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Bicho de sete cabeças

18 março 2008

Texto originalmente publicado à CartaCapital 487, de 19 de março de 2008.

Bicho de sete cabeças (*)

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

O território é o da imaginação, sem receios de deixá-la descambar para a piração. O cineasta californiano Todd Haynes (de Longe do Paraíso, Velvet Goldmine e Veneno) queria falar sobre Bob Dylan, herói pop norte-americano, de impacto fincado nos primeiros anos 1960, mas que reverbera e ecoa até os dias atuais (tome-se por exemplo a passagem monossilábica, hipnótica, às vezes soporífera de mr. Dylan pelo Brasil, neste mês de março). O retrato, Haynes percebeu, não poderia ser linear, como não o são a poesia, o canto e a presença do personagem, embora quase o seja, muitas vezes, a música folk, acaipirada, que ele pratica.

O truque imaginado pelo diretor foi o de estilhaçar a figura de Dylan em sete personagens fictícios vividos por seis atores diferentes, e correspondentes a vários estágios de sua trajetória, do início como imitador obsessivo de Woody Guthrie (entre outros homens-lenda do folk), até o caubói isolado e misantropo da maturidade. No primeiro caso, Dylan é interpretado por um garotinho negro, Marcus Carl Franklin. No segundo, pelo “gigolô americano” Richard Gere, agora grisalho e de traços relaxados.

Entre um pólo e outro, Dylan ganha vida ficcional como um ator hollywoodiano massificado (interpretado, ironicamente, por Heath Ledger, de Brokeback Mountain, que morreria pouco depois), como o converso fervoroso ao catolicismo que Dylan de fato virou no final dos anos 70 (Christian Bale) ou como ídolo frágil, andrógino e anfetaminado que choca a sociedade puritana ao eletrificar o até então sacralizado folk norte-americano (que a certa altura o filme define, com acidez, como música “de dedo em riste”).

Neste último caso, Dylan é encarnado com sensibilidade e crueldade impactantes por uma mulher, Cate Blanchett, nitidamente apaixonada pelo personagem, na fase anos 60, em que ele se envolvia em tiroteios verbais agressivos, reciprocamente destrutivos, com a imprensa.

O crítico musical, Mr. Jones, arrasa e é arrasado por Dylan-Blanchett. Trata o ídolo pop como fera excêntrica enjaulada num show de horrores, mas na cena seguinte ele, o crítico, aparece trancafiado na mesma jaula. É interpretado por Bruce Greenwood, que, não à toa, adiante reaparecerá como antagonista do caubói marginal de Gere, Billy the Kid, num vilarejo de idílio e loucura habitado por circenses, ciganos, avestruzes e girafas.

Por baixo de tal atmosfera deslinear de delírio e alucinação, oculta-se um recado simples, transparente. Se Dylan é ora um menino negro, ora uma mulher, um cristão fervoroso, um crítico musical, um pacifista em guerra consigo e com o mundo, um velho caubói, Dylan é uma multidão. No rodízio de identidades imaginado por Haynes, o “nowhere man” é a somatória, o resumo e a alegoria de todos e qualquer um de nós. Ele é, como o cineasta-fã demonstra obsessivamente, o sonho e o pesadelo de existir, seja no 1964 de The Times They Are A-Changing ou no 2007 de Modern Times (e de Não Estou Lá).

(*) O título, confesso, foi marotamente inspirado em Laís Bodansky, diretora de filme homônimo, que está prestes a estrear o belíssimo (e muito musical) Chega de Saudade, comentado pela parceira Ana Paula Sousa na mesma edição da CartaCapital. 

O chapéu de Bob Dylan

7 março 2008

Parece bobo escrever sobre um show de Bob Dylan em São Paulo, Brasil, 2008. Dylan é locomotiva histórica que seguirá em inércia de movimento, em rota própria, antes, durante e depois da passagem de mais este cometinha. Seria assim, ainda que um milhão de textos críticos pipocasse simultaneamente, agora mesmo, em jornais, revistas, blogs e o que fosse, num uníssono “faça isto (ou aquilo), mr. Dylan”. Pipocas estourando no fundo quente da panela, apenas.

Há muito tempo a panela, ou melhor, Bob Dylan tornou-se um ente etéreo, que se move numa zona fantasma à qual a maioria de nós não pertencemos.

Tornou-se incomunicável, a não ser por intermédio do conteúdo guardado no conjunto de letras de música que escreve desde ao menos o início dos anos 1960. E que, por si só, nunca foi nada fácil, não. (Like a Rolling Stone, de 1965, por exemplo, é ou não é uma música sobre ressentimento e vingança? E os brasileiros que gritam e tentam cantar em coro assim que percebem que a melodia desconstruída à sua frente é a da antológica canção? Estão ou não estão em sintonia e aliança com o suave “pastor” em cima do palco naquela sede antiga e amarga de vingança?)

É que talvez pareça bobo ser Bob Dylan, fazer um show como Bob Dylan, hoje, 2008, em qualquer canto do mundo. É muita história contada aos pouquinhos, com pelo menos 31 álbuns conceituais, de material original, lançados desde 1962. Nada lógico que fosse retirado dali caberia num show de menos de duas horas.

O fluxo de criação, confrontado com o fluxo de exposição, já virou há muito a rebimboca da parafuseta. Ao “profeta” consolidado, não resta senão juntar os cacos fogosamente estilhaçados ao longo de quase meio século e colá-los num retrato efêmero, num pedacinho de (suposta) eternidade que daqui a pouquinho talvez já esteja petrificado na grande rede.

Dylan parece extrair desse quase acaso o balé cigano que elabora a cada sessão semi-imóvel de versões roufenhas que o descontroem o tempo todo, embaixo de chapéus bem arrumados na cabeça dele e da trupe mambembe (e ultraprofissional) que o acompanha.

A deduzir pelas listas de repertório de cada showzinho “around the world”, disponíveis em mil sites soltos na internet, o esqueleto de “sucessos” recentes é meio fixo no miolo das apresentações, e nos inícios e finais o “bardo” promove um rodízio de “clássicos”. Em 6 de março, em São Paulo, entram “Rainy Day Women #12 & 35 (1966), “Lay, Lady, Lay” (1969), “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” (1963), “Highway 61 Revisited” (1965), “Tangled Up in Blue” (1975), a suplicyniana “Blowin’ in the Wind” (1963). Noutra noite serão outras, como se o pai quisesse e pudesse se preservar do enjôo das próprias crias.

O nome da amálgama entre todas as canções, canções renegadas e descanções é Bob Dylan. E isso em diversos momentos pode soar como cândida incongruência do pai que aprecia abastardar as crias. Pode soar até como bobeira, mas delicada e madura bobeira.

As notas à parte, nos shows em São Paulo, partem mesmo da platéia, tão boba como todo o resto (e risonhamente disposta a pagar de 200 a 900 dinheiros, à parte jornalistas e outros “sortudos”, que recebemos ração grátis de filé). Não é assim uma beatlemania, mas a dylanmania, iniciada quando ele era muito jovem e idolatrava Woody Guthrie, parece, sim, existir, até hoje, até no Brasil.

Nas duas noites, fãs supostamente descabelados conseguem subir ao palco no objetivo de arrancar um carinho ou afago do homem-esfinge. A menina da quinta-feira, de cabelos pintados nas pontas, consegue tascar um beijo no cowboy-trovador nascido em Minnesota.

Ato reflexo, ele se assusta e limpa o rosto com a mão. Perde o rebolado, fica abobado, sai da trilha da letra da canção, silencia, deixa a banda à deriva no acompanhamento por ora sem líder. Não esboça expressão, não deixa entrever se apreciou ou detestou a interferência, ele que tinha pavor de ser assassinado como John Lennon e há séculos guerreia em aliança de ódio & amor com legiões de fãs-vampiros. O guitarrista racha o bico, ele retoma enfim a canção.

Um pouco mais adiante, proferirá as únicas palavras ditas até aqui na passagem pelo Brasil, em público, fora das letras da canção e da liturgia do show. Agradece à “young lady” que “ficou com a gente” no palco, pergunta para onde ela foi, diz que gostaria de dar a ela o seu chapéu.

Por baixo da migalha roubada pela tiete e por trás da idiotia robotizante do $how biz, parece de repente que ainda mora um homem.

E a “young lady”, ao final, pula na calçada de saída do show, boba de alegria, dançando e gritando o bordão: “Uh, uh, uh! Beijei o Bob! Uh, uh, uh! Beijei o Bob! Uh, uh, uh!…”. Está sem chapéu.