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A gandaia sem fronteiras do Turbo Trio

25 março 2008

Cisões e polarizações são constantes na história da música do Brasil (por vezes são até seus  motores de propulsão). Reproduzem-se até mesmo nas vertentes mais inquietas e arejadas da música nacional.

Pense-se, por exemplo, no combalido bairrismo Rio-São Paulo, quase mais antigo do que andar para a frente.

Em São Paulo, a periferia viceja e não pára de inventar misturas e produzir renovação, sob a matriz enfezada e compenetrada do rap, do hip-hop.

No Rio, a inovação trilha caminho quase oposto, na vitalidade festiva, e continumente renovada e atualizada, do funk carioca.

Ambos os “bairros” se servem, sob estratégias bastante distintas, dos recursos e modismos da (já fatigada e resfolegante) “música eletrônica”. Drum’n’bass em São Paulo, Miami bass no Rio, as periferias dos dois lados se conecta(ra)m com o mundo muito antes de se conectar com a mídia.

Uma rivalidade compacta, mas retumbante, ecoa de lá e de cá. Quando o Rio produz hip-hop, distancia-se dos modelos sisudos do rap paulista. Engendra Planet Hemp, Quinto Andar, pândegos e pícaros afins. No pólo contrário, São Paulo pulsa em surdina nos bailes de samba-rock, gafieira, soul e funk, mas parece não saber, nem querer, fazer funkcarioca.

Mas eis que de repente todas as setas se invertem. Os muros desmoronam. O senso comum entra em parafuso.

Então surge, como aconteceu há já algum tempo, um trem como este chamado Turbo Trio.

Turbo Trio é, desde início, uma fusão Rio-São Paulo.

Do Rio, parte o sempre rebelde BNegão, egresso do comboio Planet Hemp, (muito) rock, (pouco) samba e rap na veia.

De São Paulo, vêm Alexandre Basa e Tejo Damasceno, do núcleo experimental Instituto, do núcleo rapper Mamelo Sound System, de experiências várias de troca entre hip-hop, eletrônica, nova música brasileira etc.

Baile Bass (YB Music/Música do Brasil/Brazilmúsica!, 2007), o econômico e sedutor álbum de estréia do trio, parte dessa origem em trânsito para demolir fronteiras e bairrismos a granel. É um disco de hip-hop paulista funk carioca, ou de hip-hop carioca e funk paulista, ou quais mais recombinações se possam formular a partir daí.

As recombinações, por sinal, não param na página 3. Podem eventualmente ser de butique, mas não são de fachada. A prova é a vulgar-e-chique-ao-mesmo-tempo Ela Tá na Festa, que promove verdadeiro remoinho em termos de demolição de divisórias mequetrefes de repartição sociomusical. Politizado pela própria natureza, o carnaval mestiço desse funk-rap-dance-samba-canção é forjado na solda entre o funk mui carioca de Deize Tigrona, o funk paranaense (?!) do anárquico (e já semi-auto-demolido) Bonde do Tigrão e o funk gaúcho (?!?) do DJ Tchernobyl.

É música nova criada no cotovelo nervoso entre centros e periferias de, no mínimo, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, percebe? (E isso, diga-se, sem mencionar a sucursal européia, mundana, que o Bonde do Rolê trilhou na cola do duo mineiro-paulista-londrino Tetine e da turba paulistano-planetária Cansei de Ser Sexy, entre outros desbravadores.)

Melhor: o Turbo Trio e seu Baile Bass não parecem pretender mais do que a mera diversão, a gandaia descomplicada e descompromissada – do ouvinte, mas antes ainda dos criadores. Se no caminho conseguem demolir mais alguns lugares-comuns, barreiras e preconceitos, ulalá, que façanha.

Pororocas

12 março 2008

Na faixa 3 do disco Civilização & Barbarye (Páginas do Mar/ Tratore), Ramiro Musotto se faz ancorar por ilustres companhias. Gwyra Mi é cantada, em língua autóctone, pelos Meninos Guaranis da Associação Indígena da Aldeia Morro da Saudade. Misturada a eles, aparece gravação sampleada de um discurso do Subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, em Chiapas, México.

Percussionista apaixonado pelo berimbau, produtor pop e manipulador habilidoso de computadores, Musotto é argentino radicado no Brasil, e desenvolveu afinidades eletivas especiais com a Bahia, onde aportou pela primeira vez em 1984. O caldeirão étnico e ideológico de que se constituíram o centro e o sul do continente americano é a matéria-prima do artista. Do ponto de vista dos marginalizados de todo canto, e sem recortes hierárquicos entre eles.

A visão múltipla se espalha por Civilização e Barbarye, que faz conviverem e se acasalarem o Assanhado carioquíssima de Jacob do Bandolim e o Beradero paraibano-paulista de Chico César. Os ritos indígenas, a música africana, os orixás afrocubanobrasileiros, os ancestrais argentinos. E uma profusão de teclados, samplers, theremins e toda a parafernália eletrônica da esquina entre os séculos XX e XXI.

É mais ou menos o que faz também, em foco mais fechado e experimentalista, o disco Farinha Digital (Cooperativa de Música/ Tratore), que testa a confluência entre a viola de dez cordas do paraibano Pedro Osmar e os efeitos eletrônicos e a percussão em sucata do paulista Loop B.

O primeiro vive em intimidade com as tradições nortestinas, mas também com a vanguarda multidisciplinar concentrada no coletivo paraibano Jaguaribe Carne. O segundo segue desde os anos 70 trilha subterrânea calcada no rock industrial, na vanguarda paulista, na negação do pop pasteurizado. A resultante está estipulada pelos próprios criadores: farinha, farinha digital, nutriente, que pode descer engasgada na garganta ou fluir livremente na imaterialidade dos MP3.

O tempo, a considerar pela música atual dos errantes Ramiro Musotto, Pedro Osmar, Loop B, é de compactação, mestiçagem e pororoca, abaixo, nas cercanias e (por que não?) acima da linha tropical do Equador.