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O “prefeito” de Xerém

4 abril 2008

Texto-reportagem extraído da “CartaCapital” 490, de 9 de abril de 2008, nas bancas desde a sexta-feira 4.

O PREFEITO DE XERÉM

Um dia na vida interiorana de Zeca Pagodinho, com cerveja, angu com miúdos e distribuição de cestas básicas

 

Lá fora, uma longa fila serpenteia sob o sol da manhã e do início da tarde. Há uma farta distribuição de cestas básicas, que o dono da casa controla cá de dentro, entre gritos, broncas e uma dose considerável de divertimento. Embora a situação lhe confira ares de líder comunitário, cacique ou chefe político interiorano, ele rejeita com veemência qualquer rótulo dessa natureza. “Ah, não faz isso comigo, porra. É atividade de gente, você também pode fazer isso”, protesta. Não, ele é cantor, músico, sambista, só. Chama-se Jessé Gomes da Silva Filho, mas é nacionalmente conhecido como Zeca Pagodinho. 

O cenário é Xerém, eleito como segunda residência há mais de 20 anos pelo carioca suburbano do Irajá, hoje estabelecido no bairro de classe alta da Barra da Tijuca. Distrito do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a cerca de 50 quilômetros do Rio de Janeiro, Xerém é local pobre, plantado em área intensamente verde, ao pé da serra de Petrópolis. O repórter chega de táxi, às 10h30, e encontra Zeca com um copo de cerveja na mão, de bermuda, descalço e sem camisa, torso adornado por uma tatuagem de Cosme e Damião e barriga proeminente, aboletado num quiosque no pátio em que se misturam automóveis, cavalos e uma charrete, a meio caminho entre a ampla ala residencial da família e a rua. 

As 997 cestas estão amontoadas numa das salas principais da casa, e são fruto de uma “parceria” que o artista firmou com uma marca de sapatos. Zeca compareceu e levou amigos da Globo ao desfile da marca. Em troca, recebeu as cestas levadas como ingressos, em nome da Escolinha de Música Mata Virgem, que ele construiu do outro lado da rua. 

Os primeiros beneficiários da assistência entram de bicicleta no pátio. Cumprimentam de cabeça baixa o benfeitor, trocam com ele uma ou duas frases tímidas e se vão. A rua se agita pela notícia de que é dia de Zeca distribuir cestas. O portão se fecha, e o funcionário Negão, responsável pelas entregas, cumpre a tarefa com uma expressão de medo no rosto, controlado pelo patrão em regime simultâneo de pressão e simpatia.

Ao lado da churrasqueira, funcionários com pinta de compadres (ou vice-versa) preparam o angu com miúdos que será servido no almoço. Abridores de garrafa pendurados por barbantes facilitam o ritual quase ininterrupto de abrir cervejas, depois acondicionadas em recipientes de isopor ornados por emblemas da Portela. Jane Barboza, divulgadora do artista junto à imprensa, chegou com a filha pequena já vestida de biquíni, pronta para mergulhar na piscina com a caçula de Zeca, de 4 anos. O sambista tem mais uma filha adolescente e dois filhos universitários, que cursam Direito e Administração. 

Para tirar fotografia, a assessora pede que ele vista uma camisa. Por vontade própria, ele mostraria a barriga. “Eu não me importo também, não”, concorda Mônica, a esposa há 21 anos, sorriso largo espalhado no rosto. “Eu é que sou a mala”, lamenta Jane. “Demorou tanto para conseguir essa barriga, né, Zeca?”, brinca Mônica, num vaivém constante entre o quiosque e o portão de entrega das cestas. 

O repórter é convidado a sentar e se integrar ao burburinho. “Tu não bebe, não, cara?”, provoca o anfitrião. “Estou trabalhando.” “Eu também estou, pô. Vamos resolver logo essa questão.” O repórter agradece, mas se furta da cerveja, dos pedaços de pão que Zeca come com apetite, de outros convites eventuais. Limita-se a uma água industrializada, aromatizada com limão, da mesma fábrica de bebidas de que o artista é garoto-propaganda. 

De dentro da vulnerável fortaleza, Pagodinho volta e meia troveja uma ordem, em tom algo autoritário, algo brincalhão. Bota banca sobre a população carente que protege. Criança não pode. “É cesta básica. Se você tiver dez filhos, vai mandar os dez filhos aqui?”, indaga.

O paraense Gilberto, que antes de trabalhar para Zeca foi funcionário de Gilberto Gil por 15 anos, denuncia: tem gente trocando de camisa para entrar na fila de novo. O chefe solta uma bronca de longe, para disciplinar. Mônica reaparece: “O cara saiu todo feliz, disse ‘ai, que legal, ele falou comigo’”. “Só se foi para dar um esporro”, Zeca diverte-se, entre risos gerais.

O atual ministro da Cultura é hoje um dos amigos mais próximos do sambista. “Você imagina, chega um Gil aqui, arrebenta até o portão. Mas ele veio duas ou três vezes, cantou aí até de madrugada. Chega aqui, nego entra no espírito, vai comer um angu. Não temos área vip. Aqui é a geral, sempre.” 

Política? “Não falo disso com ele.” 

Um cachorro vira-lata ronda o quiosque, e enternece o dono da casa: “Aqui é legal porque nego vem e traz cachorro. Tem sempre um bocado”. O portão de acesso ora se abre, ora se fecha, mas o ambiente nunca perde um aspecto de casa aberta, espontaneamente descontrolada. 

“Aqui come todo mundo”, discursa o artista que se diz apolítico e não é candidato a nada, mas andou acolhendo ali em Xerém, na campanha eleitoral de 2002, um certo Luiz Inácio Lula da Silva. “Aqui tem você que é jornalista, ele que é deputado, eu que sou um artista, maluco, mendigo. Todo mundo que passar por aqui entra, senta, come, conta uma história. Só o que não pode é ser abusado.”

Sim, está presente um deputado federal, Reinaldo Betão, do Partido da República, hoje secretário de Agricultura de Duque de Caxias. É amigo do sambista desde antes de entrar na política. Chega à hora do almoço, conversa, conta do bicho-preguiça que encontrou outro dia. “Pô, por que não levou para o meu sítio?”, brada Zeca. “Não pode, tem o Ibama”, reage Betão. 

Outra visita é um adolescente portador de síndrome de Down, que veio buscar sua cesta. “Tá morando onde agora, Léo?”, pergunta o músico. “Eu moro aqui, moleque”, Léo retruca, sob gargalhadas gerais. O “padrinho” serve pão com fígado, e sublinha repetidas vezes: “Não vai deixar ninguém roubar sua cesta”.

A entrevista não acontece, ao menos não como imaginada pelo repórter habituado aos ditames da indústria cultural. O entrevistado responde brevemente às questões, desvia-se dos temas, dirige o entrevistador rumo ao bate-papo errático. A certa altura, ocorre ao repórter que a saraivada de perguntas solicita muito do artista, mas nada oferece em troca. Resolve aceitar um copo de cerveja. 

Pela hora do almoço, um caminhão se insinua na rua estreita por entre a pequena multidão. É da mesma marca de cerveja que Pagodinho anuncia, e veio entregar 30 engradados. “Tenho uma cota por ano”, explica. “Mas tenho de pedir cinco dias antes, e como nada aqui é programado, às vezes vou lá e compro, fazer o quê?” 

Mônica passa perto do cozido: “Eu não gosto dessa comida aí, não, mas está cheirosa para caramba”. Explica que lá dentro, na “ala feminina” da casa, o cardápio é diferente. “Hoje vou comer maionese com hambúrguer”, ri. Bem no portão fronteiriço, um dos carregadores derruba uma caixa. Garrafas quebradas se espalham pelo chão, sob os olhos sedentos da torcida lá fora. O dono da bola manda entregar uma cesta para cada um dos trabalhadores da cervejaria. 

É deixa para entrar em assunto delicado, aquele pelo qual Zeca mais aparece na mídia. Por vezes, ele parece o homem-cerveja em pessoa, com cachês volumosos, mas também enroscado no ônus de permitir que tal imagem se cole a ele assim. 

Em que a fase de homem-sanduíche de cerveja transformou sua vida? “Ganhei uma grana, né, cara? Pude ajudar uma porrada de gente, pude me ajudar também. Foi bom para a minha carreira.” 

Em 2003, ele se transformou em pivô de guerra feroz entre duas cervejarias. Tal como num caso romântico, rompeu com uma, “experimentou” outra, voltou à primeira “por amor”, foi acusado pela “namorada” preterida de “traíra”. Tudo sob o olho público, diante das maiores vitrines publicitárias do País. Em 2006, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defendeu o veto de celebridades em propagandas de cerveja e, ao se voltar contra o teor abusivo e preconceituoso saído das mentes dos publicitários, mirou artilharia contra Zeca: “É preciso pedir que ele pare. É patético, constrangedor”. 

O artista até hoje segue em apologia na tevê, de “Zeca-feira” e criações mirabolantes afins. Talvez acuado, ele costuma exacerbar a autodefesa, mas admite que o assunto o chateia. “A gente faz tanto disco bacana, ninguém fala porra nenhuma.” 

Tal situação é fruto de uma inversão de que Zeca é vítima, mas pela qual também é co-responsável. A publicidade não inventou o Zeca “biriteiro”, ostensivo em cada um dos 18 discos que lançou desde 1986. A sombra marqueteira se apoderou dele, a ponto de falseá-lo como se só se preocupasse com isso. 

Tributário de uma linhagem que inclui o nobre Monarco como influência e Beth Carvalho como madrinha, Zeca é fértil em lançar sambas que abordam problemas sociais, menores abandonados, atitudes não-violentas, sátira comportamental, o viés democratizante da pirataria. Diluiu e desenvolveu o samba rumo ao partido-alto, ao fundo de quintal. Dá guarida a uma galeria de compositores suburbanos e desconhecidos. “Torço sempre para que o cara que está fodido traga um samba perfeito”, explica.

O excesso é característica onipresente em sua obra, mas não se refere só à bebida. Seus discos fazem pensar nos versos de Roberto e Erasmo Carlos que perguntavam será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?, por entre alusões abundantes a comida, sexo, amor e uma ou outra referência velada a drogas ilícitas. Até nisso sua obra é idêntica à sua casa e, provavelmente, à sua vida. 

“Não completei o segundo grau, não pude estudar, fui fazer escola de música aos 18 anos. Aí eu já bebia, fumava, já estava perdido”, evoca. 

Escorregadio quanto ao tema cerveja, mostra que não é acrítico em relação ao que vê na mídia: “Não sou contra nada, mas hoje em dia tudo tem de falar de sexo. Você liga a tevê, sua filha está ali, ‘ué, pai, ele não estava com não sei quem?’ Para a gente que vem da ignorância, é outro choque. Como explicar para os filhos, se a gente não sabe nem para a gente mesmo?” 

Antes de partir, o repórter almoça, na “ala feminina”, angu com miúdos, maionese e um saboroso porco curtido três dias na própria banha. Jean, o taxista da volta, mora na mesma rua que o cantor famoso e conta que nem mesmo nas fases de baixa Zeca deixou de levar ovos de chocolate para seus três filhos. O carro passa pela escolinha de futebol do Fluminense e por cartazes de “Zeca Pagodinho e Banda Calypso na vaquejada”, de “Jackson Lima, o prostituto do forró” e do político peemedebista que afirma que “Caxias nunca viu tanta obra”. 

Vários Brasis convivem ali, em contraste e harmonia simultâneos, sob a sombra e os sons do prefeito informal de Xerém.

 

Maria Rita, voz & artifício

18 março 2008

Na semana passada, Maria Rita trouxe a São Paulo o show de sambas fundados no repetório de Samba Meu (Warner, 2007). E exibiu, um pouco mais nítidos e delineados, os princípios norteadores desse curioso álbum.

Se a apresentação da noite de sábado 15 puder servir como parâmetro, é preciso logo ressaltar: há um pequeno e ainda não dimensionado fenômeno em curso. Poucas vezes vi, num palco de shows (e me lembro, como caso exemplar, de um show de Fábio Jr.), tamanha empatia, tamanha identificação direta entre artista e público.

Naquela noite, os espectadores de Maria Rita (quem são, quem serão?) cantavam em coro devotado <b>todas</b> as músicas que ela desfiava, fossem do primeiro disco, do segundo ou do terceiro, fossem sambas alegres ou baladas melancólicas, fosse para acompanhá-la ou para seguir o comando da “líder” e cantar no lugar dela. Um estado de exaltação e entusiasmo percorreu o show, de fio a pavio.

Há que pensar nas possíveis razões para tal criculação de eletricidade, em ambiente essencialmente acústico e em espaço tão árido quanto o das mesas comportadas e apertadas de uma casa fast-food de espetáculos.

Maria Rita acoplou-se a um material musical de fácil e imediata comunicação, que setores expressivos da mídia e dos estratos (supostamente) mais informados e aculturados do público não gostam de reconhecer e legitimar. Na (dita) crítica musical, não se ouve falar com freqüência das qualidades de sambas de Arlindo Cruz & cia. E a platéia da a princípio elitista Maria Rita canta em coro, bananas para os mais elitistas.

Um detalhe de bastidor, mas talvez importante: de Samba Meu para cá, Maria Rita conta com o apoio do empresário musical Rommel Marques, que até há pouco gerenciava a carreira de Zezé di Camargo & Luciano, do ápice sertanejo ao ápice do filme 2 Filhos de Francisco. Ou seja, o projeto de comunicabilidade e popularidade é programático, não tem nada de casual ou fortuito.

E Maria Rita, dentro desse contexto, como se comporta? Como moça rica, fina, elegante e sincera desejosa de cair no samba, no partido-alto, no pagode e nos braços do “povo” do Citibank Hall? Pois sim, pois não, quem sabe, talvez. Hoje é perceptível, nela, uma procura dedicada pelo prazer de cantar e de se relacionar com a música, pela comunicação real (e não só protocolar), pela sensualidade, pelo estabelecimento de contato entre realidades díspares (e às vezes reciprocamente hostis).

A atitude lhe traz conseqüências, por certo. O roteiro do show oscila e se descontinua, quando se passa, por exemplo, de um pagode de fundo de quintal para uma festa cigana de Milton Nascimento, ou de Samba Meu para o repertório mais tenso e sorumbático de anos atrás. O vaivém mostra que Maria Rita tem sido uma artista diferente a cada disco que lança (e eis aí um fato pouco notado e reconhecido, até hoje). É um risco assumido, que a leva a pisar firme e a pisar em falso, mas que a coloca na nobre categoria dos criadores que se arriscam, que não ficam à janela, carolinas, esperando a banda (que nunca passa) passar.

Aqui e agora, a quente, é possível afirmar que ao menos um dos riscos enfrentados é (ou foi, naquele sábado) prontamente vencido por Maria Rita. Ela quer sambar enquanto canta, e não se economiza um minuto sequer: samba, dança, rebola, ensaia passos de funk carioca, balança os braços em arco incitando a cumplicidade do público, desajeita-se, zanza no palco para lá e para cá. E, em geral, a voz não cede, não dá solavancos, não falha, não se desestabiliza (aqui não há muita oscilação).

Falando o mesmo de modo mais direto, Maria Rita canta muito, muito, muito bem. Mesmo em esforço ginástico, exibe raras segurança, pronúncia, nitidez e capacidade de emocionar (sobretudo em passagens musicais mais exaltadas, que, não, não é apenas o público que se exalta).

Os excessos eventuais, em dança, canto, repertório (ou, afrouxando o foco, em trejeito, figurino, cortinas do cenário), podem pesar como artifícios incômodos diante dos ouvidos e olhos (inclusive os dos fãs hipnotizados, será?). Mas, afinal, são bem eles que fazem linha auxiliar e abrem alas à constatação crucial, de que estamos, sim, diante de uma contundente e musculosa intérprete musical, na tristeza & na alegria.