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A MPB no divã

31 outubro 2008
POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES (*)

Sandra de Sá, cantora de Vale Tudo, Olhos Coloridos e Joga Fora no Lixo, toma a palavra. Numa auto-avaliação sobre a turma a que pertence, molha a voz em choro: “Nossa classe parece o Brasileirão, todo mundo jogando contra todo mundo. Dentro do mesmo time, é só briga. Me emociona porque fico triste”. Raimundo Fagner, cantor de Cebola Cortada, Canteiros e Borbulhas de Amor, afaga tranças black power da colega, em gesto de solidariedade.

A cena acontece num hotel em Canela, Rio Grande do Sul, onde estrelas de várias grandezas se reúnem na semana de 20 de outubro para celebrar a chamada Festa Nacional da Música. É um convescote interno da comunidade musical, que reúne segmentos díspares da música nacional. Neste ano, aviões fretados partiram de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador carregando desde a histórica Angela Maria, cantora de Babalu, até o trio KLB, de pops adolescentes como Não Vou Desistir.

Se nos vários espaços do grande hotel o esforço contínuo é pela demonstração de alegria, a perplexidade diante da já arrastada decadência da indústria musical dá o tom inicial das discussões paralelas às festividades. Estamos num debate sobre a “PEC da Música”, uma proposta de emenda constitucional em tramitação no Congresso Nacional, que almeja conquistar imunidade tributária aos fonogramas produzidos no Brasil por artistas brasileiros, como já acontece em setores como o do livro e o dos templos religiosos.

Lá fora, a governadora tucana Yeda Crusius abre os trabalhos, abraça Preta Gil (cantora de Sinais de Fogo) e participa de uma roda de cantoria. Lá fora, os artistas de axé music fazem a festa numa série pocket shows cheios de encontros inusitados, mas nenhum deles participará de nenhum dos debates ao longo dos três dias de programação intensiva. Cá dentro, diretores de gravadoras e sociedades arrecadadoras de direitos autorais concentram energias em tentar convencer os não muitos artistas presentes a encorpar a luta pelo subsídio.

Um ou outro artista se soma à fileira dos mobilizados. “No começo todo mundo disse: ‘Pode contar comigo, vou levar meu Estado inteiro para Brasília’. Mas, quando mandei e-mails chamando, ninguém respondeu”, lamenta Leoni, ex-integrante do grupo Kid Abelha e co-autor de Fixação e Como Eu Quero. “Sou sempre eu que vou a Brasília, fico constrangido, parece até que é a ‘PEC do Leoni’.” Outros dos poucos engajados são Sandra de Sá e os não-presentes Frejat (integrante do Barão Vermelho em rocks acelerados como Bete Balanço e Por Que Que a Gente É Assim?) e Rosemary (integrante da jovem guarda com baladas e rocks iê-iê-iê como A Dança dos Brotos e Quero Ser Amada).

Sérgio Reis, cantor de Menino da Porteira, comanda a rejeição à idéia de ir fazer lobby político em Brasília. “Fui dez vezes falar com FHC, adiantou? Fica tudo na mesma, fui falar com a pessoa errada. Falo com Lula na hora que quero, ele é meu fã, quando eu falo ele me ouve. Mas adianta?”, pergunta. E lança conclusão surpreendente: “Eu vou é ser deputado federal por Minas Gerais, tenho conversado com Frank Aguiar (cantor de forró convertido em deputado federal). Todos nós estamos assustados com essa crise. Vamos todos nos candidatar, seremos 500 deputados”.

“Mas deixa um pouquinho para nós”, assusta-se o deputado petista Décio Lima (SC), um dos condutores da PEC, que participa do debate lado a lado com o tucano Otávio Leite (RJ), com quem troca muita simpatia e uma ou outra agulhada. “Você vai ser meu assessor especial”, Reis o tranqüiliza. Fagner cutuca: “A gente tem que lutar como artista, não é ir para a política. Lá, a maioria não deu certo”. “Pelo menos a gente ganha imunidade parlamentar”, devolve Reis, risonho.

No segundo dia, o encontro é entre artistas e o Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), o órgão que os representa na captação de direitos autorais pela execução pública de músicas Brasil afora. George Israel, integrante do Kid Abelha e saxofonista de Pintura Íntima e Por Que Não Eu?, repele o chamado à participação: “Eu não quero nem ligar para o Ecad. Meu trabalho não é esse, quero uma maior fluidez de informação”. A superintendente do Ecad, Glória Braga, tenta explicar que ele deve fazer reivindicações junto à associação de direitos autorais a que é filiado. “Mas eu não quero saber. Eu sou de um clube e quero usar a piscina, só”, o músico rebate.

Adiante, ele obedece ao tom solicitado pelo mediador das mesas, Carlos de Andrade, ex-dirigente de grandes gravadoras e hoje dono da gravadora independente Visom, de que “não é para jogar pedra no Ecad, gente, por favor”. “Eu também já xinguei o Ecad. Parei faz um tempo”, amacia Israel.

A classe política, poupada quando estava presente, no debate anterior, agora vai à berlinda. “Fui impedido de fazer comício, mas todas as campanhas usam nossas músicas em carros de som. Queria saber se o Ecad recebeu por isso”, protesta Paulinho, cantor de Companheiro É Companheiro na dupla sertaneja Cezar & Paulinho. “Tocam nossa música inteira, e a gente é proibido de dizer em quem vai votar.” O desagrado com a interrupção dos showmícios alastra-se pela platéia estrelada. “O fim do showmício foi uma perda de receita, realmente. Porque os partidos políticos pagavam, por incrível que pareça”, constata a superintendente do Ecad.

São abundantes as queixas contra o comportamento das emissoras de rádio e tevê, muitas delas controladas por políticos, muitas delas inadimplentes junto ao Ecad. Alguém vem cochichar no ouvido de Glória. A TV Globo está lá fora e precisa entrevistá-la rapidamente, agora. “Merece eu ir lá atendê-los, estamos na Justiça contra eles. Será que vão nos pagar?”, brinca Glória. E vai.

Fafá de Belém, cantora de Xamego, Maria Solidária e Nuvem de Lágrimas, tenta abordar o “espaço comprado nas rádios” para que elas toquem determinadas músicas, mas o mediador pula na frente: “Jabá não é assunto para a gente”. Adiante, Edmundo Souto, co-autor de Andança e dirigente de associação arrecadadora, comemora: “Estou feliz porque hoje ninguém falou que o Ecad é caixa-preta. Sempre é só porrada”.

Esse debate é polarizado por Eduardo Araujo, cantor de O Bom e Vem Quente Que Eu Estou Fervendo. Ele não é político, mas revela que é dono de uma emissora de rádio no Vale do Jequitinhonha, interior de Minas Gerais. E que está inadimplente com o Ecad, a mesma entidade de que depende na outra ponta, para receber direitos merecidos como autor.

“Minha rádio nunca me deu lucro nenhum, opera no vermelho até hoje. Fiquei cinco anos fora do ar e estou sendo cobrado por esses cinco anos. Não é que a gente não paga porque é sem-vergonha, é porque não pode”, reclama.

É rebatido indiretamente pelo editor de músicas Marcos Jucá: “Acho curioso que várias empresas usam da música para viver e estão sempre no vermelho”. “Sérgio Reis sabe da minha luta, eu estava devendo um absurdo, iam cassar a minha concessão”, prossegue Araujo.

Ele segue em tom de queixume, até a explosão de Fafá de Belém: “Então fecha, muda de negócio”. “Você está pensando em você, não no social”, protesta Araujo. “Não estou pensando em mim nada.” “Falou para eu fechar. Não se pode fazer caridade com o chapéu dos outros.”

O credor de si próprio critica o Ecad, ataca os debatedores, não deixa o assunto girar. “Vocês não querem fechar aspas”, grita, e sai, as botas de caubói pisando fortes no chão. Pepeu Gomes, autor de O Mal É o Que Sai da Boca do Homem, assiste às discussões em silêncio.

O tom de ladainha só irá mudar de rumo no último dia de debate, quando a Festa da Música recebe a visita de um representante do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Vitor Hugo Ribeiro vem contar do cartão de crédito para pequenos e microempresários que o BNDES almeja popularizar também nos meios culturais, especificamente nos musicais. Explica que, com pagamento em até 36 vezes e juros de 1,14% ao mês, o benefício pode ser utilizado para prensagem de CDs, compra de equipamentos musicais e de gravação, ônibus de turnê.

Só pode financiar disco já gravado? A produção do CD não pode?”, quer saber Gretchen, intérprete de Freak le Boom Boom e Melô do Piripiri e atualmente cantora de forró. Ribeiro explica que o BNDES não financia serviços, só bens palpáveis.

A mesma pergunta é repetida minutos depois por Belchior, autor de Como Nossos PaisVelha Roupa Colorida (sucessos também na voz da gaúcha Elis Regina, que ele homenageará nos shows de encerramento, antes de cantar e tocar em companhia de Angela Maria e Pepeu Gomes) e Paralelas. Ribeiro explica de novo. Gretchen insiste, o queixume ecoa pela sala, há quem se mostre inconformado por o Estado não ser paternalista o suficiente para financiar o processo todo, de ponta a ponta.

O editor Jucá batuca na mesma tecla, queixa-se que o BNDES financia apenas “a ponta do iceberg”. Mas logo corrige a rota: “É tão fácil que nós não estamos acreditando”.

“Maravilha, maravilha”, espanta-se Belchior.

(*) O jornalista viajou a convite da organização da Festa Nacional da Música.

Jair, multicolorido

27 março 2008

 

 

Grava discos e discos e discos, disciplinadamente, desde 1964, sobretudo no campo do samba.

Foi a outra metade da brava laranja de Elis Regina, em tempos bicudos de juventude, conquista de espaço e reinvenção de regras na música brasiliera.

Empatou o festival de música brasileira de 1966 com A Banda de Chico Buarque, defendendo Disparada, do também bravíssimo Geraldo Vandré, em parceria com Théo de Barros.

Goza de popularidade e empatia imensas, embora nem sempre “intermediadas” pela “mídia”.

Tem vozeirão trovejante, com o qual pratica, entre outras cambalhotas, um samba impuro, misturado, miscigenado, que o faz ser a própria (e algo obscura) cara do samba de São Paulo (embora também seja raramente reconhecido como tal, pelo jornalismo, pelo enciclopedismo ou pelos pares musicais).

É Jair Rodrigues, 69 anos, homem e artista sempre expansivo e bonachão, que fala com orgulho do 46º disco da longa carreira, Jair Rodrigues em Branco e Preto, produzido pelos jovens sambistas paulistas do Quinteto em Branco e Preto.

A entrevista telefônica transcrita abaixo (em complemento a um curto perfil sobre o Quinteto publicada na CartaCapital 489) começa após um almoço na casa da sogra, e termina antes que Jair parta para a missa das 16h na igreja do Perpétuo Socorro. Em disparada, como sempre.

Pedro Alexandre Sanches: Queria que você contasse um pouco a história do disco Jair Rodrigues em Branco e Preto.

Jair Rodrigues: Então vamos contar já, você já vai ficar sabendo (ri). É o 46º disco da minha carreira, e tem a direção de João Marcello Bôscoli, que é o diretor-presidente da Trama. Eu ajudei a fazer também, mas quem me fez essa grata surpresa foi ele. Me chamou na sala dele e perguntou se eu conhecia o Quinteto em Branco e Preto. Falei: “Claro que conheço, rapaz, são os meninos que foram lançados pela Beth Carvalho. Esses meninos até estão precisando de um apoio para se soltarem, porque som bons demais”. João Marcello então perguntou se eu aceitaria que eles produzissem um disco para mim, porque o sonho deles era fazer isso comigo. Falei: “Meu Deus do céu, demorou, vambora”. Entrei em contato com eles, começamos a ver o repertório. Também fiquei surpreso de saber mais deles, gravei três músicas da família. Gravei Toda Maria, Depois Chorei e Migração.

PAS: Que é do pai de Magnu Sousá e Maurílio Oliveira…

JR: É, Migração é um tipo de “sambaião”, dos dois pretinhos do Quinteto em Branco e Preto. 

PAS: Qual é o parentesco dos autores de Toda Maria com o Quinteto?

JR: É do Azambuja com parceiro, eles são amigos do pai deles, que é o Xique-Xique (Geraldo Alves). Me mostraram, achei bonita, eles mesmos disseram que no Samba da Vela essa música e Depois Chorei estouram a boca. Falei que só ia gravar se o samba fosse inédito, e era. Esses meninos são maravilhosos.

PAS: Você só queria se fosse inédito? Por quê? JR: Porque eu não estava querendo muito ir no baú. Eu já vou nas músicas antigas, já faço relançamento, mas deixo isso mais para projetos. Estou, por exemplo, projetando fazer um novo disco só com músicas sertanejas, e um só com serestas. Mas, para disco de carreira, sempre gostei de lançar compositores novos. Aí falei: “Já que as três músicas que vocês me deram são inéditas, já estão no disco”.

PAS: Acho que nem é uma novidade em se tratando de você, mas o disco acabou sendo um passeio pelo samba de São Paulo, não?

JR: Ah, também. Há muito tempo eu estava com vontade de fazer isso para São Paulo. Fui crooner aqui muito antes de gravar discos, e desde que cheguei aqui noto que São Paulo é completamente abandonada por esse lado. E os caras não acreditam, mas foi aqui dentro que praticamente tudo começou. Aqui os caras cantavam bossa nova, está aí o Johnny Alf para não me deixar mentir. Não sei se ele é lá do Rio, mas sempre viveu aqui. E nossa Alaíde Costa, também. Tudo era aqui. Quantas e quantas vezes eu saía para a noite e encontrava Cyro Monteiro, Ataulfo Alves, esse pessoal todo, mas quando se fala em samba é só o Rio de Janeiro. O saudoso Vinicius de Moraes, acho que numa frase infeliz, disse que São Paulo era o túmulo do samba. Mas nem São Paulo é o túmulo do samba, nem o Brasil é. É o berço do samba. o samba não tem túmulo, o samba tem berço.

PAS: A mídia se apropriou muito da frase do Vinicius, amplificou muito ela, não?

JR: Foi. Ele tentou depois se explicar, mas não acataram bem a explicação dele, não (ri).

PAS: Mas então foi de propósito que você reuniu vários sambas de São Paulo no disco?

JR: Foi, foi. Inclusive me lembrei de um grande sambista, um dos ícones do samba de breque, do samba malandreado paulista, que sempre teve aqui, que é Germano Mathias. Convidei ele para cantar comigo um samba que foi um grande sucesso dele dos anos 60, Baiano Capoeira, que foca também os outros dois autores, Jorge Costa e Geraldo Filme. Foi tudo de propósito, os meninos do Quinteto. Nós precisamos resgatar essa coisa, o próprio paulista parece que tem vergonha. Ele vai para a Bahia, quer ser baiano. Vai para o Rio, quer ser carioca. E não exalta São Paulo, estou falando musicalmente, que é o que faço.

PAS: A música de abertura do disco é de Luis Vagner e Bedeu, que são dois artistas mais ligados ao que se chama de samba-rock que ao samba propriamente. É uma das misturas promovidas pelo samba de São Paulo.

JR: Pois é, a faixa Eu Vou Só também é um samba-rock, desse menino, Faeti.

PAS: Quem é o Faeti?

JR: Eu não sei de onde ele é, parece que de Minas Gerais. Mas já está aqui há muitos e muitos anos, canta na noite. Fiz mais esse resgate. E até os sambas de enredo, eu estava conversando com os meninos do Quinteto e falei que queria regravar um samba-enredo de São Paulo. Não que já não tivesse gravado, gravei sambas do Camisa Verde, do Rosas de Ouro. Mas queria fazer um resgate de um samba-enredo conhecido em São Paulo, e eles mesmos me mostraram Marquesa de Santos, da Nenê da Vila Matilde. E botei no medley Independência ou Morte, que é da Vai-Vai, um samba do Zé Di. E aí coloquei junto um clássico, Exaltação a Tiradentes, do Rio.

PAS: Foi outra idéia proposital, misturar sambas-enredo de São Paulo e do Rio?

JR: Olha, tudo que eu fiz nesse disco foi proposital mesmo. E com um aval muito grande do João Marcello, que pensa dessa mesma forma que pensei. Ele também ajudou na escolha do repertório. Tem também um samba de minha autoria, em parceria com Paulinho Dafilin, que se chama Quem Falou?, (cantarola) quem falou que não gosta de samba/ não fui eu (ri).

PAS: Tem também um do seu filho, Jair Oliveira, que não é exatamente conhecido como sambista…

JR: É, porque manifestei para o Jairzinho uma idéia de gravar um samba tipo samba-choro, uma coisa que fosse mais para o lado do chorinho. Ele falou: “Pai, escuta, vê se o senhor gosta desse”, o dia amanhece como todo dia… Falei: “Pô, Jair, superlegal, um samba-choro muito bem feito”. E fiz também esse resgate. Aqui em São Paulo sempre teve esse negócio de chorões. Tinha no Rio de Janeiro, mas aqui também pude ver quantos e quantos conjuntos de choro, no centro da cidade, nas imediações da rua Aurora. Vivi muito durante a noite as serestas, os choros, tudo feito em São Paulo. Quis enaltecer São Paulo (ri).

PAS: Entrevistando Magnu Sousá, ele comentou que, quando se fala do samba de São Paulo, os estudiosos falam como se fosse um samba mais rural, interiorano. É curioso que ouço isso no seu disco, encontro mesmo elementos mais interioranos. Você concorda?

JR: É… Durante cinco anos morei em São Carlos, foi lá que comecei minha vida profissional na noite. Então a gente notava que lá no interior, no lugar onde eu cantava, havia muitos pedidos de sambas que o interiorano cantava. Também procurei por esse lado. Tudo no disco é referente a São Paulo, sem esquecer do Rio – gravei Nelson Cavaquinho, o samba-enredo…

PAS: Almir Guineto…

JR: Sim, mas procurei mais as coisas daqui, falar das coisas musicais que São Paulo tem.

PAS: Não podemos esquecer que você é nascido no interior de São Paulo.

JR: Isso, eu sou de Igarapava. É uma cidade paulista, embora muito perto de Minas Gerais. Igarapava faz divisa com Uberaba, mas minha cidade natal é paulista.

PAS: Dá para ver Igarapava nesse disco, de algum jeito?

JR: Dá, dá, dá (ri). É mais São Paulo, mas dá para ver. Na verdade só nasci em Igarapava, quando saí devia ser menino de colo ainda. Mas, nas vezes que voltei a Igarapava, primeiro havia muitas casas, barzinhos, muitos redutos de música. Na última vez que estive lá, há uns dois anos, não vi mais isso. Mas acho que lembro de Igarapava nesse samba romântico que tem aí, Madrugada Sorrindo de Novo, do Almir Guineto e do Gilson de Souza. Fui eu que contei essa história para eles, e eles trouxeram já o samba pronto. “É isso aí que eu quero.” Então tem um cantinho de Igarapava, sim (ri).

PAS: Você nasceu na zona rural?

JR: Nasci numa usina chamada Usina Junqueira.

PAS: De cana-de-açúcar?

JR: É, cana-de-açúcar. Aliás, estive lá, até hoje tem lá a casa onde nasci. Era uma casa de colonos, um conjunto de muitas casas.

PAS: Seus pais trabalhavam na lavoura?

JR: Meu pai era amansador de burro brabo. Era peão amansador. Amansava cavalos, até boi ele amansava (ri).

PAS: Há algum eco disso em Disparada?

JR: É, justo. E minha mãe era empregada dos donos da fazenda. Eu vivia não em Igarapava, que mal conheci. Conheci Nova Europa, que fica no estado de São Paulo, perto de Araraquara, São Carlos. Minha mãe foi trabalhar em Nova Europa, na Fazenda Itaquerê. Você vê que tenho um pé dentro das fazendas. Minha mãe era empregada doméstica, e eu, com meus 5, 6 anos, já ajudava minha velha mãe nos afazeres da fazenda.

PAS: E para São Carlos você foi logo?

JR: Morrei dos 6 aos 14 anos em Nova Europa, e dos 14 aos 19 em São Carlos. Aí vim para São Paulo, trazido pelo meu irmão mais velho, Jairo. Cheguei aqui no final dos anos 50, acho que em 1959.

PAS: E nunca mais saiu?

JR: Não, não. Moro na Granja Vianna, já dentro de Cotia, mas perto de São Paulo. Saindo da minha casa, 40 minutos depois estou dentro da Grande São Paulo.

PAS: E sua origem perto da fronteira mineira, você acha que aparece na sua música?

JR: É, porque meu pai era mineiro. Minha mãe era paulista, de Cristais. Mas eu morava a um passo, só o que dividia Igarapava de Minas era o rio chamado rio Grande e uma ponte. Se atravessava a ponte, estava em Minas Gerais. Um dos primeiros shows que fiz na vida, já depois de sucesso, foi em Uberaba, em Belo Horizonte. Não saio de lá, quase sempre estou lá. E minha primeira namorada, né?, não sei se você está sabendo, era mineira. Foi a Clara Nunes. Depois tive uma outra namorada de Minas, chamada Ângela.

PAS: Clara foi a primeira mesmo?

JR: Clara Nunes foi, rolou um amor muito bonito entre a gente. Depois que ela começou a fazer sucesso, cada um seguiu para um lado. Não tínhamos mais tempo de nos encontrar, então achamos melhor mesmo ser amigos.

PAS: Quando começaram ela não era conhecida ainda?

JR: Não era, não. Estivemos juntos, eu, ela e os Originais do Samba, assim que ela veio para São Paulo. Precisavam de uma cantora, levei ela, fomos parar em Buenos Aires.

PAS: É como foi que o samba foi encontrar esse menino de fazenda, como você falou há pouco?

JR: Pedro, eu, antes de gravar meu primeiro disco, fui um crooner. E você sabe, um crooner, cantor da noite, tem que cantar de tudo. E as músicas pedidas eram sambas do Ataulfo Alves, Aquarela do Brasil, e eu acabei gostando. Embora cantando outros ritmos, o ritmo que gosto mais de cantar é o samba. E pude observar isso depois de muito tempo viajando, fora do País. Notei que o samba é uma tradição e que eu estava infiltrado, estava dentro. Como diz, o samba me cantou e eu cantei o samba.

PAS: Não se fala muito de você como o sambista paulista mais conhecido e atuante, mas você é, não é? Por que não se lembra muito que Jair Rodrigues é o samba de São Paulo?

JR: É porque eu tenho uma característica de cantar de tudo, não é? Não sou considerado só um sambista, embora o que eu mais goste de cantar seja o samba. A gente canta de tudo, acho que por isso os caras não me têm como um sambista, me têm mais como um intérprete. A gente já fez sucesso e continua fazendo com seresta, música sertaneja, samba de enredo, bossa nova, bolero… A gente grava de tudo.

PAS: Você mencionou o projeto de gravar um disco de música sertaneja, como seria isso?

JR: É, já estive fazendo umas pesquisas… Eu chamaria, por exemplo, Chitãozinho & Xororó para gravarmos novamente juntos, Sérgio Reis… Queria fazer 14 músicas sertanejas e chamar 14 amigos que cantam esse estilo de música, uma espécie de Jair e Seus Amigos Sertanejos (ri).

PAS: As músicas seriam mais antigas, ou o sertanejo mais moderno?

JR: Não, seriam músicas mais antigas, aqueles clássicos sertanejos. Talvez, se pintasse alguma música sertaneja de raiz, mas inédita, a gente gravaria também.

PAS: Que clássicos, por exemplos, não faltariam?

JR: Ah, Menino da Portetra. Índia, que não chega a ser uma música sertaneja, mas eu sinto. Regravaria novamente Disparada com alguém, ou A Majestade, o Sabiá. Luar do Sertão… Coisas que Tonico & Tinoco cantavam, os clássicos mesmo.

PAS: Índia é sertaneja do Paraguai, Luar do Sertão, do Nordeste. Seriam sertanejas de todo canto, então?

JR: É, vou dar um jeito de trazer Índia do Paraguai para o Brasil (ri).