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O que foi que aconteceu?… com a música popular brasileira?…, parte 2

20 novembro 2008

Vasculhando as ferramentas do WordPress, percebo que o segundo tópico mais visitado deste blog é a reprodução em pingue-pongue da entrevista feita com o pesquisador Jairo Severiano (o mais visitado de todos, até aqui, é aquele que fala sobre uma série de CDs de iê-iê-iê). Mas percebo também que nunca reproduzi aqui a reportagem de CartaCapital que resultou daquela entrevista e que tem tudo a ver com aquela discussão. Pois então, que nunca é tarde para fazê-lo:

MÚSICA POPULAR?

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Era uma vez uma sigla chamada MPB. Designava uma tal “música popular brasileira” e se tornou moeda corrente a partir dos anos 1960, quando adotada por toda uma geração universitária de compositores, cantores e admiradores. Décadas adiante, a sigla pouco a pouco se encastelou. Isolou-se de gêneros supostamente “inferiores”, blindou-se como num condomínio fechado de bairro nobre. Entrou em crise, até de identidade. Quem faria a MPB de 2008? O rococó Djavan ou a simplória Banda Calypso? O bissexto João Gilberto ou a onipresente Ivete Sangalo? O que seria MPB em 2008? O banquinho-e-violão em redutos exclusivos do eixo Rio-São Paulo ou o pop que corre por fora da indústria e lota arenas nas periferias do Brasil? 

A resposta seria tudo isso ao mesmo tempo, caso a sigla MPB tivesse resguardado o alcance do pomposo nome composto. Talvez não seja quase nada, tal é a tendência ao confinamento que passou a acompanhar os termos “música”, “popular” e “brasileira”, quando colocados lado a lado. “Criou-se esse termo MPB como se fosse um tipo de música, o que acho inadequado, apesar de estar consagrado”, afirma o historiador cearense Jairo Severiano, autor de um livro recém-lançado que, por sinal, leva no título o termo fatídico, Uma História da Música Popular Brasileira das Origens à Modernidade (Editora 34, 504 págs., R$ 64). “É uma sigla. Deveria ser usada para designar a música de qualquer gênero, moderna ou antiga, boa ou ruim. Mas passou a ser a música popular brasileira de elite.” 

Hoje automático, o uso da expressão perde de vista o fato de que a sigla é uma invenção, e que nem sempre houve sentido em usá-la, ou mesmo em discriminar a música entre “popular” e “erudita”, como se fossem pólos opostos, incompatíveis. O estudo de Severiano parte do compositor mulato Domingos Caldas Barbosa, cantor de modinhas e lundus para a aristocracia de Portugal nos anos 1700. Não era rotulado de “popular” ou “erudito”, mas, como relata Severiano, atraía manifestações iradas como a do historiador português Antônio Ribeiro dos Santos: “Eu não conheço um poeta mais prejudicial à educação (…) do que este trovador de Vênus e Cupido”. 

Segundo Severiano, a querela entre “populares” e “eruditos” já era pronunciada na década de 1930, época de avanço do cinema falado, rádio, disco e a primeira grande geração de músicos “populares” no Brasil, de Silvio Caldas e Carmen Miranda. “Fui adolescente nos anos 40, e na minha família havia um preconceito terrível contra a música popular, como havia na classe média e principalmente na alta. Só consideravam música o que era de concerto. Esse ente já nasceu com a conotação de inferioridade perante a música clássica.” 

Espezinhada pelos ditos “eruditos”, a música “popular” iniciou sua própria trajetória de elitização em 1958, com o surgimento da bossa nova. Tom Jobim incorporou Villa-Lobos, João Gilberto absorveu o jazz e os universitários dos anos 60 deram partida à sigla MPB, que mais tarde hostilizaria subliminarmente subgêneros “menores”, como samba, rock, música caipira ou romântica. A consolidação de guetos levou criadores e consumidores a fazerem vista grossa a “detalhes” fora de lugar nas gavetas classificatórias, como a sofisticação contida em gêneros “populares” como samba e choro, ou a banalidade inerente a muitas letras da bossa nova. 

De acordo com Severiano, muito da MPB operante ainda hoje tem raízes no samba-canção dos anos 50, em duas vertentes cada vez mais distanciadas uma da outra. A “moderna” nasceu da obra então acariocada do baiano Dorival Caymmi e de nomes como Lúcio Alves e Dolores Duran. Originou a bossa nova, que derivou para a canção de protesto, a tropicália e a MPB. A vertente “tradicional”, de autores como Herivelto Martins e Lupicinio Rodrigues, seguiria com os cantores Anísio Silva e Altemar Dutra e redundaria, segundo ele, na música “cafona” e “brega” das décadas seguintes. 

A distinção oculta um curioso paradoxo. Cafonas e bregas (e sertanejos, pagodeiros, axezeiros, funkeiros) formulariam a música efetivamente mais difundida do Brasil. Mas o termo “popular” seria seqüestrado por segmentos primeiro mais sofisticados, depois mais herméticos e por fim menos populares. 

Diretor da gravadora paulista Trama, João Marcello Bôscoli sai em defesa do “P” de MPB: “Entendo o termo ‘popular’ não como comercial ou de massa, mas como não erudito. É sabido que a maioria dos artistas da MPB não tem compromisso em construir hinos à multidão”. 

Ele lamenta a dissolução da sigla: “A bossa nova foi feita e depois não houve prosseguimento. O mesmo aconteceu com a tropicália. A indústria fonográfica perdeu a bossa e a tropicália, e também a MPB. Mas a indústria não é diferente do resto do País. Somos um país que não consegue construir”. E defende a permanência do termo: “MPB é um nome legal, embora hoje lembre música de festival, ou sofisticada, feita pela elite daqueles artistas que a gente sabe quais são. Mas vale a pena pegar a sigla e jogar fora? Só se vai gastar dinheiro para criar outro nome”. 

O jornalista e escritor paulista Zuza Homem de Mello sustenta que são menos distintos atualmente os limites entre MPB e música clássica: “A barreira é muito menor. A música de Luiz Tatit ou Guinga aproxima-se muito mais da de Villa-Lobos ou Radamés Gnattali que daquilo que hoje tem apelo pop, que é Ivete Sangalo, Ana Carolina. A atração delas é numa outra região, às vezes você nem sabe o que as letras querem dizer”. 

Ele situa a MPB perto do jazz, como música para ser ouvida, e não dançada. E mais ligada, talvez, dos gabinetes que das multidões. Outro paradoxo, pois o jazz nasceu dançante, “popular”, como o próprio Zuza esmiúça em Música nas Veias (Editora 34, 360 págs., R$ 46). A MPB talvez repetisse esse destino, de lenta viagem da explosão comercial à conversão em peça de museu. E os salões que já tocaram jazz, gafieira e rock hoje tocam funk e tecno. “A música dançante sempre foi mutante. O que é hoje não será amanhã”, avalia. 

O antropólogo Hermano Vianna reflete sobre a elitização da música “popular” com indagações: “Será que a MPB não faz mais canções populares? Mas, se o CD da Vanessa da Mata é MPB, aquela canção com Ben Harper (um pop de alta rotação no rádio) não é popular? E será que MPB significa alguma coisa ainda? Significa o quê?” E arremata: “A quem interessaria uma definição clara de MPB? Às lojas de discos que não mais existem?” 

A cantora Olivia Hime, diretora da gravadora carioca Biscoito Fino, diz receber diariamente cinco discos de jovens que afirmam fazer MPB. “Querem dizer que fazem música nos moldes de Chico Buarque e Edu Lobo, e não axé, rock ou hip-hop.” Ela reconhece os paradoxos da sigla: “É contraditório. Essa música passa a não ser popular, pois não é mais cantarolada”. 

Para quem não se ajusta bem aos cânones da MPB, o sentimento parece ser de inadaptação. “Existe uma separação, né?”, pergunta a compositora e cantora carioca Teresa Cristina, próxima ao samba. “Leio em notinhas e pesquisas por aí, ‘Chico Buarque, compositor’, ‘João Nogueira, sambista’. ‘João Bosco, compositor’, ‘Nei Lopes, sambista’. Quem escreve nem se dá conta da separação.” Preocupada com a música feita mais “para separar” que “para unir”, acrescenta: “Sinto que há uma resistência de assumir o samba como MPB, que as pessoas gostam dessa divisão como idéia de sofisticação. ‘Tal coisa não é mais samba, virou MPB porque se sofisticou’”. 

“Essa sigla me incomoda muito, porque o Brasil que vejo é muito diferente. A MPB vende um Brasil que não é o Brasil, com papel celofane, sofisticado”, reivindica o paulista Leandro Lehart, ex-integrante do grupo de pagode Art Popular e entusiasta da mistura de samba com outros gêneros. “MPB é como se fosse um clube, a que algumas pessoas têm acesso e outras, não. Ouvi de radialista que minha música não toca em rádio de MPB porque sou pagodeiro, ‘as pessoas vão se incomodar de ouvir aqui’. Não faço questão de fazer parte dessa sigla, ela não acrescenta nada. Meu trabalho é popular, de massa”, afirma, do alto de agenda de shows lotados Brasil afora, nos quais vende o CD Mestiço, lançado artesanalmente, sem gravadora. 

“Minha geração usou o samba porque pandeiro é mais barato que bateria, um cavaquinho custa menos que um contrabaixo. Sou fã de Raul Seixas, James Brown, Djavan, e economizava para comprar os tamborins de plástico que o Mappin anunciava na tevê”, completa, remetendo à cisão social por trás das músicas. 

“Nunca na minha vida usei esse termo. Podem me colocar em qualquer outro lugar, só não quero me localizar na MPB”, afirma o paulista Luiz Tatit, cantor, compositor, acadêmico e escritor. Autor de música elaborada na tradição de Noel Rosa e Lamartine Babo, ele explica a aversão ao termo: “Para mim, MPB tem uma conotação muito conservadora. Denota algo que parece de qualidade, mas é estéril, porque não pode se misturar, não pode ser rap, nem reggae, nem rock”. 

Refere-se a uma “atitude erudita” no topo da MPB e faz ressalvas ao modo como se costuma discriminar canção “sofisticada” de “comercial”. “A música brega é muito mais acessível e tem sempre um grande público, uma perenidade absoluta. A MPB se encaixa num segmento de elite, como se fosse mais elaborada. E não é, porque, quanto à melodia, é tudo mais ou menos a mesma coisa. A avaliação da qualidade muitas vezes está fora da música, é ideológica.”

Zuza Homem de Mello faz avaliação de ouvidos abertos ao futuro: “Tenho notado que, no interior do Brasil, há manifestações de jovens voltados à música local, ao folclore, de uma seriedade incrível. São violeiros de um preparo técnico como nunca vi antes. No Rio e em São Paulo, vivemos cercados, numa redoma, e não vemos nada disso”. 

O campo de força da chamada “qualidade” musical foi tensionado de modo dramático pelos tropicalistas de 1968. “Minhas tias diziam: ‘Esse negócio de vocês não é música, é ritmo’. Para elas, éramos a barbárie”, diz o baiano Tom Zé. E lembra um episódio do festival de 1969: “Tínhamos o gosto pela música caipira, que não se podia contar a ninguém. Quando eu e os Mutantes fizemos 2001, uma música caipira moderna, ela foi apaixonadamente odiada por Hebe Camargo. Ela não podia nem ouvir, porque era o passado que não queria lembrar. A platéia reagiu como Hebe, e 2001 teve primeiro lugar no júri e último no júri popular”. A dissociação acontecia também na cabeça do público, que afinal podia rejeitar 2001 porque era “caipira”, ou porque era “moderna”, ou por ambos os motivos, espalhados por um salão onde a música tentava simular uma democracia, em plena ditadura. 

Dois anos antes, em 1967, o bossa-novista Sérgio Ricardo quebrara o próprio violão durante a apresentação do samba Beto Bom de Bola, vaiado por uma platéia participativa e radical. Era tempo de guerra e, como assinala Tom Zé, “pela teoria da guerra, países vizinhos sempre brigarão”. A MPB iniciava a viagem da glória ao gueto e os estilhaços das batalhas de então se fazem sentir no território de facções beligerantes que em 2008 a música brasileira ainda não consegue deixar de ser.

Cara valente

19 junho 2008

Puxa, terceira entrevista consecutiva em formato “pingue-pongue”, mas vamos lá. Da bossa ao “easy listening” à soul music ao pop à eletrônica suave, Marcos Valle tem sido sempre, desde 1963, um compositor de garra (para parafrasear o título daquele que, em minha opinião, é o mais sensacional trabalho dele, o álbum Garra, de 1971).

Agora, lança o CD/DVD Conecta – Ao Vivo no Cinemathèque (EMI), em que não só revisa a própria história como deixa de banda as distâncias e não-me-toques entre gerações musicais, e chama para cantar e tocar com ele uma molecada que inclui Fino Coletivo, Marcelo Camelo, +2 (Domenico Lancellotti, Kassin e Moreno Veloso) e os DJs Plínio Profeta e Nado Leal.

E, como mais uma vez me comprovou entrevista feita por telefone, Marcos Valle tem coisas para lá de bacanas a dizer, sobre passado, presente e futuro. A elas:

Pedro Alexandre Sanches: Gostaria que você começasse falando livremente sobre este novo projeto, Conecta.

Marcos Valle: Em junho de 2007, eu tinha vindo de uma dessas turnês que faço na Europa. Foi muito boa, com festivais, a gente gostou demais. Minha banda acabou me animando, a gente veio na viagem comentando que tinha que fazer algo parecido com aquele show no Brasil, procurando buscar um tipo de público similar. A gente estava falando em fazer um show mais para o lado das músicas que não são Viola Enluarada (1967) ou Preciso Aprender a Ser Só (1965), um negócio com mais energia, que é como a gente faz lá.

Logo que cheguei aqui, encontrei o (jornalista de O Globo) Antonio Carlos Miguel e comentei isso com ele. Falou que era uma grande coincidência eu dizer isso, porque há uma casa aqui no Rio, em Botafogo, chamada Cinematèque, relativamente nova, que está atraindo exatamente um tipo de público como o que quero me relacionar aqui. Por uma incrível coincidência, um dos caras que tomam conta da casa, Rodrigo, tinha falado comigo e disse que estava com a idéia de me chamar para fazer alguns shows lá. Tudo estava batendo muito bem, ótimo, marcamos um encontro, conheci a casa, achei muito interessante, com personalidade, uma coisa meio underground. Ele disse que a idéia era eu fazer quatro fins-de-semana com minha banda, e poderia receber um convidado em cada sábado. E que, como tenho essa ligação com a geração nova lá fora, aqui a gente pegaria isso também, mas com convidados com quem eu tivesse a ver, logicamente.

Começamos a pensar quem poderia ser, não poderiam ser muitos convidados fora do Rio, porque isso não ia envolver muito dinheiro, seria mais na base da canja. Até pensei na Céu para ser convidada, já tinha feito algumas coisas com ela e gostei, mas ela não podia.

PAS: Ela mora no Rio?

MV: Não, mora em São Paulo. Minha tentativa era ver se por acaso a Céu estava vindo para o Rio em algum momento que coincidisse. Como ela não pôde, começamos a pensar mais em termos de Rio. Surgiu de cara o nome do Marcelo Camelo, eles sugeriram e eu peguei o lance. Eu tinha ouvido coisas do Marcelo gravado por outras pessoas e lido reportagens com ele, e é sobrinho do Bebeto (do Tamba Trio). Tive muita curiosidade de um dia conhecê-lo. Me disseram que ele estava saindo dos Los Hermanos, que o grupo estava se desfazendo, sugeriram que eu mesmo entrasse em contato com ele. Antes de pensar nos outros nomes, já mandei um e-mail para o Marcelo. Ele respondeu de uma maneira muito entusiasmada, “Marcos, eu sou seu fã”, “você me influenciou na minha música”, “eu realmente não estou saindo de casa, mas para fazer isso com você saio a qualquer hora, vambora”. Enfim, ele me empolgou mesmo.

Fomos pensar nos outros convidados. Surgiu o nome do Fino Coletivo, de que eu já tinha conhecimento, porque eles tinham gravado na Dubas, a mesma gravadora onde fiz o Jet Samba (2005). Já tinha ouvido alguma coisa que Ronaldo Bastos (dono da Dubas) tinha me mandado, e gostei muito. Fui ouvir outra vez, gostei muito. Entrei em contato, a reação foi a mesma do Marcelo. Só faltavam mais dois, aí fomos para o +2 – faltavam mais dois convidados, né? (risos) -, eu ouvi o disco de Kassin, Domenico (Lancellotti) e Moreno (Veloso), gostei muito do trabalho deles. Disso tudo não só eu gostava, mas achava que teria a ver comigo.

PAS: Domenico, especificamente, parece muito influenciado por você. Sempre que ouvi o disco de Domenico + 2 (Sincerely Hot, de 2002), me lembrei de você.

MV: Ah, é? É, ele me falou exatamente isso, viu, Pedro? Moreno também ficou muito feliz. Resultado: fechamos mais um grupo. E, para a última noite, o que fazemos? Minha produtora, Patrícia Alvi, sugeriu que podíamos terminar com dois convidados DJs, já que existe essa ligação lá fora. Seria uma noite para fechar a tampa. Partimos para dois DJs, Nado Leal, que eu já conhecia através do pessoal do Bossa Cuca Nova, e o Plínio Profeta, que eu não conhecia. Patrícia pesquisou, comecei a ver os trabalhos dele e gostei muito. Eles também gostaram da idéia, fechamos a tampa. Estava armada a temporada.

Mas não era para ser um DVD. Estou fazendo uma caixa de DVDs com Roberto de Oliveira, que fez as caixas de Chico Buarque e Tom Jobim. Ele vai pegando vários aspectos da carreira, lá fora, quando começou, festival, entrevistas comigo. Mas, quando fui fazer esses shows, avisei ao Roberto que, se ele quisesse filmar como documento, de repente poderia incluir nos DVDs futuros. Ele topou, fomos para lá. O primeiro convidado era o Fino Coletivo, ele botou lá uma gravação que não era de mesa, era com canal direito e esquerdo, só mesmo para ter como documento. Só que, quando fizemos o primeiro show com o Fino Coletivo, o resultado foi tão bom, mas tão bom, para a gente e para o público, que eu, o próprio Roberto e a equipe dele concordamos que o segundo show devia ser gravado com mesa. Mudamos tudo, fizemos direito, com várias câmeras, mesa e tal, mas ainda não pensando em ser um DVD solto dos outros. Roberto trouxe a equipe de filmagem, contratamos técnico de som e tudo, para buscar já uma qualidade legal. Como eu disse, ainda sem nenhuma intenção de soltar como DVD.

Mas aí o segundo foi ótimo, o terceiro foi ótimo, o quarto foi ótimo. Começamos a perceber a força da coisa, achamos que poderia virar um DVD. Antonio Carlos Miguel falou que tinha vida própria (o telefone toca, é o filho dele, ele conversa com o “filhão”). Aí tinha que fazer de novo o Fino Coletivo, porque a qualidade de som não era a mesma. Refizemos, e decidimos lançar em DVD, porque era uma coisa atual, não precisava ser por causa do ano da bossa nova. É uma bossa nova, mas com gente nova, olhando para a frente. Lançamos rapidinho, porque Roberto fez contato com a EMI, mostrou para eles, (o presidente da gravadora) Marcelo Castello Branco e (o diretor artístico) Paulo Junqueiro adoraram a idéia. Lançamos agora, o mais rápido possível, meio a toque de caixa mesmo.

PAS: E aí temos, na verdade, o primeiro CD ao vivo e o primeiro DVD de Marcos Valle, não?

MV: É, eu tinha um CD que era com Victor Biglione.

PAS: Há um com Wanda Sá e Roberto Menescal também, mas não é você sozinho.

MV: É, exatamente, o Bossa Entre Amigos (de 2001). Mas sozinho eu não tinha. Foi realmente meu primeiro DVD e CD ao vivo mesmo.

PAS: Estou mencionando isso porque há uma história pouco conhecida, sobre você ter andado meio brigado com os palcos, digamos assim.

MV: Sim.

PAS: Mas também não é de hoje que superou isso.

MV: Não, já tem tempo. Me reconciliei a partir do começo dos anos 90, quando aconteceu aquela coisa de a minha música entrar na Europa. Quando comecei a fazer shows para lá, aquilo começou a me estimular muito, e de lá para cá cada vez gostei mais. Hoje eu quase que preciso, não é nem gostar. Tenho um prazer muito grande de me arriscar, de fazer coisa nova, mesmo que eu fique nervoso – e às vezes fico. Mas, depois que fiz, tenho um prazer muito grande.

PAS: Já conversamos sobre isso numa entrevista anterior, mas queria recapitular. O que aconteceu exatamente para distanciá-lo do palco?

MV: Eu sempre tive uma certa timidez, que de vez em quando me vencia. Tanto que, para começar a ser artista e a cantar nas primeiras vezes em público, foi muito difícil, porque eu era um cara muito tímido. Mas eu conseguia vencer isso, tanto é que prossegui com minha carreira. Quando chegou na década de 70, houve uma soma de coisas. Não sei se era também a Censura, comecei a ter aquele negócio de músicas serem censuradas e cortadas, aquilo começou a me dar um certo desânimo. Ao mesmo tempo, comecei a ter novamente uma dificuldade nos palcos, não sei se por isso ou somada a isso. A timidez começou a tomar conta no ponto de eu não conseguir projetar a minha voz. Não era nem minha voz cantada, mas a falada. Eu não conseguia, não lançava a voz. Comecei a guardar minha voz falada, e na voz cantada aquilo começou também a aparecer cada vez mais. Havia certos momentos no palco em que eu me sentia muito mal, porque sou muito crítico. Dizia “porra, não fui bem”, “não gostei”, e aquilo me abalava. Quando me abalava, eu já ficava apreensivo com o próximo show. Dizia “ah, meu Deus do céu, será que no próximo?…”.

As coisas foram se somando, e quando chegou em 1975 eu resolvi sair do Brasil. Fui para fora sem pensar quanto tempo ia passar. Chegando lá, começaram a surgir gravações com Sarah Vaughan. Cantava com ela, uma coisa engraçada, mas o meu medo era do palco. No estúdio eu já me achava, ficava mais confortável.

PAS: A questão era no contato direto com o público.

MV: Exatamente, isso é que estava me intimidando. Com Sarah, não. Gravei com ela, daqui a pouco veio o grupo Chicago gravando músicas minhas, veio Leon Ware, que era parceiro do Marvin Gaye, vieram Flora Purim e Airto Moreira, Eumir Deodato. Isso fez com que eu ficasse seis anos ali fora praticamente trabalhando como compositor, embora tivesse tido esse primeiro contato com a Sarah. Eu então não tive que enfrentar a platéia durante aqueles anos. Aquilo me caiu bem naquele momento, era o que eu estava precisando. Caiu bem, mas acho que também caiu mal, porque quando você está com um problema desses é melhor enfrentar. Quanto mais tempo ficar longe, aquilo cresce. Foi o que aconteceu. Quando voltei para o Brasil, em 1981, e fui gravar meu primeiro disco pela Som Livre, gravei, mas não ia para os palcos. Ficava com receio, continuava com a dificuldade.

O que me ajudou – não sei se da outra vez eu lhe falei isso, Pedro – foi que, quando gravei o segundo disco, em 1983, o Max Pierre, que era o diretor artístico da Som Livre, falou: “Marcos, você tem que começar a fazer umas coisas de…”, como é que chama isso?, dublagem?

PAS: Playback?

MV: Playback. Ele disse: “Atualmente está todo mundo fazendo isso, todos os grupos, seja de rock ou de MPB. O seu disco tem possibilidade de tocar muito, de ser sucesso, e você tem que fazer”. Inicialmente eu disse: “Pô, Max, fazendo playback, cara? Isso não dá certo”. Ele: “Como é que não dá certo? Já está dando certo, está todo mundo fazendo, você tem que experimentar”. Pensei, me lembrei de um programa dos Estados Unidos chamado Soul Train, que eu via de vez em quando, que era só com os negros cantando, eu adorava, e era playback. Usei isso um pouco como gancho e fui experimentar. Na primeira vez achei absurdo, fiquei totalmente envergonhado, “isto aqui é uma mentira”.

Depois da segunda vez, da terceira, comecei a me acostumar, e comecei a usar não só como uma maneira financeira, já que não estava fazendo shows, mas também como uma possível volta ao público. Eu estava em frente ao público, mas não tinha a responsabilidade total de cantar, porque havia minha voz gravada. No começo eu não cantava, depois comecei a cantar junto com o playback. E com isso fui voltando, voltando a me acostumar com o público cada vez mais. Quando chegou no final dos anos 80, já fiz uns shows cantando, no Rio. Foi quando lancei um outro disco, Tempo da Gente (1986), pela gravadora do dono do jornal O Dia, esqueço o nome dele. Aí comecei a fazer uns shows, pequenos ainda. Depois veio um show que fiz com Ithamara Koorax, um show maior, e comecei a me acostumar novamente. Quando chegou o lance de 1994, eu estava já preparado para voltar para os palcos, e a coisa foi cada vez melhorando mais para o meu lado.

PAS: Quer dizer, para você o playback foi um modo de superar aquele medo, aquele bloqueio.

MV: Exatamente, me ajudou a superar o bloqueio, totalmente.

PAS: Tenho uma curiosidade. Naquela primeira fase das dificuldades, o público percebia? Ou só você sabia?

MV: Era uma coisa mais pessoal, acho que foi pessoal. Mas lembro que teve um festival em São Paulo, o Abertura, foi a última vez que me apresentei. Eu estava no júri, e também fiz o show, acho que com Erasmo Carlos e Chico Buarque. Nesse dia, quando fui cantar, tive a impressão de que o público percebeu. Eu fui muito mal, fiquei tão tímido naquele momento, o bloqueio estava tão grande que teve momentos em que parei de cantar. Eu me afastava do microfone. Sinceramente, não fui vaiado, mas acho que os aplausos poderiam ter sido bem maiores do que foram. Então, somando isso ao meu lado crítico, acho que o público ali, a meu ver, percebeu. E aquele foi exatamente o marco definitivo para eu dar aquela pausa e resolver ir para os Estados Unidos.

 PAS: Não sei se saiu algo na imprensa, mas não chegou a ser algo conhecida na época. Você conseguiu proteger seu “segredo”, digamos assim?

MV: É, não foi como quando Marina Lima teve problemas na voz, que foi uma coisa bem clara, bem revelada, ou como Gilberto Gil, que numa época teve um problema na garganta. O meu, não, foi uma coisa mais minha. Como você disse, eu soube proteger, e talvez não me expus tanto, nem no palco nem na imprensa. Foi uma coisa que guardei e não falei na época. Deixei passar o tempo e só fui comentar isso depois, até com você, acho que foi a primeira vez.

PAS: E hoje, como é contracenar com todos esses rapazes novos? Eles têm uma discrição um pouco parecida com a sua, não são exatamente músicos de palco em primeiro lugar. Marcelo Camelo até parece um cara retraído, de algum modo.

MV: É verdade. Acho que a personalidade deles se aproxima da minha, realmente. Marcelo é um cara retraído, embora no palco ele ponha para fora um lance que pessoalmente às vezes parece não ter. Eu nem sei se é bem o meu caso, hoje eu sou solto no palco, mas pessoalmente, dependendo da situação, eu também sou muito para cima, alegre, e em outros momentos tenho meu lado privativo. Mas acho que tem a ver o que você falou, nós não somos assim artistas de gestos…

PAS: Nada a ver com Ivete Sangalo…

MV: Não, não é isso. Somos músicos tocando. Eu preciso ali do meu piano, do meu violão, Marcelo precisa da guitarra dele, a gente precisa sempre estar acompanhado do seu instrumento de trabalho. Assim também são o Fino Coletivo e os +2. Pensando por esse lado, acho que existe uma identificação entre nós, embora – e isso que acho legal, vendo o DVD depois – eu mesmo enxergue uma energia grande, interessante, por causa disso talvez. É um grupo pequeno, mas que traz uma energia de pessoas que não são Ivete Sangalo, não é isso, são mais retraídas, e, apesar disso, naquela junção de solos e de instrumentação e de músicas, acaba trazendo uma energia que me agrada muito. Acho muito sincero, talvez por isso tenha funcionado tanto. Seria diferente me juntar com caras com quem não tenho nada a ver, podia até sair alguma coisa musicalmente, mas ali as coisas saíram realmente com sinceridade. Tive até o cuidado de, antes de lançar, lógico, falar com todos eles, dizer que a idéia era essa. Todos disseram “vambora, põe na rua”. Houve essa alegria geral, essa sinceridade.

PAS: Falando agora um pouco sobre repertório, como foi decidido o que ia ser cantado com eles?

MV: Fiz o seguinte. No caso do Marcelo, ele deu algumas sugestões, e disse que tinha uma música minha que gravei nos anos 70, Nem Paletó Nem Gravata (1973), que ele adorava. Ele disse que tinha uma música, O Vencedor (2003), que sinceramente eu não conhecia, que tinha muito a ver, uma influência grande com a outra. Sugeriu que bolássemos um arranjo das duas. Ouvi e achei que tinha tudo a ver, aí fiz o arranjo misturando a levada do Nem Paletó Nem Gravada com a d’O Vencedor. O tom era o mesmo, por uma incrível coincidência. A gente parte do Nem Paletó, entra no Vencedor e depois volta, e elas se encaixam perfeitamente. Os arranjos de metais permanecem os mesmos numa e na outra. Depois muda um pouco, mas são bem parecidas. Ficou bem encaixado, parece que é uma música só. A outra que ele tinha sugerido, que Maria Rita gravou e gosto muito (Cara Valente, lançada pela cantora em 2003), essa eu achei ideal. E falou: “Poxa, me dá o prazer de cantar o Samba de Verão (1964) com você”. Falei: “Já está”.

No caso do Fino e do +2, fiquei ouvindo bem os CDs em casa. A idéia era pegar duas músicas deles e duas minhas. Cheguei à conclusão daquelas, fui eu que escolhi. Quer dizer, no caso do +2, o Não Tem Nada, Não (1973) foi um pouco pedido deles também, porque é uma música minha que eles tocam, às vezes até na Europa (toca o telefone, fala com de novo com o “filhão”). Era meu outro filho, agora acabaram os filhos (ri). Pensando melhor, acho que na escolha das músicas deles pesou mais a minha opinião. Mas no caso das minhas, pesou bastante a opinião deles.

PAS: Com o +2, vocês usam o mesmo método, misturam a música deles (Sincerely Hot) com a sua (O Cafona, de 1971).

MV: É, coloquei O Cafona ali no meio e eles adoraram a idéia. Ouvindo, me vinham idéias na cabeça, eu ligava para eles e sugeria.

PAS: É curioso que, em geral, eles escolheram quase sempre músicas suas dos anos 70, da fase soul, que parece mesmo ser meio a predileta dos fãs mais jovens. É perceptível isso, não?

MV: É, as influências deles sempre caem nessas, embora eles ouçam os discos novos, tenham tudo. Mas você tem razão, as grandes influências vêm ali dos anos 70, e dos 80 também.

PAS: Nesse disco mesmo eles cantam com você Samba de Verão e Batucada Surgiu (1965), da fase anos 60, mas em geral é menos a bossa nova que o Marcos Valle mais pop, mais soul, que rolou nos 70.

MV: É.

PAS: Por sinal, sempre acho o som deles parecido com o seu nos anos 70. São meio filhotes do Marcos Valle mesmo, não?

MV: (Ri.)

PAS: Como você encara o fato de eles preferirem Nem Paletó Nem Gravata, Mentira (1973), essas músicas?

MV: Olha, eu acho legal. Sabe o que acho que também tem muito a ver, Pedro? Existe uma sonoridade daqueles discos… Fora as músicas que a gente fazia, existe uma sonoridade de estúdio daquele tempo ali que é muito atraente para os mais novos. Isso também se aplica ao pessoal lá de fora, da Europa. Por quê? Porque a gente não tinha essa coisa de tantos canais, às vezes tinha que gravar em quatro canais, e com orquestra ao vivo. Aquilo dava um cunho muito interessante, era um pop, mas um pop orquestral, e muito autêntico, porque, como você não podia repetir – não tinha tanto tempo para ficar repetindo, nem tantos canais -, existia ali uma sonoridade de todo mundo tocando junto, que eu acho que também atrai. Não são só as músicas, é a sonoridade dos discos, até mesmo o som de bateria e piano que se conseguia. Acho que isso é muito atraente para essa garotada.

 PAS: Legal essa explicação. Seria uma espontaneidade, um despojamento que talvez os mais jovens pesquem no ar e se sintam atraídos?

MV: Isso, isso, exatamente.

PAS: Ao mesmo tempo, essa fase é pouquíssimo conhecida aqui no Brasil. Aqueles discos nem foram reeditados aqui.

MV: Na verdade foram, Pedro, a EMI lançou três juntos numa caixinha, Mustang Cor de Sangue (1969), Garra e Previsão do Tempo (1973).

PAS: Ah, é verdade, estou falando bobagem.

MV: O único que não foi lançado ainda, que eu me lembre, é um que tem na capa um piano que vai entrando por mar adentro, e tem um olho meu no meio (Marcos Valle, de 1974)…

PAS: Que é o último que você fez antes de viajar.

MV: É. Esse eu acho que ainda não foi lançado no Brasil, mas os outros todos a EMI lançou.

PAS: Ainda assim, você não sente que é uma fase meio desconhecida, fora desse circuito de fãs?

MV: É, acho… A não ser uma música aqui e outra lá, que tocaram no rádio, mas como disco inteiro realmente não é tão conhecida como a dos anos 60, de Viola Enluarada, Samba de Verão

PAS: Nesse sentido, Conecta seria meio reapresentar um pouco esse material, junto com coisas mais novas?

MV: É, porque não coloquei músicas como Mustang Cor de Sangue – que não é dos 70, é de 1969 -, uma música pop que até poderia se enquadrar nesse projeto.  Mas músicas como Garra, Nem Paletó Nem Gravata ou Wanda Vidal (1971), que estão no disco, são músicas de que o público europeu gosta muito. A partir da penúltima turnê incluí essas três, porque sabia que queriam muito. E também aqui, engraçado, Camelo, o Fino, +2, Toni Garrido, Ed Motta, todo mundo me fala muito dessas músicas, que realmente não foram as músicas mais conhecidas – nesses discos mesmo tinha músicas como Que Bandeira (1971), que eram mais conhecidas. Mas o pessoal é mais atraído, tanto lá fora quanto aqui, por essas músicas. Há uma ligação de gosto entre a garotada daqui e de lá por esse tipo de música.

PAS: E você acha que a explicação é a mesma, essa da espontaneidade e da sonoridade?

MV: Acho que é. E mais, fora isso, acho que é a mistura, do que é samba, mas é baião, mas é pop. É uma coisa que não tem preconceito contra um gênero ou outro. Se tiver que entrar guitarra vai entrar, se tiver que entrar cavaquinho vai entrar. Essa abertura também atrai a garotada, acho.

PAS: Estamos nos famosos 50 anos da bossa nova, e você está lançando um disco que meio passa ao largo disso, não é uma comemoração de bossa nova. Não sei se você está preparando algo nesse sentido, mas…

MV: Não estou, não. A gente não tem idéia, pode até estarem começando a querer falar nisso, de eu fazer um disco com Carlos Lyra, Roberto Menescal e João Donato. Mas não estou pensando. É bom que este disco Conecta seja nos 50 anos da bossa nova, porque, queira ou não queira, eu sou da segunda geração da bossa, e Samba de Verão é uma música marcante da bossa, internacionalmente. Fui fazer uma coisa como sou, minha mistura, mas acho que no fundo algum ambiente de bossa nova, algum sopro de bossa nova está ali. Mas não é uma coisa saudosista da bossa, ao contrário, se tiver algo é mostrando que tem esse pessoal continuando, com influências da bossa nova, da MPB, que vai seguir. Eu estou mais querendo ajudá-los, numa boa, participar junto. Fico feliz que esteja saindo neste ano, acho que pode aproveitar um pouco o gancho.

O que tenho lá para a frente é um disco com Celso Fonseca, que a gente fez, mas também é outra coisa, não estamos pensando em bossa nova. Mas esse vou deixar muito mais para a frente, quero ver se aproveito o máximo possível do DVD com shows ao vivo, com convidados. E depois quero lançar na Europa, tenho turnê lá em outubro, a EMI deve dançar lá enquanto isso.