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Wanderléa sobrevoa

18 dezembro 2008

Um texto extraído da CartaCapital 523, de 26 de novembro de 2008:

WANDERLÉA SOBREVOA

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Wanderléa tem 62 anos e um sonho recorrente. Volta e meia, vê-se voando alto, por cima do mundo. Nessas ocasiões, lá de cima, ela observa, plácida, as pessoas e as coisas aqui embaixo.

Não é que ela nunca tenha voado na “vida real”, ao contrário. Nos anos 60, com minissaia curtíssima, músicas de letras bobinhas, atitude ingenuamente rebelde e voz indomada, irritou os mais nacionalistas e os (supostamente) mais intelectualizados, mas voou alto, impulsionada pela multidão enlouquecida que vivia com ela a febre do iê-iê-iê.

Hoje plana baixinho, modesta, sem estardalhaço no bater das asas. Encontrou guarida numa gravadora independente e pequena, Lua Discos, e rompe um longo hiato sem lançar discos originais. “Foram 18 anos praticamente muda”, diz. Nova Estação é seu trabalho mais particular, peculiar e destoante do clichê de “ternurinha” da jovem guarda que provavelmente a acompanhará para sempre.

A Lua me deu liberdade total para fazer o que eu quisesse. Eu nunca tinha feito um disco sem ter que obedecer a qualquer orientação de gravadora”, constata, perto do solo, aninhada no apartamento amplo e confortável (mas não luxuoso) de sétimo andar em que mora há décadas, nos Jardins paulistanos.

Mas nem o vôo rasante é novidade para Wanderléa. A técnica de planar baixo ela adquiriu na década de 60, quando tinha de se impor num meio dominado por homens, dos parceiros machões Erasmo e Roberto Carlos a “seu” Evandro Ribeiro, o executivo-chefe da CBS, que, hoje ela confessa, determinava tudo que a estrela pop adolescente gravaria.

Naqueles anos, locomovida pela fortuna que o sucesso de Exército do Surf, Meu Bem Lollipop, Pare o Casamento, Prova de Fogo lhe trouxe, adquiriu a mania de colecionar e dirigir a toda velocidade carrões possantes, vários deles importados. Tipicamente masculina, a paixão talvez lhe permitisse lutar em igualdade de condições com os varões do iê-iê-iê. Mas tinha raízes também na relação turbulenta com o pai.

Descendente de libaneses, “seu” Salim viveu nômade entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, e era convicto de que mulheres não deviam jamais dirigir carros. Teve 13 filhos, batizados com nomes como Wanderlene, Wanderbill, Wanderte, Wanderlô e Wanderbele, nascidos cada um num canto (Wanderléa nasceu em Governador Valadares, Minas Gerais).

Apesar de austero, seu Salim permitiu que a filha desenvolvesse carreira musical desde os nove anos de idade, como crooner de clássicos do cancioneiro, sob acompanhamento ora do regional de Canhoto, ora da orquestra do maestro Astor. Ela interliga a entrada no meio artístico à morte da irmã Wanderlene (“a mais bonita de todas”), baleada acidentalmente na rua, na sua frente. “A minha ascensão foi o que deu uma levantada na minha família, tirou um pouco o luto”, reavalia.

Fala com naturalidade dos tempos de trabalhadora infantil, mas esboça lacônica reprovação quando perguntada sobre Maísa, a garotinha-prodígio cuja esperteza deixa pasmos os espectadores atuais de Silvio Santos: “É perigoso”.

Seu Salim morreu no auge do sucesso da filha mais rebelde e emancipada. O sucesso pop fez cessar abruptamente os tempos de cantar Dalva de Oliveira e Angela Maria com orquestra por trás. E também por isso Nova Estação é um trabalho especial. “Você acha que há dez anos eu ia fazer esse disco? Não ia.” O disco acumula canções antes interpretadas por Elis Regina e Gal Costa, compostas por Johnny Alf, Chico Buarque, Jackson do Pandeiro, Martinho da Vila, Geraldo Azevedo, Billy Blanco, e sempre acompanhadas por arranjos discretos e elegantes idealizados pelo marido, Lalo Califórnia.

Por muito tempo, ninguém abria estúdio para mim. Se eu falasse ‘quero gravar Johnny Alf’, diriam: ‘Pirou'”, interpreta. Mas, se diante dos holofotes a bossa nova de Alf e o iê-iê-iê de Wanderléa parecem mundos incomunicáveis entre si, nos bastidores as coisas não são bem assim. “Fui cantar numa homenagem ao Johnny, e fiquei surpresa quando ele começou a citar minhas músicas, lembrou uma canção de Rosinha de Valença que gravei, sabia tudo sobre mim”, espanta-se.

Pertencem à história secreta da música brasileira lembranças admiráveis compartilhadas com Antonio Carlos Jobim. O disco Elis & Tom, lançado em 1974, foi em parte ensaiado na casa de Wanderléa. Aconteceu em Los Angeles, onde ela morava para acompanhar o tratamento de seu marido à época, José Renato, tetraplégico após um mergulho numa piscina.

Jobim costumava atravessar noites festeiras ao piano de Wanderléa, ao som de Chovendo na Roseira e outras novidades. Durante as gravações, Elis deixava o filho pequeno, João Marcello Bôscoli, aos cuidados da ex-antagonista. Se nos anos 60 Elis hostilizara a jovem guarda e liderara passeata contra as guitarras elétricas, agora se tornavam amigas íntimas. Naquele fim de ano, reuniram-se ao redor da mesma árvore natalina Tom Jobim e o sogro de Wanderléa, Chacrinha.

Esse espírito de convivência harmônica entre “populares” e “eruditos” vazou pouquíssimas vezes para a esfera pública, mas é o que norteia quase 40 anos depois o disco Nova Estação. Até a terra natal parece voltar à tona, na faixa-título (lançada por Elis em 1980), abertura do CD em ambiências evocativas do Clube da Esquina. “Você acha? Se tem isso, foi por acaso. Nunca me reconheceram como mineira. Para eles, do Clube da Esquina, eu devia ser cearense”, brinca, denotando os muros que ainda separam facções e panelas da dita MPB.

O afastamento do ambiente fonográfico foi quebrado pela gravação eventual de antologias da jovem guarda, entre convites que ela preferiu recusar. “Apareciam umas propostas indecorosas, ‘agora é época de lambada, tem que fazer um disco de lambada’. Nada contra os gêneros, mas eu já tinha uma personalidade formada, um público que me respeitava.”

Esse público, misteriosamente, ela nunca perdeu, como atestam shows recentes no Auditório Ibirapuera, lotados mesmo sem disco de apoio, marketing de gravadora ou jabá. Mas até do prazer de estar no palco ela andou desencontrada, principalmente após a morte de Bill, irmão e escudeiro profissional, por Aids, em 1994. A estrada então lhe pareceu mais “maçante”, “solitária”.

Nem assim perdeu o público leal, pois esse (como o de Roberto Carlos) parece viver com ela em comunhão na alegria e na tristeza. Hoje, Wanderléa não hesita em classificar o que viveu por mais de uma ocasião, sem saber nomear ou combater. Depressão. E defende com naturalidade o uso de medicação para combater a vontade de “ficar embaixo da cama”: “Se tiver problema de estômago e não for ao médico você não se ferra? Então. Vai ficar trancado no quarto, por quê? Vai se tratar”.

No lado mais ensolarado, o feminismo pioneiro dos anos rebeldes tampouco a abandonou. Hoje o incorpora de modo mais consciente, como ao falar, divertida, do machismo de Roberto e Erasmo, ou da sociedade como um todo. “A mulher também é culpada, porque cria diferente o filho homem. Reclama do marido, mas cria o filho igual?”, pergunta. “Aqui em casa somos muitas, e o Lalo, coitadinho, apanha um bocado.”

Refere-se a Jadde e Yasmin, as duas filhas na casa dos 20 (um primeiro filho, Leonardo, morreu aos 2 anos, afogado na piscina de casa, em 1984). Ambas são artistas plásticas em formação, e a mãe parece sonhar para elas um vôo alto. Reage com empolgação aos quadros que Jadde traz para casa, e minutos depois a instiga a mostrar uma das muitas músicas que compõe. Jadde hesita, mas acaba mostrando um vídeo no computador, no qual canta suavemente em inglês, em gênero folk. Estudante em Paris, Yasmin surge no Skype, para festa da mãe e da irmã.

Três anos atrás, Jadde voou alto em companhia da mãe. Wanderléa voltava à terra natal para receber a chave da cidade, e só então descobriu que sua Governador Valadares é uma “capital do vôo livre” no Brasil. Não hesitou um minuto em pular de paraglide pela primeira vez na vida. Voou feito pássaro e viu o mundo pequenino, quilômetros abaixo de seus pés flutuantes. E conta a aventura de peito estufado, como se estivesse acontecendo aqui e agora.

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Debaixo dos caracóis dos cabelos deles

27 agosto 2008

A certa altura (*) de Wave, a orquestra sobe, avoluma-se e toma conta do palco e da platéia, sob a regência de Jaques Morelenbaum e uma sinfonia de cordas que transborda afeição. Caetano Veloso e Roberto Carlos se fitam, sorriem reciprocamente, ensaiam a cumplicidade que suavizará  o decorrer do espetáculo (ou o acidentará, se ausente). CV se empolga, avança sobre RC, tenta enlaçá-lo como numa proposta de valsa. Desprevenido, Roberto rechaça o convite à valsa entre homens. Assustado, diz que não, segurando firme os braços de Caetano a relativa distância.

O que se passa nas cabeças e nos corações de ambos, nesse e nos demais momentos, é impossível adivinhar.

Mas, quanto a CV, o gesto ousado parece, aos olhos deste observador, algo tão incontido e espontâneo quanto genialmente ousado – já pensou as manchetes que os jornalões de amanhã deixariam de publicar se Caetano Veloso conseguisse extrair do “rei” da canção romântica brasileira uma valsa, uma contradança? Seria mais um gol marcado pela tropicália, maior que o leve beijo na boca entre Gilberto Gil e Silvio Santos, em 2001.

Quanto a RC, o veto protestado traduz-se, aos olhos desse mesmo observador, como susto, medo, rigidez, talvez a ternura antiga de se sentir peixe fora daquelas águas geladas. (Seriam, quem sabe, os mesmíssimos receios e inseguranças que perfuravam também o consorte?)

De todo modo, a rejeição brusca ao enlace proposto por CV parecia mesmo inevitável – pois o “rei” da música realmente popular brasileira não é, desde há décadas, um excelentíssimo “careta”? Como poderia, entre os tantos tabus que está nessa noite diligentemente conseguindo romper, ainda por cima aceitar tomar em valsa os caracóis dos cabelos de seu antípoda anti-romântico, quase romântico, muito romântico, excessivamente romântico? O que pensariam de RC e seus cabelos hoje desencaracolados as senhorinhas habituadas a receber rosas, rosas, rosas… a cada final de show (mas que excepcionalmente, nessa noite dedicada ao patrono soberano brasileiro de almeida jobim, saíram de mãos abanando)?

O gesto e o contragesto foram coisa de fração de segundos, mas condensaram todos os acontecimentos intensos (ainda que forçosamente formais) ao redor. Ambos os duelistas cavalgavam resolutamente princípios acumulados durante anos, décadas, séculos, eternidades. Por que um mero show de uns poucos milhões de reais haveria de obrigar cada um dos dois a apear das respectivas convicções?

Não apearam, e os acontecimentos seguiram o curso mais provável. Na condição de semi-rejeitado, Caetano possivelmente arcou com ônus e prejuízo maiores. Pareceu mais frio e distante dali em diante, especialmente nas várias canções que apresentou sozinho, da Inútil Paisagem que não ecoou a Paisagem Útil do tropicalista de 1968 ao Caminho de Pedra que tributou as entranhas de ACJ e a nobreza profana de Elizeth Cardoso, mas também fez ribombar, nos ouvidos deste observador, modas caipiras e a Disparada antiga de Geraldo Vandré. Os aplausos o aninharam, quase protocolares.

A tensão e o nervosismo não pareciam abandoná-lo um segundo sequer, e permaneceram no palco em igual voltagem quando CV foi ser rendido por RC. Para lá do choque elétrico de Wave, parecia óbvio e ululante que Caetano temia Roberto como Roberto temia Caetano, e que cada um ficava e tornava o outro inseguro em igual intensidade. Não deve ser para menos, quando se trata de dois desses homens que já deixaram de ser homens para virarem instituições. Quanto mais se tais homens-instituições polarizam, para o mundo que os idolatra, o ateísmo niilista versus o catolicismo fervoroso, a camisa rosa à mercê do terno azul turquesa, a rebeldia consentida e assimilada (pelo tipo de público ali presente) do (pós)tropicalista contra o convencionalismo rebelde e mal-digerido (idem) do jovem-(van)guardista.

Mas de volta ao baque maior para Caetano. Roberto voltou para sua sessão em evidente desvantagem, fosse pela menor intimidade com o repertório, pela destreza e sutileza encolhidas da orquestra de Eduardo Lages em relação à de Morelenbaum, pela condição de peixe mais ou menos fora das águas do auditório, da MPB, do elitismo que gritava nas entrelinhas.

Mas RC, peixe grande, raposa velha, emoções sempre à flor da pele, se entregou a Tom Jobim em profundidade, com nervosismo, afinco e paixão. Cantou as bossas de Antonio Carlos como peças rasgadamente românticas, o que de resto elas sempre foram mesmo. E a mágica começou a se desatar, já a partir da versão castelhana de Insensatez.

[E esse dado merece um colchete, um parêntese de dentro para dentro. RC lançava ali uma isca pop que críticos musicais costumam(os) morder vorazmente, auto-proibidos que talvez se sintam (nos sintamos) de aceitarem (aceitarmos) o “rei” do jeito que ele é: objetivo, derramado, oblíquo, determinado, comprometido com alguma simbologia de unidade latino-americana como sempre foi. Ignoram, os que detestam o romantismo em castelhano, que Roberto talvez precisasse cantar Jobim em espanhol, de raspão, antes de acumular coragem para cantá-lo em extensão, no idioma natal. Curioso é que nunca lhes ocorre cobrar, de bossa-novistas desde Tom e João, por que nunca converteram em bossa as bossas de Roberto e Erasmo.]

Pois então. Partiu de Insensatez e verteu loas mais ou menos explícitas a alguns de seus próprios mitos musicais, como Dolores Duran, Tom Jobim e… Roberto Carlos. Em Lígia, fundiu o presente à imagem do passado no telão, Tom, Roberto e cravo rubro na lapela, todos juntos reunidos numa só canção, num só imaginário de cafonice e sofisticação. Na dulcíssima Por Causa de Você, abordou tacitamente o parentesco das “flores na janela” de Dolores e Tom em 1957 com  as “flores do jardim de nossa casa” do Roberto safra soul em 1969. Eis aí que o (ex)roqueiro mais importante do Brasil retomava o fio da meada do nascedouro de sua constituição musical, ancorado em Tito Madi, Dolores Duran, Lúcio Alves, João Gilberto.

Isso, por sinal, ficaria mais explícito ainda mais adiante quando a neo-dupla retomasse em dueto o tema maroto de amor (quase) livre Tereza da Praia, que fora de Tom Jobim e Billy Blanco, e de Dick Farney e Lúcio Alves, mas que o próprio Roberto retomara em parceria e duo com Erasmo, em Papo de Esquina (1988).

Mas o esforço solo de RC culminou com o bruto e suave contraste do Samba do Avião, a tristeza da voz versus a luz dos versos, a alegria triste da bossa nova mais a tristeza satisfeita do romantismo robertocarlista, momentaneamente reunificadas.

E, como dizia, a mágica se fez. Sem ser mais preciso, agudo, seguro ou, er, chique que Caetano, Roberto foi a cada canção mesmerizando mais e mais aplausos, e aplausos mais e mais arrebatados e eloqüentes. Cumpria-se pela enésima vez a razão de ser do cantor efetivamente popular, e desta vez diante da esnobe platéia impopular brasileira que emoldurava aquele quadro tão esquisito e improvável (e especial), e, só por essa vez (só?), aplaudia mais o “rei” “cafona” que o “príncipe” “chique”.

Aos olhos e ouvidos zonzos deste observador, era como se o inusitado da situação e a sinceridade intrínseca de seu canto houvessem roubado para ele, de Caetano, o show. Mas antes acontecera a cena de valsa abortada, o fiapo de faísca de faca cortando a ferida entre agredido (Caetano) e agressor (Roberto), entre agredido (Roberto) e agressor (Caetano). Aí, ao provocar aquele desencontro dentro do (des)encontro, CV talvez estivesse entregando o show de bandeja a RC, para que o colega mais, er, “careta” e “romântico” (seria mesmo?…) consumasse a coragem nunca antes (na história deste país) possuída e praticada, de se aventurar por mares argonautas mais revoltos e hostis que os da segurança popular brasileira. O gesto distanciador de RC rumo a CV era talvez o mesmo que ele se acostumou a conservar em relação à dita “MPB” (essa, aliás, provavelmente o rejeitou antes que ele pudesse decidir rejeitá-la, ou não). Mas, nessa noite, Roberto Carlos estava ali. Peixe fora d’água, peixe dend’água.

Doçura atroz entre o beijado e o beijoqueiro, Caetano parecia naquela noite entregar seu afeto e seu ego a Roberto. Este, por sua vez, retribuiu a seu modo o carinho, e, eu aposto, só conseguiu chegar até ali, e cantar “e eu que era triste, descrente deste mundo” ou “tristeza não tem fim”, e enfrentar a garatuja do elitismo MPBesta porque tinha o respaldo e a cumplicidade de Caetano a lhe oferecer alicerce. A valsa pode ter sido formal, o beijo pode ter ficado implícito. Mas aconteceram, sim, a valsa e o beijo.

 

(*) Este texto se baseia no show que Roberto Carlos e Caetano Veloso lideraram na segunda-feira 25 de agosto, no Auditório Ibirapuera de São Paulo. As outras apresentações não presenciei e, portanto, sobre elas não posso elucubrar. Óbvia constatação, mas é que volta e meia o jornalismo se esquece dessa obviedade e se finge de onipresente, onipotente, e tal e coisa, o que carece do mais mínimo fundamento e não goza de nenhuma verossimilhança.