem, Italianos, espanhóis…

AM – Esse (aponta para o fotógrafo Ismar Ingber, ruivo) também saiu da Europa Central. Você, não, já é uma mistura. Mas também tem europeu aí dentro.

PAS – Somos todos ciganos, no fundo…

AM – Então, como os europeus que estão aqui sentados podem dizer que foram colonizados? Isso é uma coisa fanstasmagórica. É a mesma coisa que os irlandeses, suecos e alemães que chegaram aos Estados Unidos. Imagina, dizer que somos assim porque somos colonizados? “Não é culpa nossa, culpa de Portugal” (exalta-se), vai dizer isso?

PAS – Mas é uma mistura, há o aspecto colonizador e também o colonizado – os índios, os africanos.

AM – Mas o colonizado não tem voz, bichinho. Claro, o negro e o índio se colonizaram, mas quem tem ou teve voz até agora? O mais que tem voz é o tal do Lula lá, que é um candango do Nordeste. Mas tem essa coisa, o Brasil é colonizador, é resultado da colonização que nós fizemos. Nós chegamos aqui, nós matamos os índios, nós escravizamos os negros, nós fizemos destse país o que ele é (exaltado). Estou um pouco exaltado com essa coisa, mas eu já briguei muito com pessoas com que privo por causa disso.

PAS – É um modo de a gente sempre se fazer de vítima?

AM – É isso. Não tomar responsabilidade.

PAS – É interessante ver como tudo se mistura, nas passagens do livro em que você vai encontrar elementos iorubás no Egito, em New Orleans, na África…

AM – …Cuba, New Orleans e Brasil.

PAS – Somos todos nômades, na verdade?

AM – É. É bom.

PAS – Como um cara que nasceu no Oriente veio ajudar a fazer a música pop do Ocidente?

AM – É o acaso da vida, né?

PAS – Lá você não teria feito a música de lá, da mesma maneira?

AM – Não, não teria. Não teria as mesmas preocupações. Se eu tivesse ficado na Síria hoje eu estaria pensando nos judeus, “vamos à guerra contra Israel”, “vamos matar esses filhos da puta”. É isso que eu estaria falando, e certamente minha vida teria sido outra, completamente diferente.

PAS – Você construiu alguma ligação com a música de lá?

AM – Não, nenhuma. Claro, tenho discos, coisas, mas não tive preocupação disso. Eu poderia ter tido contato com a ministra síria da Cultura, da última vez que fui lá, mas não consegui me organizar e ficou por isso mesmo. Mas que eles e os arredores são uma civilização muito interessante, são, de uma grande beleza.

PAS – Bem, estou satisfeito, ou minimamente satisfeito (risos). Daria para ficar conversando por seis horas sem acabar o assunto.

AM – Você é que é fominha de notícia (ri)! Mas está certo, está certo. O Pedro de vez em quando (fala para o fotógrafo e a assessora de imprensa da editora, Maria Fernanda Macedo), uma vez por ano, me aparece por e-mail me fazendo umas perguntas…

PAS – …Que ele não quer responder (risos)…

AM – Algumas eu não respondo, algumas eu falo.

PAS – Não, estou brincando, você responde. Muito.

AM – A entrevista que fizemos sobre o jabá, meu filho, ouvi falar nela (ri), ouvi falar nela. (assinantes do UOL ou da “Folha” podem lê-la aqui, aqui, aqui, aqui e aqui; não-assinantes podem encontrá-la facilmente por um google.)

PAS – Foi muito bacana. Porque você topou falar abertamente sobre o assunto. Aliás, nem falamos sobre isso hoje.

AM – Mas é isso, quando acho que é valioso, aí a gente fala. Agora é esperar as reações ao livro, porque muita gente vai dizer “não, não foi assim que foi”, “o filho da puta não inventou isso, quem inventou fui eu!”.

PAS – Sua expectativa é que vai ter muito disso?

AM – Alguma coisa vai ter.

(Aqui, no blog-irmão deste, há um texto-irmão deste, talvez oposto, talvez complementar, talvez um pouco de cada coisa.)

(*) Beni Borja leu a entrevista e detectou um engano que cometi nesse ponto, uma confusão que fiz entre os papéis de Michael Sullivan e Miguel Plopschi nessa história das relações entre diretores de gravadoras, compositores, sucessos populares… Na caixa de comentários, está o esclarecimento do Beni na íntegra, em maiores detalhes (gracias, companheiro!).

 

Caymmi volta para o mar

3 setembro 2008

 

Da CartaCapital 510, de 27 de agosto de 2008.

 

 

CAYMMI VOLTA PARA O MAR

O compositor baiano nos lega uma obra simples, compacta e precisa

 

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

 

Em 1978, quando procurava traduzir seu ideário musical num texto explicativo, Dorival Caymmi cunhou uma definição precisa não só da obra iniciada em meados dos anos 30, mas de si próprio. Em raro momento de prosa, escreveu assim, no livro Cancioneiro da Bahia, de letras, cifras e comentários caymmianos: “Os negros e mulatos que têm suas vidas amarradas ao mar têm sido a minha mais permanente inspiração. Não sei de drama mais poderoso que o das mulheres que esperam a volta, sempre incerta, dos maridos que partem todas as manhãs para o mar”.

 

O mulato de sangue africano, italiano e português se referia ao imaginário norteador de parte substancial de sua criação, mas hoje parece nítido que oferecia também uma metáfora sobre o modo como ele enfrentou a vida, o trabalho e a arte. Nascido em Salvador, em 1914, e morto no Rio, no sábado 16 de agosto de 2008, ele lega ao Brasil um relicário musical compacto, conciso. Segundo documentou a neta Stella, na biografia O Mar e o Tempo (2001), são meras 101 canções, apresentadas ao longo de mais de sete décadas de presença na cultura local.

 

Cedo Caymmi descobriu-se pescador de canções. Fisgou-as em água salgada, na praia de Itapuã, e carregou-as na bagagem quando, aos 23 anos, pegou um ita no Nordeste e veio ao Rio morar, para sempre. A saudade da Bahia seria o eterno retorno do pescador musical, que faria fama e fortuna, aqui e alhures, a partir da associação com Carmen Miranda (1909-1955). Portuguesa criada carioca, a “falsa baiana” apanhou de Caymmi o samba O Que É Que a Baiana Tem? (1939) e os balangandãs que espalharia pelos filmes da Atlântida e, depois, de Hollywood.

 

São do Caymmi jovem e recém-exilado no Rio pedras fundamentais como Promessa de Pescador (1939), O Mar (1940), Noite de Temporal (1940), É Doce Morrer no Mar (1941, sobre texto de Jorge Amado) e A Jangada Voltou Só (1941), logo merecedoras da alcunha de canções praieiras.

 

O mar, como se sabe, foi o nutriente essencial do compositor-inventor que levantava vôo. Mas não era o único. Pouco se fala sobre isso, mas nas primeiras canções, como em muitas outras depois, a morte seria tema sempre à espreita, de a jangada saiu com Chico Ferreira e Bento/ a jangada voltou só a é doce morrer no mar/ nas ondas verdes do mar. Caymmi fazia-se porta-voz simbólico do operário braçal pobre e oprimido, e, nos cantos de trabalho que entoava, volta e meia a noite era de temporal.

 

A vida, o trabalho e a morte no mar voltariam de modo recorrente à voz de trovão de Caymmi. Outro ápice foi a aterrorizadora suíte História de Pescadores, que ocuparia metade do LP Caymmi e o Mar (1957). Ao mar, somaria um conjunto restrito e delimitado de temas, como a paixão pelo samba (O Samba da Minha Terra, 1940), as coisas e festas da Bahia (A Preta do Acarajé, 1939, Vatapá, 1942, Dois de Fevereiro, 1957) e, depois, os ritos do candomblé (Oração de Mãe Menininha, 1972).

 

Caymmi seguiu o curso da música gravada no século passado, da consolidação do disco como bem comercial na “era do rádio” à desmaterialização da música via iPod. Gravou nos modelos inaugurais as mais importantes criações. Quando, em meados dos anos 50, foi inventado o LP, de várias músicas reunidas num “álbum”, priorizou regravá-las, apenas as adequando aos novos figurinos. Lançado ao mar da indústria musical, foi à captura dos peixes-canções que já conhecia, e que não ficam em risco de extinção com sua morte.

 

Adquiriu pecha de autor “lento”, até “preguiçoso”, mas é que seu imaginário estava pronto, consolidado. A Caymmi, nunca interessou dourar pílulas de criatividade ou abundância.

 

O oceano musical ficava por vezes revolto e tornava instável a jangada caymmiana. Ele presenciou as rupturas que vieram, e até participou de algumas, numa química que nem sempre o artista mais velho e o mais novo conseguem (ou querem) produzir.

 

Nos anos 40, por exemplo, surgia uma antítese bombástica de Caymmi, chamada Luiz Gonzaga. Onde um era praia e mar, o outro era sertão e caatinga. Se um co-inventara o samba baiano, o outro esparramaria o forró pernambucano a partir do estrondo de Baião (1949). O que num era mansidão e idílio explodiu no outro como árida e bruta realidade. Pareciam incompatíveis, mas eram necessariamente complementares. Com Caymmi e Gonzaga (inclusive no patriarcalismo agudo de ambos), o Brasil teve de começar a compreender seu norte, seu Nordeste, suas entranhas.

 

Não se sabe se houve relação de causa e efeito, mas foi exatamente aí que a música de Caymmi sofreu a mais forte (talvez a única) virada. De repente se acariocou, abrandou o trovão e a veia social, foi cantar Copacabana. E cumpriu papel crucial na popularização do samba-canção, mais lento e menos marítimo que qualquer peça anterior. Nunca Mais (1949), Não Tem Solução (1950), Você Não Sabe Amar (1950), Sábado em Copacabana (1951), Nem Eu (1952) e Só Louco (1955) hoje soam como prenúncios em série da chegada da bossa nova, em 1958.

 

A guinada afastou-o da crueza de Gonzaga e o aproximou do futuro. João Gilberto tirou do baú de Caymmi vários dos sambas que vestiria de bossa, como Saudade da Bahia (1957) ou Doralice (1945). Caymmi apadrinhou o discípulo também baiano na gravadora Odeon. Nos anos 60, gravaria discos em parceria com Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Uma canção de Caymmi Visita Tom e Leva Seus Filhos, Nana, Dori e Danilo (1964) trazia a voz da cantora Stella Maris, que abandonara a profissão ao se casar com Caymmi. Ela não entrava no rol de convidados agraciados no título.

 

Idolatrado pelos tropicalistas de 1968, passaria mais ou menos ileso pelo próximo projeto arrasa-quarteirão de ruptura na música nacional. Nos anos 70, Gal Costa e Maria Bethânia popularizaram Oração de Mãe Menininha (as duas) e Modinha de Gabriela (a primeira).

 

O africanizado LP Caymmi (1972) foi o derradeiro a conter vários (e inspirados) temas inéditos. A partir daí, afastou-se progressivamente de nossa presença. Viveu a vida na brisa, com docilidade de pescador, um amanhecer após cada pôr-do-sol. Há três décadas já é história em estado bruto. Viveu 94 anos e foi descobrir (mas não nos contará) quão doce é morrer à beira do mar. O vento que o soprou ao encontro de Iemanjá foi o do mar adotivo, de Copacabana, não o de Itapuã.

O artista sem obra

14 julho 2008

Da “CartaCapital” 503, de 9 de julho de 2008.

O artista sem obra

Uma biografia ilumina o poeta Jayme Ovalle, que não publicou um só livro, mas influenciou dezenas de intelectuais

Por Pedro Alexandre Sanches

Poeta e escritor, o paraense Jayme Ovalle jamais publicou um livro. Como compositor, criou meras 33 canções ao longo de 61 anos de vida, de 1894 a 1955. Ainda assim, sua história inspira O Santo Sujo – A Vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify, 298 págs., R$ 55), uma alentada biografia de autoria do jornalista e escritor mineiro Humberto Werneck. 

“Como jornalista e como pessoa, sempre gostei dos personagens colaterais. Não tenho muito interesse pelos caras do primeiro plano”, afirma Werneck. “Para mim, como personagem, Salieri é mais importante que Mozart.” 

Nem de longe Werneck é o único a encontrar inspiração no vulto de Ovalle. Ao redor desse obscuro Salieri esvoaçou uma galeria extensa de Mozarts, entre eles Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Candido Portinari, Emiliano Di Cavalcanti, Heitor Villa-Lobos, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos… 

Alguém diria, de pronto, que foi Ovalle quem orbitou em torno deles. Mas todos (e muitos mais) conviveram intensamente com ele, dedicaram-lhe poemas, escreveram inspirados por sua figura, fizeram-no personagem de crônicas e romances, retrataram-no em tela. O Santo Sujo coleciona e organiza dezenas dessas citações.

Produtor contumaz de insights e frases espirituosas, Ovalle foi criador intuitivo da “nova gnomonia”, um intrincado sistema de classificação de humanos (ou não humanos) em “parás”, “dantas”, “kernianos”, “onésimos” e “mozarlescos”. A partir de 1931, virou coqueluche entre intelectuais como Bandeira (o primeiro a registrar a gnomonia em texto), Vinicius de Moraes, Antonio Candido e Sérgio Buarque de Hollanda. 

“Era uma luz refletida em outros. A luz dele bronzeou uma série de caras, mas não se viu esse sol”, define Werneck. Na “vida real”, Ovalle era fiscal da Alfândega carioca. Em 1933, tornou-se funcionário da Delegacia do Tesouro Brasileiro em Londres e, depois, em 1946, em Nova York. 

No exílio londrino, viveu o maior surto criativo. Enviou ao Brasil partituras transcritas por um amigo pianista. Concluiu Poemas Ingleses e The Foolish Bird, datilografados por uma secretária e jamais publicados. E imaginou a História de São Sujo, que nunca escreveu. “Era um artista, mas não tinha os meios para se expressar, e sacava isso. Só em Londres resolveu se estabelecer como artista, e percebeu que não ia, que ia cumprir a profecia de Mário de Andrade”, avalia o biógrafo. 

Refere-se à dura avaliação que o escritor paulista fez para Manuel Bandeira, intermediador da amizade entre os dois: “Tenho a certeza de que não chegará a criar coisa nenhuma de durável”. Segundo o biógrafo, não se sabe se Ovalle tomou conhecimento dessa avaliação, mas é certo que se ressentia por acreditar que Mário, também musicólogo, não lhe atribuía a devida importância. No entanto, ele fora citado nominalmente em Macunaíma (1928), numa lista de “macumbeiros”. Católico fervoroso na maturidade, transitou livremente entre várias religiões. 

Filho de uma cearense descendente de indígenas e de um chileno radicado na Amazônia no auge do ciclo da borracha, jamais teve educação formal. “Estamos falando de um homem que nunca foi à escola, e que por pouco não era analfabeto”, definiu-o em depoimento ao biógrafo a escritora norte-americana Virginia Peckham, a primeira e única esposa de Ovalle, com quem ele se casou aos 56 anos e teve a filha Mariana aos 57. 

Tocou violão e compôs sem possuir tampouco qualquer formação musical. Azulão, sua canção mais conhecida, recebeu versos de Manuel Bandeira e tem atravessado as décadas em interpretações de Francisco Alves, Elizeth Cardoso, Nara Leão, até uma recente de Maria Bethânia. 

Em Nova York, aproximou-se e ficou amigo do jovem Fernando Sabino, que assim o definiria: “Um homem estranhíssimo, muito moreno e com olhos verdes que pareciam ter uma luz, olhos de águia, e cabelos alvoroçados, uma figura estranha, de índio, não índio dos nossos, talvez um índio peruano”. 

Sabino foi elo simbólico para a concretização do trabalho de Werneck: “Desde adolescente, eu encontrava citações sobre Ovalle. Mais tarde soube que o personagem Germano, de Encontro Marcado, um livro importante para mim, era inspirado nele. Fui conversar com Sabino, comecei a juntar uma série de coisas”. 

A construção de O Santo Sujo teve algo de “ovalliano”, para usar um termo caro ao biógrafo. A feitura se estendeu por 17 anos. “Várias vezes desisti. Pensei em parar e escrever sobre um grande amigo de Ovalle, o escritor Augusto Frederico Schmidt, um grande personagem, a cabeça pensante de Juscelino Kubitschek, todo ambivalente. Outro é Gilberto Amado, que escreveu muito sobre Ovalle e ninguém mais lê. Nem os cupins comem mais seus livros. É injusto”, afirma. “Mas, quando via, estava outra vez em brasa falando de Jayme Ovalle.” 

O fogo se reacendeu pelo interesse do editor Augusto Massi, da Cosac Naify. E ganhou empurrão decisivo quando Paulo Werneck, filho do biógrafo, foi trabalhar na mesma empresa e se tornou co-editor de O Santo Sujo. “Aí ele virou o pai, e eu, o filho”, diz, com orgulho. 

Na longa pesquisa, Werneck acumulou dezenas de achados. Descobriu que começou por Ovalle o hábito de usar palavras no diminutivo, futuramente uma marca distintiva do discípulo Vinicius de Moraes e da bossa nova, entre prainhas, barquinhos e tardinhas. 

Uma irmã de Ovalle casou-se com o então presidente da República Hermes da Fonseca, e Werneck o localizou na chegada do samba ao Palácio do Catete, por intermédio da primeira-dama, Nair de Teffé. Ao tocar o Corta-Jaca de Chiquinha Gonzaga, ela atraiu a ira do senador Rui Barbosa: “(É) a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens (…). Mas nas recepções presidenciais o Corta-Jaca é executado com todas as honras da música de Wagner”. 

Pois Ovalle, um entusiasta do folclore, também andou tocando nas rodas palacianas. “Foi um dos facilitadores para o samba chegar ao palácio. Erudito versus popular não fazia nenhum sentido para ele”, diz Werneck. 

Outro caso remete ao antropólogo Gilberto Freyre, que por certo tempo dividiu casa com o paraense no Rio e lhe deu lições de inglês antes da partida para Londres. O aluno nunca chegou a aprender o idioma, embora lutasse para escrever em inglês The Foolish Bird e os Poemas Ingleses. “Acho que tudo isso lhe causava angústia e amargura, sim. Nesse sentido, foi uma figura trágica, por trás do epidérmico mais pitoresco”, analisa Werneck. 

E prossegue: “De tanto ler esta lorota, eu achava que Virginia devia ter um baú cheio de escritos, de ouro literário. Não tinha. O que havia é fraco, é muito fraco, de diletante. Ele não produziu uma obra, mas o que significou para tanta gente como espetáculo humano…” 

Autora do obscuro Harm’s Way na juventude, Virginia de certa forma absorveria os bloqueios do marido. Ensaiou escrever novos livros nas décadas seguintes, mas desde que o conheceu nunca mais publicou nenhum. 

O senso comum provavelmente classificaria Ovalle como um artista “fracassado”, mas o biógrafo rejeita apaixonadamente essa leitura. “Ele é prova de que a arte pode se realizar de outra maneira, que não seja formalizando-se em texto ou música. Há vidas que são arte.”

A flor e o espinho

9 junho 2008

Segue abaixo uma versão mais encorpada da entrevista com Gilberto Gil, publicada na Carta Capital 499, que está nas bancas, sob o título A flor e o espinho. Uma diferença que se poderá notar é que, abaixo, Gil, o músico-ministro, é chamado de “você”, e não de “o sr.”, tratamento dado ao ministro-músico na versão em papel. Questão de respeito à liturgia, mas é que tenho entrevistado o cantor desde 1993, quando eu estudava jornalismo na ECA e ele (imagino) nem sonhava em ser ministro de Estado. Nesses 15 anos de entrevistas, da Folha à CartaCapital, entre altos e baixos de antipatias e simpatias, para mim Gil sempre foi “você”, e é árduo encarar hoje o ministro e transformá-lo, num repente, em “senhor”.

Em geral, tento manter a disciplina quando é o ministro o objeto de entrevista. Nesta ocasião, cheguei à produtora Gege, na Gávea, no dia 2 de junho passado, planejando tratá-lo de “sr.”, pela liturgia etc. Mas, sem querer, arremessei um “você” logo na primeira pergunta, a primeira palavra da primeira pergunta. Aí, danou-se, não deu mais. Adaptei no momento da edição para a CartaCapital, mas acho que aqui é possível um pouquinho mais de informalidade, não?, já que desta vez o entrevistado era (quase só) o músico de volta ao disco, com Banda Larga Cordel.

Pedro Alexandre Sanches: Você tem dito que se reconciliou com a musa inspiradora. Isso significa que estava brigado com ela?

Gilberto Gil: Não. Eu só disse “fique quieta” para ela. Mas, ainda que seja autônoma, ela trabalha em estreito diálogo com a alma da gente. Eu tinha dito a ela: “Não tenho tempo agora, não posso, não me futuque”. Então, pronto, ela ficava quieta. Eu realmente não dava nenhuma atenção a ela durante os primeiros quatro anos no Ministério da Cultura [MinC]. Se fosse dar ia ficar complicado, porque ela é exigente, em termos de dedicação. Você tem que dedicar a alma inteira, o tempo, o corpo. Eu não tinha tempo. Foram quatro anos de afastamento negociado com ela. Então, depois de quatro anos, eu comecei a… Primeiro, tinha saudade mesmo, e depois já tinha também mais brechas no tempo. As coisas do ministério estavam andando, a gente já tinha se acostumado com a rotina, muito daquela demanda excessiva do início já tinha passado. Já dava para flertar de novo com a inspiração. E aí, pronto, passei a escrever nas viagens, nos hotéis.

Houve também dois fatores deflagradores. Um foi Jorge Mautner, no início de 2007. Ele ia fazer um disco e queria muito fazer umas canções comigo. Veio com dois temas para a gente fazer, e fizemos, em janeiro, nas férias de fim de ano. Foram Os Pais e Outros Viram.

PAS: Que saíram no disco dele.

GG: Saíram. E mexeram já com a coisa, a vontade de fazer música. Depois foi o filme do Moacyr Góes [O Homem Que Desafiou o Diabo]. Ele e Luiz Carlos Barreto, o produtor, insistiram para que eu me dispusesse a fazer alguma coisa, e apesar do tempo acabei fazendo. Fiz Não Grude, Não e O Oco do Mundo, sendo que O Oco do Mundo não entrou no filme.

E pronto, foi isso, voltou. Voltou o gosto, voltou a maneira de abordar. Passei também a escrever as letras diretamente no computador, coisa que eu não fazia antes. Isso também foi facilitando, porque em todo lugar, no avião, nos intervalos de qualquer atividade, eu tinha acesso ao computador e aí podia ir processando, copy-paste, ia montando. O Oco do Mundo eu fiz toda assim, escrevendo abusivamente, aos borbotões, e depois fui selecionando, fui montando inclusive a ordem das estrofes, foi sendo modificada. Tem também isso, a introdução do Word na minha artesania. Acho que esses fatores todos deflagraram a vontade.

Não Tenho Medo da Morte, por exemplo, foi assim: eu estava em Sevilha e levantei um dia, oito horas da manhã, com aquela recorrência do tema da morte, que é um tema que tem estado, aqui e ali, no meu trabalho. Fiquei refletindo um pouco sobre essa coisa corriqueira que é o medo da morte. E fiquei pensando como era. Estava defronte do computador, vendo internet, meus e-mails, e disse: “Ah, deixa eu ir no Word para registrar esse momento de reflexão sobre a morte que estou tendo aqui”. E comecei, não tenho medo da morte. Aí mas, sim, medo de morrer. E aí me senti obrigado a desenvolver aquilo, em meia hora tinha escrito a letra inteira, com o computador ajudando, porque a palavra que não estava adequada eu apagava rapidamente, achava outra. Você vai mantendo a limpeza, a clareza do texto na página, tudo isso ajuda.

PAS: Até então você escrevia à mão?

GG: Até então escrevia, riscava, escrevia, riscava, ia para outra linha, riscava, rabiscava. Ficava aquela coisa confusa. O computador mudou isso.

PAS: O computador eliminou o rabisco?

GG: É. Acho que foram essas três razões, o estímulo do Mautner, o filme do Moacyr e o computador [ri].

PAS: Perguntei sobre a musa, e a gente até confunde um pouco isso com o seu tempo de permanência no ministério. Mas seu último disco com uma grande quantidade de músicas inéditas tinha sido Quanta, de 1997, 11 anos atrás. Na verdade, essa parada, pelo menos no lançamento de músicas novas, é anterior ao ministério.

GG: Foi, foi. Mas é que naquele período todo eu me dediquei mesmo a regravações. Eu quis fazer…, eu fui levado a fazer o disco de São João por causa do filme Eu Tu Eles [2000, de Andrucha Waddington]. Me deu vontade aquele repertório, Luiz Gonzaga era uma coisa que eu queria muito visitar, sim, com um olhar mais cuidadoso e generoso, abrangendo várias canções. E depois quis fazer o disco de Bob Marley. Eu também já tinha muita vontade de fazer, e o disco do Gonzaga me animou. Aí fiz. Logo em seguida fui para o ministério, e aí tive que fazer também um disco ao vivo de regravações, que foi o Eletracústico. A última música que eu havia composto antes do ministério foi Máquina de Ritmo. Foi um pouquinho antes.

PAS: Mas não chegou a apresentar?

GG: Não. Quer dizer, apresentei, sim, no show de reunião dos Doces Bárbaros. Está no DVD dos Doces Bárbaros. Não era completamente inédita, mas eu não havia feito uma gravação propriamente para ela. Fiz agora, para esse disco. Então a retomada do namoro com a musa é isso.

PAS: A retomada acontece em profusão, são 16 músicas, muitas delas com letras longas. Quanta também tinha um pouco isso…

GG: É, e neste caso também há a influência do mundo eletrônico, da internet. Vi outro dia uma crítica do disco que falava isso, “Gil sem filtro”, dizia que eu não teria tido a preocupação de filtrar muito. E eu não tive mesmo, para esse disco. Fui pondo tudo que tinha. [Toca o telefone, é uma assessora do MinC, com quem ele negocia por vários minutos.]

PAS: Já que a política o chamou, pergunto se, considerando as novas músicas, você diria que a experiência política bastante intensa modificou sua música.

GG: Não. O desejo de me comunicar, o impulso de me comunicar através da canção é informado pelos mesmos elementos de antes. É uma coisa do próprio artista, que vem da vivência interior desse talento, desse gosto. Depois uma coisa informada pela cidadania também, que é o desejo de me comunicar em termos de diálogo em relação às questões que nos envolvem no mundo. Isso já era também, sempre foi antes. Essa dimensão política da canção sempre teve na minha geração toda e em mim também, muito fortemente. Continua, nas gerações de hoje, nos rappers. A música ganhou essa coisa, acho que isso vem logo depois da guerra. Os autores americanos, cubanos, franceses etc., e depois os brasileiros, passaram a ter essa dimensão de engajamento, como a arte toda passou a ter. É uma característica ali do século XX, que a arte passa a ter, mesmo as artes plásticas e tudo. Então não tem, já vinha anteriormente.

Algumas coisas que coincidentemente estão na agenda do MinC, como a questão da cultura digital, acabaram passando também. A canção Banda Larga Cordel é bem marcada por essa informação da política, de uns aspectos da política do ministério. Mas fiz Pela Internet bem antes, com esse mesmo impulso e esse mesmo senso de comunhão de um desejo, de uma emergência. Acho que eu teria ido para o caminho da canção Banda Larga Cordel mesmo sem o ministério. Mas, sem dúvida alguma, nesse caso ela compartilha de um impulso que está também na política do MinC, e do governo todo, que é a preocupação com o acesso aos meios eletrônicos e às várias políticas, tanto na cultura quanto em ciência e tecnologia, comunicações. O software livre, que era uma política que já estava ali no governo, não só no MinC… Nesse sentido, sim. O resto, não.

PAS: O que sinto, ouvindo várias vezes o disco, e não sei se tem a ver ou não com a experiência política, é uma disposição maior sua de lidar com temas espinhosos. É “o oco do mundo”, “os narcomarginais”, “orientação sexual”, a morte… Tudo isso não está mais aguçado?

GG: Não… Não sei… Talvez… Mas não é consciente. Não é uma coisa assim… É…, talvez o fato de que tenha tido que comprar algumas brigas no ministério, talvez essa disposição até tenha preparado o terreno para uma receptividade menos acanhada, menos duvidosa, com relação a temas espinhosos. Acho que é uma boa observação sua, eu não tinha me atido a essa análise. Mas ela é pertinente, acho que é possível, sim, que a questão de ter que discutir regulação e normas e todas essas coisas possa ter estimulado um apetite por temas polêmicos. É, é possível, é possível.

PAS: Em Retrato Celular, por exemplo, sinto você meio discutindo, ou debatendo com seu ouvinte, seu expectador, algo como “você está pensando que eu sou Big Brother?”. Há uma pontinha de conflito, entre expor ou guardar, resguardar?

GG: Ali é o personagem da música discutindo com tudo aquilo… E o personagem é quem? É um indivíduo que se dispõe a expor sua vida via câmeras celulares, via meios ágeis de registro.

PAS: Ele está um pouquinho assustado com isso também, não está?

GG: Se eu estou?

PAS: O seu personagem. Pode ser você, mas isso não sei…

GG: Acho que não, ao contrário. Talvez o modo como a fala dele e a narrativa foram sendo construídas possa deixar essa dúvida, mas ele, não, ele diz claramente no final: quero ver quem vê primeiro/ até onde eu vou chegar, até onde eu vou chegar/ filmei tudo o tempo inteiro/ não precisa meditar. É sobre essa disponibilidade imediata dos registros de fragmentos da vida, do tempo, do lazer, de todos os aspectos da vida das pessoas inteiramente entregues e expostos. Acho que é mais isso, o personagem defende mais um sem reservas do que o contrário. Ele é mais a favor, mais entusiasta dessa hiperexposição do que o contrário.

PAS: É que parece que ele está falando “a privacidade acabou, está todo mundo espiando ao redor, então vou fazer isso antes, vou me filmar e me colocar na internet eu mesmo”.

GG: Isso é. Isso faz parte dos elementos do dado apologético da tecnologia. Ele tem isso, “eu tô me antecipando”. Mas na verdade é preciso lembrar que essa música foi encomendada por Andrucha Waddington para a série de tevê Retrato Celular [exibida pelo canal Multishow], onde ele estava se dedicando a esse experimento, que tinha sido estimulado muito por uma conversa que eu tinha tido com ele no sítio de Araras. Eu dizia para ele: “Você gosta, é um jovem experimentador, não tem freios nessa coisa. Acho que devia logo fazer uma coisa com celulares”. Na verdade, eu dizia a ele da coisa do cinema digital, que ele devia fazer um filme com tecnologia totalmente digital. Havia um pouquinho a coisa dos cineastas, do celulóide, manter o filme. Mesmo no mundo dos músicos também há isso, os produtores têm algumas reservas em relação à gravação digital. E eu sempre dizendo a eles: “Vambora, tá na hora de experimentar. Tudo bem que vocês gostem da coisa clássica, do cinema com celulóide e da gravação com fita de tape, mas o celular está aí, o digital está aí, vambora”. E ele chegou depois com essa notícia, de que havia sido convidado para a televisão para fazer um projeto experimental com celulares, entregar celulares a uma série de pessoas para elas filmarem o que quisessem. E a maioria dessas pessoas escolheu sua própria vida, seu próprio ambiente, seu entorno, suas relações mais próximas. Quando ele me pediu então para fazer a canção, eu já estava diante desse quadro todo. O personagem caminha dentro desse enquadramento, ou desse não-enquadramento, esse semi-enquadramento proposto pelo Andrucha. Eu caminho junto com ele, defendendo a experiência, dizendo “é bom, é necessário experimentar nesse nível de entrega e despojamento, de receptividade a essas tecnologias sem reserva”. O personagem é mais a favor do que contra.

PAS: É engraçado que, ouvindo no contexto do disco, eu meio encaixei em algo que estava sentindo, que é esse dado do espírito mais briguento. O Oco do Mundo, por exemplo, parece uma música muito disposta a falar de valores tidos como negativos, de “medo”, “horror”, “terror”, termos que você usa na letra e são ásperos.

GG: É…

PAS: A música do piolho [Olho Mágico] também usa termos mais ásperos, ou mais comumente valorados como negativos…

GG: Não necessariamente como negativos, você poderia dizer ousados, ou coisas assim. Tem uma coisa na canção Retrato Celular, e em outras também, que é usar o duplo sentido, dizer “quer alho”, “chupar uma chupeta” [ri], coisas assim, que são disfarces, mas revelam muito claramente o que você está querendo dizer.

PAS: Pergunto isso porque sinto não só em você, mas nos tropicalistas de modo geral, como Caetano Veloso e Rita Lee, um espírito mais exaltado ultimamente.

GG: O disco , do Caetano, é muito nessa direção.

PAS: Costuma-se ver a musa, a música, muito como somente positiva…

GG: Não é assim, não. Talvez tenha agora um impulso de dizer coisas mais… de nos associar mais à aspereza. Talvez, né? Isso também é um pouco a autorização geral que a arte contemporânea dá, não é? Tudo que nos momentos anteriores era ousadia, vanguardista, antecipação para além do seu tempo, coisas assim, hoje, não, é quase como se a gente estivesse dizendo: olha, também estou aqui, não se esqueçam de mim, eu também compartilho tudo isso, essa hiperexposição, essa tranqüilidade em tratar das coisas ásperas, em assumir as dificuldades do mundo de hoje, com as quais temos de conviver. Acho que é um pouco isso, é um pouco a gente dizendo “estamos aí”. Os rappers e os meninos fazem as coisas do jeito deles, mas a gente também faz essas mesmas coisas do nosso jeito [ri], a gente também está vendo. A gente acompanha o funk, o rap, essas coisas todas, e vê que os meninos querem poder falar abertamente de tudo. É a gente reivindicando a nossa contemporaneidade também, dizendo que a gente gosta de que seja assim. Acho que isso é muito, também, recuperação de postura tropicalista, né?

PAS: Na música Olho Mágico, você fala de armário. O Brasil tem saído de muitos armários, parece uma fase histórica propícia a isso. E eu fico me perguntando se no armário dos tropicalistas não tinha uma aspereza guardada.

GG: Não entendi. Qual?

PAS: Essa coisa sacralizada da música, do artista, de que os artistas expressam o lado belo e nobre das coisas. Mas dentro de vocês há sentimentos humanos como de qualquer pessoas, que devem incluir sentimentos negativos, asperezas…

GG: É, claro, e que a gente de vez em quando quer expressar, quer que seja elemento da comunicação, da dimensão estética, da beleza. A gente quer embelezar com a feiúra. Isso é dos artistas, uma coisa que é da arte. As artes plásticas, nos seus momentos mais revolucionários do século passado, foram muito explícitas nisso, na distorção, no enviesado, no atravessado. Tudo isso informou as artes plásticas e a própria música, a música experimental, serial, dodecafônica, atonal, eletroacústica. Tudo isso rompeu com o figurativismo bem comportado, onde você só diz das imagens aquilo com que elas já estão conotadas. Ou seja, a boa imagem é a boa imagem e a má imagem é a má imagem. As artes em meados do século XX fizeram um remexido nisso aí, você vê Picasso, tanta coisa bonita que ele passou a querer manifestar através do canhestro, do tosco. Acho que muito do rock’n’roll tem um pouco isso também, especialmente quando se liberaram nas várias correntes, punks e todas essas coisas. Eles são isso, com as guitarras muito sujas, as distorções. A gente teve isso também no próprio tropicalismo, esse ímpeto para desconstruir, desafinar o coro dos contentes.

PAS: Inofensivos, os tropicalistas nunca foram…

GG: Nunca fomos, é. Por isso eu digo que toda essa identificação de aspectos não-acomodados, como no , ou na Rita Lee, na verdade somos nós ainda tropicalistas, sempre tropicalistas [ri]. Aprendemos aquelas coisas e não esquecemos mais as lições. De vez em quando a gente vem. E, como eu estava dizendo, agora, neste momento, muito autorizados por esse novo ímpeto…

PAS: De um ambiente de liberdade?

GG: …No ambiente da criação geral.

PAS: Talvez eu esteja influenciado porque vim para a entrevista ouvindo o disco e lendo a publicação sobre o Plano Nacional de Cultura. Ali se fala muito sobre identidade, e sobre diversidade. Misturando tudo, pensei sobre identidades brasileiras que estão saindo do armário e se expressando. E eu perguntaria a você, ou ao sr. ministro, de quais armários o sr. tem saído, junto com nós todos?

GG: [Ri.] É… Bom… De novo, é meio pleonástico falar de sair de algum armário agora, porque essa tem sido sempre a minha, a nossa disposição. A gente sempre quis trabalhar assim, no campo da transparência, do exibicionismo nudista [ri]. Essas coisas são informes já de meados do século passado. São dali, do existencialismo, depois dos hippies, dos artistas americanos, dessa arte despojada. Não acho que haja descoberta surpreendente de novos armários [ri].

PAS: Estava pensando talvez em identidade negra, sobre o que já conversamos em outras entrevistas. Foi importante para o Brasil ter um ministro da cultura negro, que é você e representa tudo que representa. Aí ouvi Formosa e achei que tinha um suingue negro a mais que no original de Baden Powell e Vinicius de Moraes, não que eles já não tivessem.

GG: A maturidade do artista vai dando a ele capacidade de liberar… Eu até acho que nesse disco sou muito contido do ponto de vista de improvisações, da capacidade de improvisar mais efusivamente, um pouco inibida até por causa da minha voz. Esse disco é de abordagem cuidadosa ainda em relação à questão vocal, estou saindo de um período difícil da minha voz.

PAS: Como assim?

GG: Eu era muito abusivo em relação à coisa da voz. Era abusivo por um lado, em relação à qualidade, ao material, à matéria voz, e ao mesmo tempo os impulsos que levavam àqueles abusos eram impulsos muito criativos. Eu fazia muita coisa de usar a voz criativamente, com ruídos, gritos, falsetes extremados e coisas desse tipo. Talvez o que esse disco comece a revelar, e você falou em Formosa, é uma tradução desse impulso criativo e desse impulso inventivo através do improviso num uso cuidadoso, num uso mais moderado, cool. Acho o disco todo muito cool.

PAS: O uso do falsete, que é muito característico seu, era abusivo?

GG: Era abusivo.

PAS: Os médicos lhe falaram isso?

GG: Me proibiram, praticamente. Me disseram: “Cuidado”.

PAS: Como vamos fazer com Gil sem os falsetes?

GG: Pois é…

PAS: Mas ainda aparecem um pouco no disco.

GG: Aparecem um pouco, mas muito cuidadosamente. Concomitante ao período em que fiz o disco, fiz uma temporada nos Sescs do interior de São Paulo. Fiz pelo menos oito shows em várias cidades do interior, dois meses atrás. E foi exatamente logo após a cirurgia, o período de resguardo, os alertas todos dos médicos. E eu ousei muito, e gritei muito lá.

PAS: Desobedecendo aos médicos?

GG: Propositadamente [ri].

PAS: Mas por quê?

GG: Para ver também o que é que é, se essa voz… se isso acabou, se tenho que arquivar completamente esse lado [cantarola A Novidade, fazendo o falsete].

PAS: Não faça, por favor!

GG: [Continua, e ri.] Esse lado é ao mesmo tempo estranhado pelas pessoas, mas festejado pelas pessoas. Eu sou muito saudado na rua, especialmente pelo povo, gente simples, meninos, operários, com esse grito.

PAS: Ele é você, não é?

GG: É. Estava em Sergipe, em São Cristóvão, como ministro, fazendo visitas a obras de recuperação do Iphan, e me lembro bem de um garoto de 12, 13 anos vindo para a frente da multidão [faz o falsete outra vez]. Toda hora na rua as pessoas fazem isso, é uma marca.

PAS: É como um grito de guerra seu?

GG: É, como um grito de guerra.

PAS: E justamente ele ficou afetado?

GG: Ficou afetado por essa perda de qualidade vocal. Estou com muito cuidado para ver se isso se restaura inteiramente, ou não. Então nesse disco minha abordagem vocal é toda mais moderada, cuidadosa. Não que nos outros discos não tenha sido assim, nos discos sou muito mais bem comportado que nos shows. No palco é sempre “vamos ver agora”.

PAS: Para eu entender melhor, esse abuso, como você falou, causou um problema físico – um edema, um calo?

GG: É, os dois.

PAS: Fico constrangido de citar isso, mas numa redação chegam boatos a toda hora, e algumas vezes chegaram boatos de que você estava com câncer na garganta. Não é verdade?

GG: Não. Não tem, não, não teve. Já dez anos atrás eu tinha feito também uma intervenção cirúrgica, a mesma cirurgia na mesma corda vocal.

PAS: Foi depois do Quanta?

GG: Foi. Essa cirurgia tem nove para dez anos. Naquela ocasião, procedimento normal, fizeram a biópsia do pólipo que foi extraído, e era benigno. E agora, de novo, fizeram também, e era benigno. Não há. Para além das questões do que causa de dificuldade para o uso da corda vocal, não estou doente, a corda vocal não tem um problema…

PAS: A volta ao disco, nesse contexto todo, é uma reconquista, um modo de exercitar isso?

GG: Ah, sim.

PAS: Se bem que você jamais parou com os shows…

GG: Mas fazia residualmente. Nesses últimos cinco anos mantive as temporadas européias de um mês, fazendo em torno de 20 shows, e aqui fazendo isoladamente alguns fins-de-semana, curtíssimas temporadas de três dias uma vez por ano no Rio e em São Paulo. Não voltei realmente aos shows intensivos. Mas eu quis mesmo voltar este ano a trabalhar um pouco mais intensivamente. Tanto que fiz agora, em abril, uma temporada de 12 shows acústicos na Europa.

PAS: Um deles foi cancelado, e suscitou mais uma onda de boatos.

GG: E não fui eu! O cara cancelou o show porque o programou para a periferia de Madri, num lugar inadequado, onde as pessoas não costumam freqüentar esse tipo de show acústico. O show acabou mal promovido, ele temia uma ausência de público e propôs cancelar. Eu disse a ele: “Então cancele”. Cancelou, teve que dar uma desculpa e disse que fui eu. Foi ele que falou, eu briguei com ele depois disso inclusive [ri]. Então não há, com relação à voz é isso.

Além do mais tem a questão da idade. Eu não sou mais menino, não sou mais tão jovem quanto o próprio uso. As cordas vocais são músculos, e todos os músculos estão mais flácidos, exigem exercícios mais cuidadosos, mais focados. É o que tenho feito. Tenho feito exercícios vocais, fonoterapia, permanentemente, todos os dias. Hoje saí de casa, já fiz meus exercícios. Faço todo dia, religiosamente.

PAS: Sete dias por semana?

GG: Sete dias por semana.

PAS: Em casa mesmo, sozinho?

GG: Faço em casa mesmo, sozinho, e volto ao fonoterapeuta a cada dois meses.

PAS: Para lá da questão da idade, há uma coisa que chega a ser poética: a sua fonte de dar alegria aos outros foi feita com um pouco de auto-abuso seu, de sacrifício.

GG: Foi.

PAS: Mas você não sabia, suponho.

GG: Não sabia. Isso era impulso, impulso da minha personalidade, dessa personalidade jovial que tenho, muito ligada aos elementos da irreverência. Então me identifiquei artisticamente com esse lado.

PAS: É um de seus principais instrumentos de trabalho, e você o fere quando o acaricia?

GG: É isso. Outro dia um amigo meu estava me dizendo assim: “Não se preocupe muito também com essa coisa da sua voz, não. A voz mais rouca, mais suja, é sinônimo de maturidade” [ri]. Eu disse: “Está bom”.

PAS: É uma coisa dos soulmen também…

GG: Também, de Ray Charles…

PAS: Wilson Pickett…

GG: …De todos eles também foram caminhando com a sujeira da voz, com essa coisa de a voz ir ficando… Estou pronto também para isso. Vamos ver, vamos ver onde é que ela quer ir, onde ela quer me levar.

PAS: É contraditório, vejo que é algo que lhe dá impulso. É um disco forte, a música sobre a morte é muito forte. Pode até suscitar boatos, porque fala desse assunto – de um jeito maravilhoso, eu acho.

GG: É, mas é por isso. Aí é mesmo a idade, a maturidade, o senso da finitude que se torna mais exigente com a idade. Os jovens não trabalham muito com essa questão…

PAS: Poderiam trabalhar, não é?…

GG: Eles descartam. O jovem descarta a questão da finitude, como se flertasse um pouco com a possibilidade da infinitude, do eterno. É como se “ah, daqui até eu envelhecer a ciência vai descobrir [ri] um elixir da imortalidade, quem sabe não será a minha geração que vai superar essa questão da morte”.

PAS: Provavelmente, não…

GG: No meu caso, não vai ser a minha mesmo [ri]. Então eu sou levado a refletir sobre a questão da finitude.

PAS: Essa reflexão é uma coisa que aumenta com o decorrer do tempo?

GG: É, é.

PAS: Hoje, em você, é maior do que jamais foi?

GG: É, sem dúvida.

PAS: E ao mesmo tempo é um impulso vital, porque o faz criar uma música como essa.

GG: Exatamente. E, mais ainda, me faz entrar com despojamento para os compartilhamentos variados da vida, sem muitos pudores. A coisa da morte, da finitude, dá a liberação para o presente, né? Você diz “só tem o aqui e agora, então vamos lá, vamos fundo nisso”.

PAS: Aí eu penso do armário de novo, porque você tirar dele o tema da morte é algo que pouquíssimos fazem. Morte em geral não vira música.

GG: No meu caso tem virado. Tenho muitas [canta], a morte é rainha que reina sozinha/ não precisa do nosso chamado mesmo pra chegar. Eu fui experimentando esse tema.

PAS: Mas é uma música explícita, inteira sobre isso. Na estréia de Banda Larga Cordel em São Paulo, você estava emocionado, chegou quase a chorar, recebeu algumas vaias quando falou de política. Foi quando mostrou pela primeira vez essas músicas todas, O Oco do Mundo. Vaiaram na hora da política, mas não seria efeito também de ali no meio haver músicas sobre morte, horror, terror?

GG: Tinha, e me lembro que Não Tenho Medo da Morte foi aplaudida em cena aberta, no meio da música. Era estréia, a primeira vez que eu cantava.

PAS: Está lidando, pela primeira vez de modo concentrado, com temas tão espinhosos como esses.

GG: Olha, sem dúvida alguma esses cinco anos de ministério me deram uma têmpera que eu não imaginava que podia ter. Um estômago, uma capacidade de engolir veneno [ri].

PAS: Pode explicar isso um pouco mais?

GG: Mas é, não tem que explicar mais. Aquilo ali é espinhoso, estar ali. Os meus melhores amigos não me desejavam isso. Todos eles, ao contrário, queriam muito que eu não fosse para lá, que eu não fosse ministro. Todo mundo que zela por mim, que preza por minha saúde…

PAS: É uma maldição da própria política, como se todo mundo que está ali fosse ruim?

GG: É essa maldição da política, é isso, é isso. Como se necessariamente estar ali significasse a anulação absoluta de qualquer positividade. Não é assim.

PAS: Você comprovou que não é assim? Ou que é assim?

GG: É assim, mas não é assim. Você tem que ter também capacidade de transmutação. Aquilo está nas suas mãos. Eu digo sempre, a política também tem que ser uma arte [ri]. O serviço público também, você tem que fazer daquilo ali alguma coisa.

PAS: Não sei quando você está envolvido diretamente, mas no texto do caderno sobre o Plano Nacional de Cultura é evidente o desejo de encarar a política como arte. Não sei como vai acontecer, como vai ser executado, mas…

GG: …Mas tem que ser proposto, tem que ser colocado lá. Já acho muito interessante que o País esteja maduro, ou pelo menos esteja se dizendo maduro para ter um Plano Nacional de Cultura construído com essa polifonia, com essa diversidade toda, com protagonismos variados, de vários setores sociais, comprovando uma diversidade cultural veemente que o País tem.

PAS: Há críticas diretas ali à televisão brasileira, indiretas à Rede Globo.

GG: Tudo, tudo. Todos os avanços que o País precisa fazer, os deslocamentos que precisam ser feitos. É importante que essa gestão do ministério possa ter ajudado nisso.

PAS: Outro boatório de sempre é se sai ou não sai do ministério. A missão está cumprida?

GG: Estou cumprindo.

PAS: Vai entregar a seu sucessor, com o presidente ao lado?

GG: Não sei, ou até antes. Não estou muito… Eu disse ao presidente que eu só voltaria a conversar com ele sobre isso no ano que vem. Foi quando decidi ficar, em dezembro do ano passado. Quando ele se reelegeu, eu já tinha decidido ficar por um ano mais, fiquei o primeiro ano do segundo mandato e aí fiquei o segundo. Vamos ver.

PAS: Mas a impressão, até por causa de disco e shows, é de que há um afastamento progressivo.

GG: Sim, sem dúvida. Eu preciso disso.

PAS: E Juca Ferreira está assumindo as atribuições?

GG: Está lá, fazendo, trabalhando. Como eu estava dizendo, há processos que, devido ao encaminhamento, começam a se automatizar, a se autonomizar. Começam a caminhar sozinhos. As áreas do ministério estão mais tranqüilas, mais bem postas. Mas eu, sem dúvida alguma, estou caminhando para uma coisa de, seja lá quando for, deixar o ministério. Vai ter que deixar uma hora [ri], e pronto, e a idéia é deixá-lo bem, deixá-lo pronto, preparado. O MinC hoje é um ministério mais fortalecido que quando a gente chegou.

PAS: No começo eram freqüentes comentários de que Gil no ministério era “rainha da Inglaterra”. Isso diminuiu, mas outros ministros não poderiam fazer essa transição sem fortes críticas. Parece haver uma permissão para que você seja artista, exerça duas funções ao mesmo tempo.

GG: Isso foi sendo autorizado aos poucos.

PAS: Não é um precedente perigoso? Se outros ministros resolverem também…

GG: Não sei. São as características de cada ministério, o da Cultura por natureza é mais permeável a esse tipo de ousadia, digamos assim. Tanto é que no mundo todo as pessoas apreciam essa dupla presença.

PAS: Talvez até aqui, mais enrustidamente.

GG: Mesmo aqui, foi cada vez ficando mais. Agora é muito explícito, muitas pessoas manifestam uma admiração pelo modo exitoso com que a gente processou essa simbiose.

PAS: Alguém, não consigo lembrar quem, disse recentemente que quem quer que vá substituir Gilberto Gil no MinC não vai conseguir reunir todos os atributos que Gil reunia. Você concorda com isso?

GG: Não. Vai reunir outros. Os essenciais para a questão da gestão propriamente, da confecção e execução de políticas públicas, não é a minha especificidade que vai determinar. Tem muita gente que pode ser ministro da Cultura.

PAS: Mas é algo que ganhou status nos últimos anos e não pode mais retroceder, não?

GG: Isso é o que eu espero, que a gente tenha chegado a um ministério minimamente consolidado, a uma idéia de dimensão estratégica da cultura minimamente introjetada na sociedade, no governo, e que a gente tenha uma série de programas que traduzam isso, que sejam levados adiante. É o que eu espero.

PAS: A mudança da Lei Rouanet vai ser uma meta não-cumprida desse governo?

GG: Não. Espero que até o fim do ano a gente tenha… Estamos programando para agosto o lançamento da confecção de uma nova minuta, que vai ser feita também, como o Plano Nacional de Cultura, a muitas mãos. Nesses quatro anos, nós temos feito muitas consultas, temos muitos resultados já de observações que vão sendo feitas pela Lei Rouanet, funções e desfunções. Mas a gente ainda vai intensificar esse processo até o fim do ano, através de vários momentos de consultas públicas, para construir uma minuta nova que a gente mande para o Congresso Nacional, para reformar a lei. Até o fim do ano.

O que foi que aconteceu?… com a música popular brasileira?…

30 maio 2008

O livro Uma História da Música Popular Brasileira das Origens à Modernidade (Editora 34), do historiador, produtor musical e escritor cearense Jairo Severiano, foi uma das âncoras principais para a construção da reportagem Música popular?, incluída na edição 498 da revista CartaCapital, nas bancas a partir de sexta-feira 30 de maio de 2008. Segue, abaixo, a transcrição da entrevista que o gentilíssimo Jairo me condedeu e que funcionou como ponto de partida primordial para a reportagem citada.

 

 

Pedro Alexandre Sanches: Em vários momentos, durante a leitura do livro, fiquei pensando: quais seriam, dentro de tudo que sua escrita abrangeu, as suas preferências musicais?

 

Jairo Severiano: Pois é, são 230 e tantos anos de música brasileira. Na verdade, todo indivíduo é meio escravo de sua geração. Como eu nasci em 1927, sou escravo da geração que foi adolescente nos anos 40. De maneira que a minha preferência é pela música do final dos anos 30, anos 40, anos 50. Depois, quando veio a bossa nova, eu a princípio me assustei. Mas logo vi que a coisa era muito boa e acabei aderindo. Mas na verdade o que eu gosto muito mesmo é do pré-bossa nova. O resto foi por obrigação, por efeito de escrever sobre o assunto.

 

Gosto do que considero o samba-canção do final dos anos 40, até 1958. o samba-canção moderno foi a vertente que acabou se transformando na bossa nova, e gosto exatamente dessa parte aí, e um pouquinho antes, quando vai terminando a década de 30, começa a de 40 e estão em plena atividade Ataulfo Alves, Braguinha, Wilson Batista etc. É essa turma que é a minha turma. A música da minha juventude, que realmente mais lembro e mais curto, são os sambas-canções do final dos anos 40 e dos anos 50. Por exemplo, tenho paixão especial pelos sambas-canções do Dorival Caymmi, aqueles requintados sambas-canções do início dos anos 50, Nem Eu, Não Tem Solução etc.

 

PAS: Essa preferência não é imediatamente perceptível no livro. Isso quer dizer que ele tem a preocupação de isenção?

 

JS: Tentei fazer uma história completa e, na medida do possível, isenta. Não tenho preconceito nenhum. Eu aceito, acho que é obrigação. O indivíduo, o ser humano, tem direito a suas preferências. O que se mete a historiador não tem preferência, tem que contar o negócio direitinho. Se não tiver competência, vai contar mal (ri). Não há um julgamento preconceituoso, ou não-preconceituoso, algo que eu deteste e diga “eu detesto o conjunto tal”, “detesto gênero tal”. Não digo nada disso, e pretendo eu que isso me dê essa isenção.

 

PAS: Considerando suas preferências, fica mais difícil o trabalho para você à medida que o livro vai chegando em anos mais recentes?

 

JS: Ah, sim, fica, sim. Fica muito mais difícil, porque tenho que entender o que é o funk para passar para meu leitor a minha visão daquele gênero, daquele estilo. O caso do funk foi o que me deu mais trabalho. Peguei os escritos do (jornalista e escritor) Silvio Essinger e li em duas vezes. Li a primeira vez direto, procurando entender, e a segunda vez assinalando o que achava mais importante para fazer o meu resumo.

 

PAS: Chegou a ouvir funk carioca?

 

JS: Cheguei, tinha que ouvir, né? Não era uma tarefa das mais agradáveis, mas tinha que ouvir. Com o rock dos anos 80, a mesma coisa. Na verdade, a única coisa que comento aí e não ouvi é a música daquele cara de vanguarda, de São Paulo, como é mesmo?

 

PAS: Arrigo Barnabé?

 

JS: Arrigo Barnabé. Fui numa entrevista dele ao Jornal do Brasil e procurei passar ao leitor o que ele já tinha tentado passar na entrevista. Mas é claro que não ouvi dezenas de discos de funk. Ouvia o que considerava principal.

 

PAS: Por que resolveu fazer esse livro, do modo como ele está construído?

 

JS: A idéia era fazer um livro como nunca tinha existido na bibliografia da música brasileira, que abrangesse o período total até então. Ou seja, que começasse com Domingos Caldas Barbosa, no século XVIII, e viesse até o dia em que eu terminasse o livro. Para mostrar que todo estilo, todo gênero, é digno de respeito ainda que você não goste. A pretensão principal do livro é passar para o leitor comum, e não para o especialista, para o músico, o mínimo de informações necessárias para que ele passe a entender melhor o que é o fenômeno música popular brasileira. Então vou definindo cada uma coisa, vou analisando cada gênero, cada movimento, procurando ser o mais simples possível, sem enrolar e sem procurar impressionar tentando demonstrar grandes conhecimentos. O negócio é passar direto para o leitor aquilo que entendi que cada um dos estilos representa.

 

PAS: O termo “música popular brasileira”, ou “MPB”, não foi utilizado sempre, é uma designação que apareceu há certo tempo. Você pode falar um pouco sobre isso?

 

JS: O negócio começa com a música folclórica, a música com desconhecimento dos nomes dos autores. No final do século XVIII começa-se a editar música popular, e começa a aparecer o nome dos autores. Música popular no mundo inteiro começa a partir do momento em que ela passa a ser editada. Era um negócio muito espontâneo, ninguém no começo do século XIX estava pensando que se criava uma modalidade musical que ia representar um país, que ia mostrar o tipo da musicalidade de um povo. Foram fazendo, e vinham na cabeça deles aquelas influências todas. Escutavam uma polca, começavam a tocar aquela polca, intuitivamente iam agregando a ela coisas de sua própria cultura, e por aí vai.

 

A consciência, inclusive de compositor, bem mais adiante, quando falo do Café Nice por exemplo, era uma esculhambação total. O direito autoral era uma coisa muito precária. Apenas havia um segmento da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, fundada em 1917), que chamavam de pequenos direitos. Quando aquele povo começa a se reunir no Café Nice e começa a formar uma coletividade, logo em seguida, em 1938, já parte para sua primeira associação de recolhimento de direito autoral, que é a ABCA (Associação Brasileira de Compositores e Autores). Então é a partir dessa época, dos anos 30, que os brasileiros tomam consciência, a meu ver, de que eles têm uma música, que são responsáveis por algo que representa a musicalidade da nação, daquele povo.

 

Aí então já estão constituídos os gêneros principais. O samba já se impõe como o gênero hegemônico, o gênero mais importante. Aliás, eu considero essa fusão de música, melodia e harmonia de inspiração européia com rítmica de influência africana como a coisa mais fascinante que caracteriza a música popular brasileira. Então, já nos anos 30, passando pelos 40, se constitui, já existe o que se pode chamar de música popular brasileira, com personalidade própria, gêneros próprios. Não existe lugar fora do Brasil onde exista uma música parecida com o samba, com o choro, e por aí vai.

 

PAS: No tempo de Caldas Barbosa e por aí, não havia distinção entre música popular ou erudita. Em algum momento isso se estabeleceu, não?

 

JS: Isso se estabeleceu independentemente da vontade deles. Não houve um organizador, um sistematizador que pudesse dizer “vamos agora criar a nossa música popular, assim como um grupo quis criar um Brasil independente, uma nação independente de Portugal”. Não. Eles iam fazendo música pelo prazer de tocar, pela vocação enorme que tinham, e aquilo era uma compulsão, fazer música e tocar música. Só na década de 1930, quanto vêm o rádio, o cinema falado e o disco, é que eles têm consciência de que formam uma classe, que cultivam um negócio que representa um país, e que podem fazer daquilo profissão. (O compositor) Roberto Martins, por exemplo, quando eu estava fazendo a biografia do Braguinha, sem que nada eu lhe pedisse um dia chegou generosamente aqui em casa com uma caixa de sapatos cheia de fotos e ofereceu para eu usar no livro. Ele era guarda civil. Todo aquele pessoal tinha outra profissão, ninguém vivia de música. Tinham a função de compositor mais como um diletantismo que propriamente como uma profissão. Os próprios músicos não ganhavam dinheiro com direito autoral, ganhavam como músicos.

 

Roberto Martins é uma das primeiras pessoas, segundo ele me contou, em meados dos anos 30, que larga a guarda civil e se torna compositor profissional. E me disse que aconselhou Mário Lago, que era um jovem advogado ainda sem clientela e também com grande vocação teatral, a largar esse negócio de advocacia e ir fazer música com ele. E Mário Lago passou a adotar essa como uma de suas profissões. Então, é no Café Nice, resumindo a história, com a convivência diária de anos seguidos, de 1928 a 1937, a troca de favores, a formação de parcerias, as vendas de músicas (Wilson Batista vivia disso, vendia música a preço de banana), é aí, na minha opinião, que se forma uma consciência de compositor brasileiro, e como conseqüência se forma a consciência de que existe uma coisa, um tipo de cultura, de manifestação cultural musical, que pode ser chamado de música popular brasileira.

 

PAS: É mais ou menos nesse momento que o erudito vira uma coisa à parte, que se destaca disso e passa a ser outra categoria?

 

JS: Não. Eu fui garoto nos anos 30 e adolescente nos 40. Dentro da minha própria família havia um preconceito terrível, como havia na classe média e principalmente na classe média alta, contra a música popular. Só se considerava música brasileira o que era música de concerto.

 

PAS: Mas então quando você era garoto já existia a distinção nítida, entre popular e erudito?

 

JS: Já existia essa distinção nitidamente. A música popular era uma coisa tão sem importância que os próprios compositores não davam tanta importância ao que faziam. Faziam por intuição, por divertimento e para ganhar uns trocados. Quando se estabelece esse ente, vamos dizer, que é a música popular brasileira, já nasce distinto da música clássica, já nasce com a conotação de inferioridade perante a música clássica. Se procurar nos jornais dos anos 30 e 40, você não vai encontrar quase nada, quase ninguém escrevendo sobre música popular brasileira. Há uma onda de pessoas escrevendo sobre música, mas não é sobre música propriamente dita, é sobre discos. Quando, no final da década de 20, chega a gravação elétrica de som, aparece uma revista chamada Phonoarte, e o jornal principal do Rio na época, O País, dedica, para surpresa minha, duas páginas no domingo para comentar discos. Mas o comentário era sobre o disco. Em seguida, como o disco trazia música, o sujeito comentava a música que estava no disco. Mas ninguém se dava ao trabalho de levar a sério a música popular. O primeiro sujeito sério que faz matérias sobre música popular é Mario de Andrade, no começo dos anos 30. Então na imprensa vão aparecer os primeiros artigos sobre música popular e sobre compositores populares, nos anos 50, com Ary Vasconcelos e Lúcio Rangel, os dois pioneiros. Antes, Almirante já fazia isso, mas para o rádio.

 

PAS: Mas esses já usavam o termo “música popular”? E antes, quando você era criança?

 

JS: Já. Em 1954, Lúcio Rangel lança a Revista da Música Popular (reeditada na íntegra, em 2006, em forma de livro, pelos selos Bem-Te-Vi e Funarte). Antes não existia, era música de um modo geral. Há livros sobre folclore que falam como informação suplementar sobre marchinha e determinados gêneros populares. Mas não são livros que tragam escrito “história da música popular brasileira”. É “história da música do Brasil”. Em 1955, entrei para o Banco do Brasil e fui nomeado para o interior do Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai, e fiquei bastante chateado porque lá não chegava a Revista da Música Popular.

 

PAS: A revista falava sobre jazz, por exemplo. O jazz estava sob o guarda-chuva da chamada “música popular”?

 

JS: Estava. O jazz era, no Brasil, uma coisa de grã-finos, de pessoas meio esnobes. Nniguém entendia de jazz no Brasil, e havia aqueles grupinhos que cultivavam o jazz, ouviam juntos e olhavam meio de esguelha para a música popular brasileira. Talvez até inconscientemente, consideravam o jazz uma coisa acima da manifestação que era a música popular. Então o negócio vai se cristalizar já na virada para os anos 60, com a bossa nova. Aí a música popular brasileira já é uma entidade.

 

PAS: A Revista da Música Popular era meio elitizada, para a classe “esnobe” que você citou?

 

JS: Exatamente. Inclusive havia pessoas que não eram propriamente da música popular, mas escreviam ali, como Manuel Bandeira, um ou outro cara daqueles. Gente da elite da música popular também escrevia, como Ary Barroso, Dorival Caymmi. Ary fez um artigo dizendo que Noel Rosa era um excelente letrista, mas como melodista às vezes dava sorte. Não deixa de ser uma manifestação de ciúme do próprio Ary, a ver um rival, talvez de uma forma inconsciente. Nos anos 40 eu me lembro, ouvia muito rádio, já havia uma consciência geral de que Caymmi e Ary eram os maiores compositores populares brasileiros. Tanto é que no final dos anos 50 a Odeon se orgulha em lançar um disco chamado Ary Caymmi Dorival Barroso, em que um canta ou toca a música do outro.

 

PAS: E eles eram popular no sentido estrito, as músicas que faziam eram acessíveis a qualquer pessoa, não?

 

JS: Exatamente, embora fossem refinados, requintados, não é?

 

PAS: Há um mito de gerações mais novas, talvez, de acreditar que a expressão “música popular brasileira”, ou mais precisamente a sigla “MPB”, surgiu nos anos 60, com o advento dos festivais da canção.

 

JS: É, a sigla, porque música popular brasileira já existia antes, nos anos 50. A própria sigla também já existia, era falada, embora de uma maneira muito mais escassa, até porque as matérias eram muito mais escassas nos anos 50. Nos anos 60 é que o negócio pega fogo.

 

PAS: Você então não concordaria com a idéia de que foi a geração universitária dos anos 60, depois da bossa nova até, que criou a sigla MPB?

 

JS: É, são os filhos musicais da bossa nova, que são todos eles, Edu Lobo, Chico Buarque etc. Não foram eles que criaram o termo “música popular brasileira”. Já existia nos anos 50.

 

PAS: Mas talvez eles o tenham tornado célebre, e mais forte do que era antes?

 

JS: É… Considero que há duas gerações excepcionais no século XX, a de 1930 e a de 1960. Como eram compositores excepcionais, fizeram com que o conceito de música popular até subisse um pouco. Uma música do Edu Lobo tem certas nuances parecidas com Villa-Lobos. Tom Jobim faz sinfonia, fez aquele negócio de Brasília. Foi, vamos dizer, uma certa elitização da música popular. Não que alguém defendesse isso como tese ou como praxe, mas então passa a existir uma tendência natural para se considerar uma elite, que era essa turma que brilhava nos festivais, e a turma mais popular, inclusive compositores vindos de gerações anteriores, que faziam também música popular, mas de uma maneira mais simples. E lá embaixo, pelo fato de serem menos inspirados, vinha uma corrente que vendia muito disco e que era a música brega.

 

Considero, e digo isso no livro, que há duas grandes vertentes do samba-canção, a vertente tradicional, que tem como figuras principais Herivelto Martins e Lupicinio Rodrigues, e a vertente moderna, que dá a bossa nova. A vertente tradicional dá a música brega a partir dos anos 60, com Altemar Dutra, Anísio Silva, Orlando Dias. Ali é que começa a música brega, naquele momento. Até então, ninguém havia se lembrado de fazer essa divisão, em música de bom gosto e música brega. A partir dali é que se faz isso, e inclusive aquele tipo de música passa a vender muito. Os caras são recordistas de vendas.

 

PAS: Antes também não havia essa distinção entre o que fosse de “bom gosto” ou de “mau gosto”? É uma invenção mais ou menos recente?

 

JS: É recente.

 

PAS: Mas, voltando, a vertente moderna daria na bossa nova, que daria na MPB?

 

JS: A vertente moderna dá na bossa nova. É cultivada por cantores como Lúcio Alves, Dick Farney, e tem como compositores figuras como Dorival Caymmi, com aqueles sambas requintadíssimos. O próprio Antonio Maria, embora chorão e contando desgraça, faz versos que são modernos. Aí entra em ação o poeta Vinicius de Moraes, que estava afastado da música fazia 20 anos e passa a fazer parcerias até com Ary Barroso.

 

É essa turma mais requintada, que culmina no momento da cisão, no momento em que explode a bossa nova, em 1958. Havia compositores que eram românticos, e de excelente qualidade, e modernos, como Dolores Duran e Tito Madi. Já vi Tito Madi dizer que ficou com um pé na tradição e outro na modernidade. A eclosão da bossa nova se deve a João Gilberto, e o próprio Tom Jobim, com quem trabalhei em 1987, dizia para quem quisesse ouvir que sem João não haveria bossa nova. Eu considero a bossa nova um segmento da moderna música brasileira. Nem toda música moderna brasileira é bossa nova, a bossa é um segmento que tem uma função muito importante, porque ela causa a ruptura. João Gilberto, na sua esquisitice, na sua figura diferente de todo mundo, ele rompe. Sem que tenha projetado, ele é o principal causador desse corte. Ele explode a bossa nova inclusive cantando coisas da tradição, com feitio da bossa nova. Bossa nova é muito mais que um estilo musical, é um estilo de interpretação, compositor etc. E a partir daquele momento a música brasileira toma um novo caminho, sem volta. Dali adiante o caminho é outro.

 

PAS: E mais radical, também, não?

 

JS: Mais radical, e muito mais requintado também. As harmonias da bossa nova e de Tom, que era um doutor em harmonia, entraram de enxurrada na cabeça daquela garotada que estava começando. Todos passaram a fazer uma música requintada, como é típico da música de Edu, Chico, mais adiante dos baianos.

 

PAS: Nessa distinção que você faz das duas vertentes, a mais elitizada, digamos assim, meio que rouba para ela o termo “música popular brasileira”, e a outra, que é na verdade a mais popular, vira “brega”, ou “cafona”. Há uma inversão aí, não?

 

JS: É, uma parte, porque… Eu considero, por exemplo, as composições de Herivelto e Lupicinio muito mais bem-feitas e artísticas e valiosas artisticamente que as composições cantadas por Waldick Soriano, Altemar Dutra, Orlando Dias etc. Os caras que vão fazer música para Orlando Dias não têm o talento que tinham Herivelto e Lupicinio. Então continua música tradicional, muito menos cultivada, porque passa a ser eclipsada pela bossa nova. Mas continua, nas vozes de cantores como Elizeth Cardoso, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, que ora está de um lado, ora está do outro, às vezes vira brega com as canções de Adelino Moreira. Comparo e considero muito mais talentosas e sofisticadas as composições de samba-canção de Herivelto e Lupicinio do que as de Adelino Moreira. Adelino é, digamos, uma versão popularesca daquilo que era o bom popular.

 

Esse tipo de música popular vem já com muito menos força, porque inclusive já ninguém mais surge fazendo esse tipo de música. Todo o pessoal que surge a partir dos anos 60 passa a aderir muito naturalmente à modernidade. Mas o lado brega é apenas uma face da continuação da música de tradição. Em outras palavras, não quero dizer que a música tradicional torna-se ruim a partir dos anos 60. Ela continua muito boa, por determinados compositores, e popularesca por essa vertente que explora comercialmente os cantores citados.

 

PAS: Mas se Lupicinio, por exemplo, aparecesse depois do corte promovido por João Gilberto, ele não seria tachado de “cafona” ou “brega”?

 

JS: É possível, embora fazendo com muito talento.

 

PAS: Foi radical o fato de que, depois de João Gilberto, todos os caras que eram anteriores a ele viraram tradição, ficaram meio alijados das gravações.

 

JS: É, viraram tradição e motivo de homenagens, mas sem a oportunidade de estarem no repertório dos artistas da moda. Exceção curiosa é o Cartola, que, redescoberto na velhice, fazendo música tradicional, entra na corrente principal, prestigiado por gente nova. É o caso de Nelson Cavaquinho também. Por serem descobertos tardiamente, ganharam status de compositores de primeira classe – que eram mesmo, aliás. Mas parece que, no subconsciente das pessoas, havia a vontade de recompensá-los enquanto ainda estavam vivos. E aí se criou esse termo MPB como um tipo de música, que aliás acho um troço inadequado, mas já está consagrado. MPB é uma sigla de música popular brasileira, é tanto a música moderna como é a música antiga, mas passou a ser a música popular brasileira de elite, digamos assim.

 

PAS: Por que você considera inadequado?

 

JS: Eu acho que o termo MPB não deveria ser usado nesse sentido, mas de forma global, como sinônimo e abertura de música popular brasileira de qualquer gênero, fosse bom, ruim, moderno ou antigo.

 

PAS: E por que uma parcela dos músicos capturou para si esse termo?

 

JS: Isso é coisa que não tem explicação, né? Muitas vezes é a própria imprensa que cria, um modismo de chamar aquele tipo de música que queriam diferenciar do resto. Alguém rotulou e a sigla pegou.

 

PAS: Você acha que a sigla tem sentido hoje, pensando em artistas de hoje? Ainda existe MPB, ou talvez devêssemos superar essa sigla?

 

JS: Acho que devíamos superar. Não há mais razão nenhuma para isso. Para usar no sentido que era usado nos anos 70, por exemplo, você só iria chamar de MPB coisas feitas por aqueles caras dos anos 60 que ainda estão em atividade, tipo Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil etc.

 

PAS: Virou quase um feudo deles, não?

 

JS: É, exatamente. E, diga-se de passagem, independentemente da vontade deles.

 

PAS: Você falou da força das gerações dos anos 30 e 60. uma sensação que prevalece é de que depois não houve mais outra geração tão forte. Você acha isso?

 

JS: Não veio outra geração, eu acho isso também. Inclusive cito um termo do (crítico musical)Tárik de Souza, de que o último moicano é o Djavan. Tem bons compositores e cantores, mas não vejo mais gente do top daqueles caras, Chico, Caetano, Gil, Edu.

 

PAS: Mas a que você atribui isso?

 

JS: É o tal negócio: assim como há o intervalo entre 30 e 60, está havendo um intervalo entre 60 e o que vier pela frente, quem sabe.

 

PAS: Este intervalo está maior…

 

JS: Está maior, exatamente. E como as coisas vão mudando – o disco está em decadência -, não sei onde vamos parar. Agora, o que é inegável é que nos anos 30 houve a coincidência de existirem de 20 a 30 sujeitos excepcionais, entre compositores, cantores e músicos, e o mesmo aconteceu nos anos 60. São duas coincidências de uma felicidade extraordinária. Tom Jobim brinca no encarte de um disco de Edu Lobo, escreve “de Villa-Lobos, vosso avô, e Tom, vosso pai”, como se Edu fosse filho musical de Tom, que se considerava filho musical do Villa-Lobos.

 

PAS: Essa é a parte bacana, de Edu, que é um grande compositor. Mas por outro lado a sigla MPB foi se aprisionando, se elitizando cada vez mais, e não sei que participação isso tem na impressão que comentamos, de que as coisas pararam. A criação do termo como é usado hoje não acabou sendo ruim e deletéria para a música como um todo?

 

JS: Não, eu acho apenas que deviam ter criado uma outra sigla para não fazer confusão com música popular brasileira, que é um tipo de música acima da média, mais bem-feita digamos assim. Mas esse nome só serve para fazer confusão. Podiam ter chamado até de MMB, moderna música brasileira, ou MCB, moderna canção brasileira. Seriam siglas mais adequadas.

 

PAS: No sentido usado por você, cabem na sigla Domingos Caldas Barbosa, Villa-Lobos e Edu Lobo, sem distinção entre o que é mais ou menos refinado.

 

JS: Exatamente. Villa-Lobos nem tanto, eu não toco nele no livro, porque é um compositor de concertos. Ele usava folclore, cantigas de roda, e sofisticava para criar peças dele, e usava música popular também. Mas não era um compositor popular, nunca fez canções populares, como Carlos Gomes chegou a fazer uma ou outra, como a modinha que fez. Mas Caldas Barbosa, Tom, Ary Barroso, a garotada nova dos anos 60, ou Carlinhos Brown, tudo isso é música popular brasileira. Todos estão no mesmo barco.

 

PAS: Assim como Villa-Lobos pegou música popular para fazer música erudita, muitos outros depois pegaram a música dele para fazer música popular.

 

JS: É, o principal inspirador de Edu Lobo é Villa-Lobos. Ele tem coisas que são puro Villa-Lobos.

 

PAS: Entre os mais novos você não vê ninguém que tivesse essas características, que pudesse fazer uma ponte entre isso tudo?

 

JS: Não, ninguém. Isso que não quer dizer que os novos sejam péssimos, mas não vejo ninguém com essas características.

 

PAS: Fala-se um pouco no Guinga, mas ele não é popular…

 

JS: Não é popular. Eu apenas cito ele, uma amiga minha reclamou, disse que eu poderia ter dedicado pelo menos umas cinco ou seis linhas a Guinga, e eu apenas o citei. Mas estou falando o que o sujeito representa para a música, não posso comparar Guinga com (o sambista) Almir Guineto, por exemplo. Guinga está milhões de anos-luz acima do Almir Guineto no tipo de música que faz, mas Almir Guineto teve sucesso popular, é conhecido, fez parte da história. Guinga é uma pessoa cultuada por meia dúzia de bons apreciadores da música. É diferente do Tom Jobim, que o povo cultuou também. Por isso Almir Guineto teve as cinco linhas que minha amiga pediu, e Guinga não teve. Não estou depreciando o trabalho do Guinga, apenas seria eu querer impor meu gosto pessoal elevando de importância uma pessoa que é talentosa, mas não está na boca do povo.

 

PAS: Nisso está muito da raiz do que estamos conversando, que em algum momento, por alguma razão, esses caras mais refinados perderam um pouco o contato com a capacidade de fazer sucesso. Isso é um mistério, não sabemos explicar?

 

JS: É um mistério, não tem explicação.

 

PAS: Você espera que peguem muito no seu pé em cobranças sobre quem foi ou não foi citado no livro?

 

JS: Não sei, sinceramente. A pessoa que fez essa observação adorou o livro, apenas ficou chateada porque é fã do Guinga e ele só teve uma citação.

 

PAS: E provavelmente cada pessoa que for ler vai achar falta de alguém de quem gosta…

 

JS: Vai. Para eu dedicar digamos dez linhas a cada pessoa que considero importante pelo seu talento, em vez de um volume meu livro teria no mínimo uns três, e se tornaria um livro chato, um catatau. É assunto para fazer um dicionário, uma enciclopédia. Só fazendo uma seleção de privilegiados a quem dedico dez, quinze linhas, uma página ou um capítulo, o livro tem 504 páginas.

 

PAS: Problemas à parte, isso dá dimensão da grandeza disso que estamos chamando de música popular brasileira…

 

JS: É um ente muito grande. É talvez a manifestação cultural mais importante do povo brasileiro. A qualidade, desde os anos 40, já era uma coisa de conhecimento mundial. Em 1943, Aquarela do Brasil teve 2 milhões de execuções nos Estados Unidos.

 

PAS: Por isso mesmo não é um pouco incompreensível que vejamos as coisas numa fase de baixa, talvez de desânimo mesmo? Ficou mais difícil para as pessoas que tentam fazer esse tipo de música, não?

 

JS: Ficou mais difícil, da mesma maneira que ninguém dá valor a quem faz pintura acadêmica. É negócio de moda. As coisas vão evoluindo, e o que era muito importante há 60 anos hoje não é mais. Hoje as pessoas que têm certo grau de cultura e escrevem e formam opinião não vão desrespeitar Ary Barroso. Consideram ele um privilegiado, um deus no olimpo da música popular brasileira. Mas, se aparecer hoje um sujeito fazendo música daquele tipo, não vai ter a importância que teve o Ary Barroso naquela época, por mais talento que tiver.

 

PAS: E você acha que, daqui a 30 anos, essa pessoa, se existir, vai ser considerada?

 

JS: Não, se o sujeito não se consagrou em vida não é depois de morto ou de passado o tempo dele que vai se consagrar.

 

PAS: Pergunto até com preocupação, será que não estamos perdendo gente que está aí e nós não nos damos conta?

 

JS: Ah, não resta a menor dúvida que deve existir muita gente talentosa por aí que não se enquadra nos padrões atuais de mídia, gravadora…

 

PAS: Você próprio citou Carlinhos Brown há pouco. E se ele fosse um cara tão criativo quanto foram em outros tempos todos os nomes que você citou, e não estivermos percebendo isso direito?

 

JS: É, pode ser esse também… Nós não somos donos da verdade, né?

 

Quinteto multicor

1 abril 2008

E, encerrando o ciclo Jair Rodrigues-Quinteto em Branco e Preto, segue a reportagem publicada na CartaCapital 489, mais uma transcrição da entrevista com Magnu Sousá, que a originou.

(E comentários sobre Jair, sobre o Quinteto, alguém se habilita?, alguém ouviu?…)

SÃO PAULO PEDE PASSAGEM

“Quinteto em Branco e Preto não é nem o samba carioca, nem o paulista”, tateia nas definições Magnu Sousá, paulistano de 33 anos, um dos cinco integrantes do conjunto em atividade desde 1997. “O samba paulista, segundo os estudiosos, é mais interiorano, vem do Vale do Paraíba, é o samba de bumbo, da terra, tradicional”, elenca.

De fato, o samba urbano do Quinteto não se ajustaria bem às definições habituais, e as origens e rotas dos rapazes explicam as razões. “Eu e Maurílio, os dois pretinhos, vínhamos de Santo Amaro. Os três branquinhos, de São Mateus. O Quinteto começou quando nos encontramos nas rodas de samba do Boca da Noite, ali na rua Santo Antônio”, Sousá rememora o trajeto entre os bairros periféricos e a casa de shows que funcionou no Bexiga, região central da capital.

Foi no Boca que conquistaram uma madrinha carioca, Beth Carvalho, e o trampolim para uma carreira sólida que desemboca no elegante CD Patrimônio da Humanidade (Trama). Nesse meio-tempo, estiveram à frente da criação da Comunidade Samba da Vela, descendente indireta do Boca localizada na periferia, e com preocupação especial de fazer o samba paulista avançar e se renovar.

Ali, conquistaram até adesões de baluartes do samba carioca, como conta Sousá: “Os mais velhos, quando vão ao Samba da Vela, falam que é parecido com o começo das agremiações. Monarco disse que lembra o início da Portela, Nelson Sargento falou que estava se sentindo na Mangueira de outrora”.

Em Patrimônio da Humanidade, as composições novas, quase sempre de punho próprio, atestam que o Quinteto teve de reinventar o samba paulista a partir de referenciais cariocas como Candeia, Bezerra da Silva, Martinho da Vila, Fundo de Quintal, e daquilo que Sousá classifica como um “currículo invisível”. “É algo que a gente tem, mas não sabe de onde veio.” Na reinvenção, tiveram de contornar a hegemonia radiofônica do pagode ultracomercial dos anos 90. “O que estava acontecendo era o pagode moderno, mas para a gente não rolava. Não levávamos jeito”, diz, sem negar autenticidade à outra turma: “Quando o Negritude Jr. canta samba sobre a Cohab, é samba de raiz, da raiz deles, pô”.

E o currículo invisível se materializa, em 2008, não só no CD próprio, mas num projeto paralelo, em que a gravadora Trama entregou ao Quinteto a produção do disco Jair Rodrigues em Branco e Preto, do mais expansivo e atuante dos sambistas paulistas. Com eles, Jair faz, aos 69 anos, um passeio heterogêneo por subgêneros do samba paulista, em que cabem samba-enredo, samba-rock, uma composição do pai de Magnu e Maurílio (Gilberto Alves, o “Xique-Xique”) e Migração, homenagem dos dois irmãos ao pai nordestino, com participação de Dominguinhos.

No solo fértil do álbum do nem sempre reconhecido Jair, assoma, aqui e ali, uma atmosfera rural, acaipirada, o elo perdido (ou melhor, reencontrado) entre a urbanidade do Quinteto em Branco e Preto e as origens interioranas “invisíveis” estudadas nos livros e nas rodas por Sousá e parceiros.-POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Agora, a entrevista:

Pedro Alexandre Sanches: Você poderia fazer uma retrospectiva da história do Quinteto, desde o começo?

Magnu Sousá: O Quinteto em Branco e Preto começou em 1997, numa casa de São Paulo chamada Boca da Noite. A gente era muito molequinho e dava um pulo Boca da Noite para ver aqueles negos véios tocarem.

PAS: Onde ficava o Boca da Noite?

MS: Ficava ali na rua Santo Antônio, no centrão. Os dois pretinhos vinham de Santo Amaro, de ônibus (são Maurílio Oliveira, cavaquinho e voz, e ele, pandeiro e voz) , e os três branquinhos vinham de São Mateus, de metrô (Everson Pessoa, violão e voz, Vitor Pessoa, surdo e voz, e Yvison Pessoa, percussão e voz). E a gente se conheceu ali no Boca. Entre uma roda de samba e outra, o dono, Wilson Sucena, acabou apresentando uns para os outros. A gente se conheceu e começou a trabalhar na noite. Já trabalhávamos em alguns lugares, mas isoladamente. Numa determinada noite Beth Carvalho chegou lá e nos batizou como Quinteto Café com Leite.

PAS: Então Beth batizou vocês, mas com esse outro nome?

MS: Não, é que dois anos depois fomos registrar esse nome e não podia, porque o nome já era marca de um grupo, acho que um grupo de forró do Nordeste, Banda Café com Leite, uma coisa assim. Nesse ínterim, fomos gravar um programa-piloto para a CPC-Umes, que era nossa gravadora na época do primeiro disco. Por coincidência, veio Beth Carvalho gravar, já fazia um tempo que a gente não via ela. Ficamos quase três anos sem ver a madrinha. Quando reencontramos a madrinha, falamos que não dava para usar aquele nome, por causa do resistro. Ela falou: “E agora, como vou chamar vocês no programa?”. “Ô, madrinha, a gente não sabe.”

PAS: Chamavam ela mesmo de madrinha, desde essa época?

MS: É, sempre chamamos de madrinha. Na hora do programa, o rapaz entrevistou a Beth, ela: “Estou aqui com meus afilhados, esse conjunto maravilhoso, o Quinteto…”. Aí olhou assim para o lado e disse, de improviso: “…Quinteto em Branco e Preto”. Aí ficou esse nome. Naquela noite estavam fazendo uma homenagem ao Boca da Noite, que já tinha acabado fazia tempo, numa casa da Consolação, e por coincidência aparecemos nós e a Beth lá. Ela falou no microfone: “Hoje acabo de rebatizar o grupo, tantos anos depois do Boca da Noite, como Quinteto em Branco e Preto”.

PAS: Como era o Boca da Noite, o ambiente, o que acontecia lá?

MS: Era uma casa em que rolava roda de samba, música popular brasileira da melhor qualidade. Era muito parecido com o Villaggio Café. São duas casas contemporâneas, o Villaggio sobreviveu as décadas de 90 e 2000, e o Boca não resistiu. Por lá passaram Nelson Cavaquinho, Djavan, Filó Machado, toda aquela leva da MPB. Era mais eclético, aberto à música mesmo.

PAS: O que atraiu vocês, que eram mais da periferia, para aquele lugar?

MS: Acho que foi por causa da boa música, né? A gente sempre ouviu boa música em casa, minha família é de músicos. Meu pai é músico, os outros meninos também são de uma família ligada a música e poesia. Na época, acontecia o pagode mais moderno, era uma realidade, mas com a gente não rolava, porque a gente não levava jeito, nunca levou jeito. Embora fôssemos muito novos na época, na febre do pagode, mesmo assim com a gente não rolava. Então quando eu, particularmente, descobri o Boca da Noite, fiquei encantado, pela roda de samba, aquele povo todo cantando os sambas mais antigos. Convivi muito também porque meu pai, quando eu era garotinho, me levava para as boates, onde rolava boa música. Quando vi o Boca, me senti como quando era bem garotinho, meu pai levava às boates e me deixava na cozinha. Não podia nem ficar no recinto.

PAS: Histórias de hoje em dia, como a Comunidade Samba da Vela, são de algum modo uma continuação ou uma evolução daquilo?

MS: Não, o Samba da Vela eu nem sei explicar muito, por que a gente fundou… Porque os mais velhos, quando vão ao Samba da Vela, falam que é muito parecido com os redutos de samba do começo das agremiações. Monarco foi lá e falou: “Pô, parece a Portela no começo”. Nelson Sargento falou: “Nossa, estou me sentindo na Mangueira de outrora, daquele tempo em que era pouca gente”. Era muito legal, porque as pessoas iam no intuito de se divertir, o entretenimento de forma geral, e tinha a coisa séria do samba, da música, da cultura. Hoje em dia já não tem muito mais isso em escola de samba.

PAS: Mas vocês aprenderam um pouco disso em lugares como o Boca da Noite. Ou não?

MS: Na realidade o Boca é mais a roda de samba em si, a malandragem da roda, de perceber a noite, os compositores, como se portar. Fomos aprendendo essas coisas. Mas o Samba da Vela é uma coisa mais intuitiva, como se estivéssemos fazendo algo que a gente não viveu, mas aprendeu intuitivamente. É aquela coisa do currículo invisível, mesmo, que as pessoas têm e não sabem de onde vem.

PAS: Currículo invisível, você disse?

MS: É, uma coisa interessante. Existe um currículo que as pessoas têm, mas determinadas coisas não dá para a gente descrever. Se vou falar, por exemplo, do Osvaldinho da Cuíca, ele de repente é uma pessoa diplomada, formada, e tudo, mas ele viveu o samba, conviveu a vida inteira. Esse currículo é invisível, né? E é muito importante.

PAS: É interessante o relato de que gente como Monarco e Nelson Sargento se identifica, porque eles são do Rio, de uma cultura e uma cidade totalmente diferentes de São Paulo.

MS: É, o samba tem essa coisa, né? A gente tem essa escola. No caso do Quinteto, somos o único grupo de São Paulo que fez turnê acompanhando Beth Carvalho, acompanhando todos esses sambistas. Não é que a gente aprendeu as coisas todas com eles, não. Já vem de berço, porque o samba proporciona isso em qualquer lugar do mundo. A família que é tradicional do samba é característica, embora tenha um sotaque diferente na Bahia, em São Paulo, no Rio, em outros estados também. Cada um faz um samba diferenciado, mas o samba é uma linguagem só. As pessoas acabam se identificando e se reconhecendo.

PAS: O que você diria se fosse explicar que tipo de samba o Quinteto faz, ao longo de todos os discos que lançaram?

MS: Olha, as pessoas acabam dando nomenclatura para tudo, mas acho que o Quinteto não é nem o samba carioca, nem o samba paulista.

PAS: Nem o paulista (espantado)?

MS: É, porque, o samba paulista, segundo as pessoas que estudam e se aprofundam no samba daqui, é uma cultura mais interiorana, que vem do Vale do Paraíba, aquela coisa de Tietê, o samba de bumbo, aquela coisa mais da terra, supertradicional. Se, por exemplo, você vai para a Bahia, tem o Recôncavo Baiano, que é outro sotaque, a chula, aquelas coisas. No Rio de Janeiro, é o samba carioca, uma mistura do samba baiano com características que eles têm lá. São três coisas diferentes. E a gente é de São Paulo, e a linguagem do paulista é diferente, né? Então temos a linguagem do paulista e um pouco do sotaque carioca também, e um pouco a coisa da Bahia também. São as referências do que a gente ouvia. Embora tivéssemos em São Paulo Adoniran Barbosa e Demônios da Garoa, a gente não teve eles como referência. Por quê? Por causa do rádio. Hoje tenho 33 anos, e eu, na periferia, quando tinha 6, 7 anos, lembro que ouvia muito Partido em Cinco na favela, na periferia, na quebrada.

PAS: Partido em Cinco que é carioca, não?

MS: É, carioca. Ouvia muito Candeia, Bezerra da Silva e Martinho da Vila, que era o que tocava muito nas periferias de São Paulo. Adoniran não tocava.

PAS: Por que será, você sabe?

MS: Então… O rádio, a gravadora…

PAS: Santo de casa não faz milagre…

MS: É, e a gente não tem essa referência, essa é que é a grande verdade. No meu caso fui ter a referência de Adoniran Barbosa em casa, por causa do meu pai, que era músico, conhecia Adoniran, Jorge Costa, Geraldo Filme, Talismã, essa turma. A gente tinha alguns discos de Jorge Costa, Geraldo Filme, Osvaldinho da Cuíca e Demônios da Garoa. Mas se pegar a massa, a periferia de modo geral não teve esse acesso, de poder ouvir a música paulista, as referências paulistas. A gente não teve, a gente ouviu muito no rádio Clara Nunes, Beth Carvalho…

PAS: E como era sua relação com esse samba carioca chamado de fundo de quintal, Zeca Pagodinho e companhia?

MS: Ah, acho que o fundo de quintal é a maior referência do samba para o Quinteto e para todos os grupos e comunidades. Eu, particularmente, acredito que o samba tem várias fases que nem sei enumerar, mas uma fase muito importante é o surgimento da Beth Carvalho. Porque, quando Beth chegou, ela fez a ponte dos antigos com os novos que são contemporâneos dela. Então veio revelando um monte de gente nesse período, e uma das revelações foi o grupo Fundo de Quintal. A partir do momento em que eles passaram a fazer parte do cenário musical, começaram a reverenciar os antigos e a fazer a mesma coisa, a ponte dos que estão vindo, nós inclusive. Eu tive a felicidade de ouvir Beth Carvalho antes do Fundo de Quintal, mas, quando ouvi ela, conheci todos aqueles outros compositores. Martinho foi uma fase, depois veio Beth, uma fase muito importante do popular, da coisa do povo mesmo, porque tem Paulinho da Viola, que é um grande sambista, mas não tão popular. Beth tem isso, a coisa do povo, até mais que Clara e Alcione, sem discutir o trabalho, mas de popularidade.PAS: Leci Brandão também faz essa ponte, não?

MS: Leci faz, mas principalmente com relação à negritude, de segurar a onda. Alguém tem que levantar uma determinada bandeira. Embora Leci seja um pouco criticada por levantar muita bandeira, ela é muito importante por isso. Beth levanta muito a bandeira do samba, e ensinou para a gente que, pegando o disco dela, conhecemos Cartola, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Candeia, Geraldo Filme, fulano, beltrano… Por intermédio dela a gente conheceu a Velha Guarda da Portela, da Mangueira… E por intermédio dela conhecemos também Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Arlindo Cruz… Ela é muito importante.

PAS: Vocês costumam compor grande parte do repertório. Há a preocupação de apresentar mais compositores paulistas, o samba paulista? Sei que o disco novo tem músicas do Nei Lopes, do Edil Pacheco, mas a maioria é de São Paulo mesmo, não?

MS: A gente tem a preocupação de fazer valer um espaço que ficou vazio por muito tempo. Sem querer fazer uma crítica, mas uma observação, acho que os veículos de comunicação ajudaram nisso, de certa forma, depois daquela frase do nosso querido Vinicius de Moraes de que “São Paulo é o túmulo do samba”. A mídia valorizou muito essa frase, né? E isso fez com que o samba de São Paulo estagnasse um pouco. Durante um bom tempo, a gente tem uma lacuna. Depois de Osvaldinho da Cuíca, Germano Mathias, Zeca da Casa Verde, Talismã, Geraldo Filme, o que tem um destaque maior é Adoniran Barbosa. Depois de Adoniran e Geraldo, se não me falha a memória, não consigo visualizar mais ninguém…

PAS: E Geraldo Filme, assim como a maioria, não chegou a ficar conhecido fora de São Paulo, no resto do Brasil.

MS: Exatamente. Ficou essa lacuna muito grande, a agora conseguimos visualizar o Quinteto e, através do Quinteto, todas essas comunidades, e os sambistas que vão surgir, se tiverem a oportunidade de a mídia divulgar. Então a gente tem a preocupação de cantar os autores daqui, não para fazer afronta com nada, mas para valorizar mesmo. Se a gente pegar na música popular brasileira hoje, se tirar de São Paulo a Rita Lee, quem tem, estourado na mídia no Brasil? Ninguém. É um ou outro, muito isoladamente – os baianos, os cariocas, os mineiros lá com o corporativismo deles de Skank e aquela galera, alguns de Brasília, e mais ninguém. São Paulo não tem ninguém. Do samba, então, nem pensar… Dá a impressão de que São Paulo é proibido de ter artista de samba. Santa Catarina tem tanto sambista, cara. No disco, a gente dá um alô, um salve, para todas as comunidades do samba de São Paulo, do Rio, Santa Catarina, Ceará, Minas, Rio Grande do Sul… Tem muita gente, a gente não tinha noção da importância que essas comunidades todas dão para o Quinteto, por intermédio do Samba da Vela, do Berço do Samba de São Mateus e outras coisas que estão surgindo.

PAS: Dentro do panorama do samba paulista que você traçou, não podemos esquecer Jair Rodrigues, que, por sinal, está trabalhando com o Quinteto em Branco e Preto.

MS: Exatamente. Sempre falo que Jair é o canga, aquela figura que está em todos os segmentos. Ele é esse cara, um figuraça, um grande ícone da música, acima de muito questionamento. Ele contribuiu muito para a música popular brasileira, né?

PAS: Mas não é muito reconhecido, de forma geral…

MS: É, não é. Mas, olha, a contribuição que Jairzão deu é muito forte. Deveria ser mais reconhecido, acho que ele é assim um Ray Charles para nós aqui no Brasil, da mesma forma de Dona Ivone Lara é uma Ella Fitzgerald. Esses artistas deviam ser reconhecidos, estar naquele glamour, quando tem um Oscar tinham que estar Jair Rodrigues, Dona Ivone, Nelson Sargento, Xangô da Mangueira…

PAS: E como foi produzir um disco do Jair?

MS: Foi maravilhoso. Foi espetacular. A gente fica meio intimidado, né?, de às vezes chegar no Jair e falar alguma coisa, porque ele é um mito. A gente fica meio assim de chegar numa pessoa como ele, tão grande quanto um Paulinho da Viola, um Martinho da Vila.

PAS: Não só chegar como orientar um disco dele…

MS: Então, e ele deixou a gente super à vontade, “vocês é que mandam na história”. Deu os palpites que tinha que dar, a gente deu os nossos. Depois de um tempo escolhendo repertório, a coisa ficou mais aberta, mais espontânea, e aí foi só risada o tempo todo.

PAS: Como foi escolhido o repertório? Ele mesmo, ou vocês interferiram bastante?

MS: A gente sugeriu, tanto é que tem uma música minha no disco dele, Migração, que eu e meu irmão Maurílio fizemos para o nosso pai, que veio do Nordeste. E tem uma relação muito grande com Disparada, do Geraldo Vandré, que Jair gravou. Inclusive Vandré foi ao estúdio.

PAS: É mesmo? E aí?

MS: Foi, foi. Foi muito legal ver Geraldo Vandré, ele é mito, a gente fica ouvindo falar dele na escola. Daqui a pouco você encontra o cara na sua frente, “o cara tá aí!”…

PAS: No caso dele, é um mito misterioso, além de tudo…

MS: Misteriosíssimo. A gente foi almoçar com ele depois, ele não fala muito. É meio reservadão. Mas foi fantástico, porque a música que a gente fez, Migração, fala que o retirante veio do sertão, chegou aqui, não deu certo e voltou. Disparada é o contrário.

PAS: Vocês fizeram um pouco pensando em Disparada mesmo?

MS: Fizemos, mas nem imaginávamos que o Jair fosse gravar um dia. É uma pessoa relatando, dizendo que veio do sertão, passou por maus bocados aqui, não deu certo, voltou.

PAS: Não detectei isso no disco de vocês, mas do Jair tem música de Luis Vagner, Bedeu, o pessoal do chamado samba-rock de São Paulo. Tem Eu Vou Só, que é bem samba-rock, tem essa mistura.

MS: Exatamente. A gente sugeriu ao Jair que fizesse um disco com as pessoas que são contemporâneas dele, e alguns compositores novos também, mas que o disco fosse bastante eclético no sentido do samba, que tivesse todos os estilos de samba. Jairzão é muito ligado em tudo. Por que não um samba-rock, um samba-enredo? Tem uma seleção de sambas-enredo que algumas pessoas jamais gravariam, um samba do Paulistinha, de Nenê de Vila Matilde, misturado com outro do Zé Di, da Vai-Vai, e um do Império Serrano, do Rio. E tem samba da Comunidade Samba da Vela, Toda Maria, do Azambuja, um compositor que está esquecido, numa cadeira de rodas, teve um derrame. Meu pai, que é músico, compôs um samba, estávamos lá no dia, “pai, bota aquele samba lá”. Jair: “Que samba bonito, vou gravar”. Gravou o samba.

PAS: Qual é? MS: É Depois Chorei, meu pai é Gilberto Alves, o Xique-Xique. É músico, conhece o Jair, mas não tinha aquela ligação, e Jair acabou gravando. Muito legal, foi uma grande experiência. Uma coisa muito legal foi na hora de Jair colocar a voz. Foi gravada simultaneamente com o coro, o que é difícil acontecer hoje em dia. Geralmente as pessoas gravam o couro, depois o artista vai lá e põe a voz. Ficou gravado em estúdio, mas a voz ficou meio ao vivo, todo mundo cantando junto, saca?

PAS: Por que no disco de vocês não tem tanto essa mistura com samba-rock e outros tipos de samba, como no do Jair?

MS: Acho que é porque é mais específico, mais do gênero. Eu, por exemplo, componho samba-rock, tive um gravado pela Alcione em 2005. samba-rock é uma cultura paulista, uma coisa muito sofisticada. Me emocionei vendo o documentário no DVD dos Racionais MC’s, é demais. Retrata o que era a periferia, os bailes black e tal. A gente, sendo do samba, aqui em São Paulo, não tem jeito. Quem é crioulo não tem como ficar, “ah, sou tradicional do samba”, porque é uma mentira. Os pais, os avós, todos eles dançaram nostalgia, samba-rock. Todos vêm daquela cultura também, não dá para ficar naquela coisa de se fechar no tradicionalzão. No nosso disco não tem samba-rock e outras vertentes por causa de estilo mesmo. No disco do Jair rolou, foi uma experiência.

PAS: Em geral, transparece como se fosse uma rivalidade mesmo, o samba e o rap, ou o samba e o pagode mais moderno, como você falou antes. Sempre ficam turmas separadas, mas no fundo, pelo que você está falando, não é bem assim…

MS: Não, não é. Falam samba de raiz para separar do samba novo, mas eu caracterizo o samba de raiz como ligado às raízes mesmo. Não é a forma como é gravado ou composto. Quando Negritude Jr. canta samba da Cohab, to chegando na Cohab, é um samba de raiz. Estão falando do lugar deles, do que são eles, e isso é válido para qualquer gênero. Todos os sambas cantados na Comunidade da Vela são de raiz, independe do estilo.

PAS: Mas, pensando em São Paulo, existe mesmo uma rivalidade entre, por exemplo, samba e rap?MS: Acho que não, nem com o samba moderno nem com o antigo. Nos discos do Negritude Jr., por exemplo, os Racionais participam. No disco do Consciência Humana, o Quinteto participa, com Beth Carvalho. A faixa é o maior barato, homenageando o Pato n’Água, da Vai-Vai, numa comparação com um amigo deles que foi morto pela polícia. Pediram para que a gente cantasse o refrão, silêncio, o sambista está dormindo. A gente fez isso misturado com rap, ficou superbacana, rolou bem, a gente cantando samba, e eles, rap. O Quinteto não é muito a favor de mistura, de misturar os gêneros, rap com samba, aquela batida misturada. Acho que aí perde para os dois lados. Se o Consciência Humana me chama para ir cantar um rap, eu não sei cantar rap, vou lá e canto um samba no rap. Acho que é mais legal, que dignifica mais os dois gêneros. Não é que a gente é contra, a gente evita fazer mistura de batidas.

PAS: Isso na música do Quinteto, você diz?

MS: É, na nossa música. Não que a gente critique qualquer outro artista que faça. A gente tocou com Fernanda Porto, maravilhosa, ela mistura samba com drum’n’bass, e tem uma verdade dela. Só que, se fosse para o Quinteto fazer, não ia rolar.

PAS: O que você está dizendo é que pode, sim, misturar, mas cada um ficando na sua, sabendo de sua especialidade? MS: É, exatamente. A gente até está fazendo um projeto no Sesc, chamado Quem Não Canta Samba, é o quinteto com Célia e com Zélia Duncan, e Zélia vai cantar samba. Pode ser que na hora ela peça para misturar, a gente não vai chegar e dar uma de radical. De repente acontece, no mundo da música tudo é possível. Rivalidade acho que não existe. O que vejo que o pessoal do hip-hop não gosta é algo de que a gente não gosta também, é muita baixa qualidade, essa pornografia toda que rola. Hip-hop faz crítica, o samba também faz, de uma forma mais bem humorada, mas rola muita promiscuidade. Tenho filhas que ouvem vários gêneros aí, alguns são meio complicados para uma criança. E as coisas entram na casa da gente, né? E se a gente fala qualquer coisa, as pessoas já acham que a gente é preconceituoso. Está meio complicado o mundo de hoje para se expressar, embora tenhamos uma democracia. Todo mundo fala, mas ao mesmo tempo é “pô, mas você falou mal de mim”. 

 

 

Jair, multicolorido

27 março 2008

 

 

Grava discos e discos e discos, disciplinadamente, desde 1964, sobretudo no campo do samba.

Foi a outra metade da brava laranja de Elis Regina, em tempos bicudos de juventude, conquista de espaço e reinvenção de regras na música brasiliera.

Empatou o festival de música brasileira de 1966 com A Banda de Chico Buarque, defendendo Disparada, do também bravíssimo Geraldo Vandré, em parceria com Théo de Barros.

Goza de popularidade e empatia imensas, embora nem sempre “intermediadas” pela “mídia”.

Tem vozeirão trovejante, com o qual pratica, entre outras cambalhotas, um samba impuro, misturado, miscigenado, que o faz ser a própria (e algo obscura) cara do samba de São Paulo (embora também seja raramente reconhecido como tal, pelo jornalismo, pelo enciclopedismo ou pelos pares musicais).

É Jair Rodrigues, 69 anos, homem e artista sempre expansivo e bonachão, que fala com orgulho do 46º disco da longa carreira, Jair Rodrigues em Branco e Preto, produzido pelos jovens sambistas paulistas do Quinteto em Branco e Preto.

A entrevista telefônica transcrita abaixo (em complemento a um curto perfil sobre o Quinteto publicada na CartaCapital 489) começa após um almoço na casa da sogra, e termina antes que Jair parta para a missa das 16h na igreja do Perpétuo Socorro. Em disparada, como sempre.

Pedro Alexandre Sanches: Queria que você contasse um pouco a história do disco Jair Rodrigues em Branco e Preto.

Jair Rodrigues: Então vamos contar já, você já vai ficar sabendo (ri). É o 46º disco da minha carreira, e tem a direção de João Marcello Bôscoli, que é o diretor-presidente da Trama. Eu ajudei a fazer também, mas quem me fez essa grata surpresa foi ele. Me chamou na sala dele e perguntou se eu conhecia o Quinteto em Branco e Preto. Falei: “Claro que conheço, rapaz, são os meninos que foram lançados pela Beth Carvalho. Esses meninos até estão precisando de um apoio para se soltarem, porque som bons demais”. João Marcello então perguntou se eu aceitaria que eles produzissem um disco para mim, porque o sonho deles era fazer isso comigo. Falei: “Meu Deus do céu, demorou, vambora”. Entrei em contato com eles, começamos a ver o repertório. Também fiquei surpreso de saber mais deles, gravei três músicas da família. Gravei Toda Maria, Depois Chorei e Migração.

PAS: Que é do pai de Magnu Sousá e Maurílio Oliveira…

JR: É, Migração é um tipo de “sambaião”, dos dois pretinhos do Quinteto em Branco e Preto. 

PAS: Qual é o parentesco dos autores de Toda Maria com o Quinteto?

JR: É do Azambuja com parceiro, eles são amigos do pai deles, que é o Xique-Xique (Geraldo Alves). Me mostraram, achei bonita, eles mesmos disseram que no Samba da Vela essa música e Depois Chorei estouram a boca. Falei que só ia gravar se o samba fosse inédito, e era. Esses meninos são maravilhosos.

PAS: Você só queria se fosse inédito? Por quê? JR: Porque eu não estava querendo muito ir no baú. Eu já vou nas músicas antigas, já faço relançamento, mas deixo isso mais para projetos. Estou, por exemplo, projetando fazer um novo disco só com músicas sertanejas, e um só com serestas. Mas, para disco de carreira, sempre gostei de lançar compositores novos. Aí falei: “Já que as três músicas que vocês me deram são inéditas, já estão no disco”.

PAS: Acho que nem é uma novidade em se tratando de você, mas o disco acabou sendo um passeio pelo samba de São Paulo, não?

JR: Ah, também. Há muito tempo eu estava com vontade de fazer isso para São Paulo. Fui crooner aqui muito antes de gravar discos, e desde que cheguei aqui noto que São Paulo é completamente abandonada por esse lado. E os caras não acreditam, mas foi aqui dentro que praticamente tudo começou. Aqui os caras cantavam bossa nova, está aí o Johnny Alf para não me deixar mentir. Não sei se ele é lá do Rio, mas sempre viveu aqui. E nossa Alaíde Costa, também. Tudo era aqui. Quantas e quantas vezes eu saía para a noite e encontrava Cyro Monteiro, Ataulfo Alves, esse pessoal todo, mas quando se fala em samba é só o Rio de Janeiro. O saudoso Vinicius de Moraes, acho que numa frase infeliz, disse que São Paulo era o túmulo do samba. Mas nem São Paulo é o túmulo do samba, nem o Brasil é. É o berço do samba. o samba não tem túmulo, o samba tem berço.

PAS: A mídia se apropriou muito da frase do Vinicius, amplificou muito ela, não?

JR: Foi. Ele tentou depois se explicar, mas não acataram bem a explicação dele, não (ri).

PAS: Mas então foi de propósito que você reuniu vários sambas de São Paulo no disco?

JR: Foi, foi. Inclusive me lembrei de um grande sambista, um dos ícones do samba de breque, do samba malandreado paulista, que sempre teve aqui, que é Germano Mathias. Convidei ele para cantar comigo um samba que foi um grande sucesso dele dos anos 60, Baiano Capoeira, que foca também os outros dois autores, Jorge Costa e Geraldo Filme. Foi tudo de propósito, os meninos do Quinteto. Nós precisamos resgatar essa coisa, o próprio paulista parece que tem vergonha. Ele vai para a Bahia, quer ser baiano. Vai para o Rio, quer ser carioca. E não exalta São Paulo, estou falando musicalmente, que é o que faço.

PAS: A música de abertura do disco é de Luis Vagner e Bedeu, que são dois artistas mais ligados ao que se chama de samba-rock que ao samba propriamente. É uma das misturas promovidas pelo samba de São Paulo.

JR: Pois é, a faixa Eu Vou Só também é um samba-rock, desse menino, Faeti.

PAS: Quem é o Faeti?

JR: Eu não sei de onde ele é, parece que de Minas Gerais. Mas já está aqui há muitos e muitos anos, canta na noite. Fiz mais esse resgate. E até os sambas de enredo, eu estava conversando com os meninos do Quinteto e falei que queria regravar um samba-enredo de São Paulo. Não que já não tivesse gravado, gravei sambas do Camisa Verde, do Rosas de Ouro. Mas queria fazer um resgate de um samba-enredo conhecido em São Paulo, e eles mesmos me mostraram Marquesa de Santos, da Nenê da Vila Matilde. E botei no medley Independência ou Morte, que é da Vai-Vai, um samba do Zé Di. E aí coloquei junto um clássico, Exaltação a Tiradentes, do Rio.

PAS: Foi outra idéia proposital, misturar sambas-enredo de São Paulo e do Rio?

JR: Olha, tudo que eu fiz nesse disco foi proposital mesmo. E com um aval muito grande do João Marcello, que pensa dessa mesma forma que pensei. Ele também ajudou na escolha do repertório. Tem também um samba de minha autoria, em parceria com Paulinho Dafilin, que se chama Quem Falou?, (cantarola) quem falou que não gosta de samba/ não fui eu (ri).

PAS: Tem também um do seu filho, Jair Oliveira, que não é exatamente conhecido como sambista…

JR: É, porque manifestei para o Jairzinho uma idéia de gravar um samba tipo samba-choro, uma coisa que fosse mais para o lado do chorinho. Ele falou: “Pai, escuta, vê se o senhor gosta desse”, o dia amanhece como todo dia… Falei: “Pô, Jair, superlegal, um samba-choro muito bem feito”. E fiz também esse resgate. Aqui em São Paulo sempre teve esse negócio de chorões. Tinha no Rio de Janeiro, mas aqui também pude ver quantos e quantos conjuntos de choro, no centro da cidade, nas imediações da rua Aurora. Vivi muito durante a noite as serestas, os choros, tudo feito em São Paulo. Quis enaltecer São Paulo (ri).

PAS: Entrevistando Magnu Sousá, ele comentou que, quando se fala do samba de São Paulo, os estudiosos falam como se fosse um samba mais rural, interiorano. É curioso que ouço isso no seu disco, encontro mesmo elementos mais interioranos. Você concorda?

JR: É… Durante cinco anos morei em São Carlos, foi lá que comecei minha vida profissional na noite. Então a gente notava que lá no interior, no lugar onde eu cantava, havia muitos pedidos de sambas que o interiorano cantava. Também procurei por esse lado. Tudo no disco é referente a São Paulo, sem esquecer do Rio – gravei Nelson Cavaquinho, o samba-enredo…

PAS: Almir Guineto…

JR: Sim, mas procurei mais as coisas daqui, falar das coisas musicais que São Paulo tem.

PAS: Não podemos esquecer que você é nascido no interior de São Paulo.

JR: Isso, eu sou de Igarapava. É uma cidade paulista, embora muito perto de Minas Gerais. Igarapava faz divisa com Uberaba, mas minha cidade natal é paulista.

PAS: Dá para ver Igarapava nesse disco, de algum jeito?

JR: Dá, dá, dá (ri). É mais São Paulo, mas dá para ver. Na verdade só nasci em Igarapava, quando saí devia ser menino de colo ainda. Mas, nas vezes que voltei a Igarapava, primeiro havia muitas casas, barzinhos, muitos redutos de música. Na última vez que estive lá, há uns dois anos, não vi mais isso. Mas acho que lembro de Igarapava nesse samba romântico que tem aí, Madrugada Sorrindo de Novo, do Almir Guineto e do Gilson de Souza. Fui eu que contei essa história para eles, e eles trouxeram já o samba pronto. “É isso aí que eu quero.” Então tem um cantinho de Igarapava, sim (ri).

PAS: Você nasceu na zona rural?

JR: Nasci numa usina chamada Usina Junqueira.

PAS: De cana-de-açúcar?

JR: É, cana-de-açúcar. Aliás, estive lá, até hoje tem lá a casa onde nasci. Era uma casa de colonos, um conjunto de muitas casas.

PAS: Seus pais trabalhavam na lavoura?

JR: Meu pai era amansador de burro brabo. Era peão amansador. Amansava cavalos, até boi ele amansava (ri).

PAS: Há algum eco disso em Disparada?

JR: É, justo. E minha mãe era empregada dos donos da fazenda. Eu vivia não em Igarapava, que mal conheci. Conheci Nova Europa, que fica no estado de São Paulo, perto de Araraquara, São Carlos. Minha mãe foi trabalhar em Nova Europa, na Fazenda Itaquerê. Você vê que tenho um pé dentro das fazendas. Minha mãe era empregada doméstica, e eu, com meus 5, 6 anos, já ajudava minha velha mãe nos afazeres da fazenda.

PAS: E para São Carlos você foi logo?

JR: Morrei dos 6 aos 14 anos em Nova Europa, e dos 14 aos 19 em São Carlos. Aí vim para São Paulo, trazido pelo meu irmão mais velho, Jairo. Cheguei aqui no final dos anos 50, acho que em 1959.

PAS: E nunca mais saiu?

JR: Não, não. Moro na Granja Vianna, já dentro de Cotia, mas perto de São Paulo. Saindo da minha casa, 40 minutos depois estou dentro da Grande São Paulo.

PAS: E sua origem perto da fronteira mineira, você acha que aparece na sua música?

JR: É, porque meu pai era mineiro. Minha mãe era paulista, de Cristais. Mas eu morava a um passo, só o que dividia Igarapava de Minas era o rio chamado rio Grande e uma ponte. Se atravessava a ponte, estava em Minas Gerais. Um dos primeiros shows que fiz na vida, já depois de sucesso, foi em Uberaba, em Belo Horizonte. Não saio de lá, quase sempre estou lá. E minha primeira namorada, né?, não sei se você está sabendo, era mineira. Foi a Clara Nunes. Depois tive uma outra namorada de Minas, chamada Ângela.

PAS: Clara foi a primeira mesmo?

JR: Clara Nunes foi, rolou um amor muito bonito entre a gente. Depois que ela começou a fazer sucesso, cada um seguiu para um lado. Não tínhamos mais tempo de nos encontrar, então achamos melhor mesmo ser amigos.

PAS: Quando começaram ela não era conhecida ainda?

JR: Não era, não. Estivemos juntos, eu, ela e os Originais do Samba, assim que ela veio para São Paulo. Precisavam de uma cantora, levei ela, fomos parar em Buenos Aires.

PAS: É como foi que o samba foi encontrar esse menino de fazenda, como você falou há pouco?

JR: Pedro, eu, antes de gravar meu primeiro disco, fui um crooner. E você sabe, um crooner, cantor da noite, tem que cantar de tudo. E as músicas pedidas eram sambas do Ataulfo Alves, Aquarela do Brasil, e eu acabei gostando. Embora cantando outros ritmos, o ritmo que gosto mais de cantar é o samba. E pude observar isso depois de muito tempo viajando, fora do País. Notei que o samba é uma tradição e que eu estava infiltrado, estava dentro. Como diz, o samba me cantou e eu cantei o samba.

PAS: Não se fala muito de você como o sambista paulista mais conhecido e atuante, mas você é, não é? Por que não se lembra muito que Jair Rodrigues é o samba de São Paulo?

JR: É porque eu tenho uma característica de cantar de tudo, não é? Não sou considerado só um sambista, embora o que eu mais goste de cantar seja o samba. A gente canta de tudo, acho que por isso os caras não me têm como um sambista, me têm mais como um intérprete. A gente já fez sucesso e continua fazendo com seresta, música sertaneja, samba de enredo, bossa nova, bolero… A gente grava de tudo.

PAS: Você mencionou o projeto de gravar um disco de música sertaneja, como seria isso?

JR: É, já estive fazendo umas pesquisas… Eu chamaria, por exemplo, Chitãozinho & Xororó para gravarmos novamente juntos, Sérgio Reis… Queria fazer 14 músicas sertanejas e chamar 14 amigos que cantam esse estilo de música, uma espécie de Jair e Seus Amigos Sertanejos (ri).

PAS: As músicas seriam mais antigas, ou o sertanejo mais moderno?

JR: Não, seriam músicas mais antigas, aqueles clássicos sertanejos. Talvez, se pintasse alguma música sertaneja de raiz, mas inédita, a gente gravaria também.

PAS: Que clássicos, por exemplos, não faltariam?

JR: Ah, Menino da Portetra. Índia, que não chega a ser uma música sertaneja, mas eu sinto. Regravaria novamente Disparada com alguém, ou A Majestade, o Sabiá. Luar do Sertão… Coisas que Tonico & Tinoco cantavam, os clássicos mesmo.

PAS: Índia é sertaneja do Paraguai, Luar do Sertão, do Nordeste. Seriam sertanejas de todo canto, então?

JR: É, vou dar um jeito de trazer Índia do Paraguai para o Brasil (ri).