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O que é que VAI acontecer… com a música… popular… brasileira?… (ou É som de preto… de favelado… mas quando toca…)

27 novembro 2008

Da CartaCapital 522, de 19 de novembro de 2008:

NINGUÉM FICA PARADO

Um livro analisa como o tecnobrega dominou o Norte, adquiriu autonomia e desafiou a lógica da indústria cultural

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Gabi Amarantos tem uma banda chamada Tecnoshow. Ela grava seus discos no computador que tem no quarto. Embora seja já uma veterana no cenário musical de sua cidade, Belém do Pará, faz a cada novo CD um trajeto de iniciante. Pronto o conteúdo, improvisa uma capa e se divulga pessoalmente em rádios, tevês e com DJs que tocam o gênero chamado tecnobrega.

A Tecnoshow foi pioneira em lançar DVD em Belém, a partir de um investimento próprio, de 40 mil reais. Camelôs da periferia e do centro se encarregam do trabalho de distribuição, de que as gravadoras tradicionais não se ocupam. Como Gabi e os demais artistas de tecnobrega abdicam voluntariamente de direitos autorais, não se pode chamar sua produção de pirata, embora se misture e se confunda com a pirataria generalizada que quebrou as pernas da indústria fonográfica.

O fenômeno é ainda desconhecido da maioria dos brasileiros que não moram no norte do País. Mas acaba de ser agraciado com um primeiro estudo próprio, sério e fundamentado, em formato de livro. Tecnobrega – O Pará Reinventando o Negócio da Música (Aeroplano, 216 págs., R$ 31) lança fundamentos preliminares, mas esclarecedores, sobre o gênero musical que há anos vira de cabeça para baixo o panorama musical de uma região de resto esquecida pelo eixo cultural Rio-São Paulo.

Mais que isso, o tecnobrega é o acontecimento cultural que mais desconcerta e apavora a indústria musical do Brasil nestes anos 2000. E, por isso mesmo, é blindado com silêncio sepulcral por parte da oficialidade dessa indústria.

O livro se baseia numa extensa pesquisa de campo realizada em Belém por uma equipe da Fundação Getúlio Vargas, com texto final pilotado pelos pesquisadores Ronaldo Lemos e Oona Castro. E revela dados estatísticos surpreendentes.

Descobre, por exemplo, que acontecem em média 1.700 shows mensais de tecnobrega só na capital. E que chegam a 4.300 mensais as festas de aparelhagem na cidade. “Aparelhagem” é o nome popular para designar a infra-estrutura tecnológica sofisticada que move o tecnobrega, com DJs, mesa de som, câmeras de vídeo filmando a festa, televisões LCD, notebook, equipamentos espalhafatosos de efeitos especiais com luz, laser, fumaça.

O público médio das maiores festas, promovidas por empresas com nomes como Tupinambá, Rubi, Super Pop e Ciclone, é de 3 mil a 5 mil espectadores, e chega a 8 mil. Cada banda embolsa entre 1,5 mil e 4 mil reais por apresentação. Segundo defende o livro, a intensa competição entre  aparelhagens mobiliza uma característica essencial do movimento, a necessidade de inovação. Embora às vezes isso diga mais respeito à parafernália ao redor que à música propriamente dita, inovação é qualidade perdida há mais de uma década pela indústria tradicional.

A rigor, a música chamada tecnobrega tem semelhanças evidentes com o fenômeno axé da Bahia dos anos 1990. Como relatam os autores, trata-se de um mercado regido por lógica econômica e comercial, sem elementos de contestação ideológica ou econômica. Como o axé, tem o objetivo explícito de divertir e fazer dançar.

Deriva do brega paraense dos anos 80, uma música mestiça entre jovem guarda, ritmos caribenhos, guitarras roqueiras, sons indígenas. “Brega” virou “tecnobrega” com a chegada da internet, da tecnologia, dos estúdios caseiros que executam o trabalho antes monopolizado pelas multinacionais do disco. A pesquisa revela que apenas 5% dos artistas de tecnobrega têm contrato com gravadora, 7% tiveram e não ficaram, e 88% nunca passaram por elas.

A Banda Calypso é o produto musical da terra que ganhou notoriedade nacional (e em seguida distanciou-se da origem e se fixou na Bahia). Mas, afora lances da banda com a Globo, a indústria sulista não se apropriou da coqueluche paraense, como fizera antes com o axé. Não fatura um centavo ali e, mais que isso, demonstra aversão a sequer ouvir falar em tecnobrega. E isso deve ter a ver com o fato de o gênero ter se constituído sob bases autônomas e auto-sustentáveis, aparentemente impermeáveis ao assédio de gravadoras ou meios de comunicação. Para artistas ouvidos pelos autores, foi o sucesso espontâneo que forçou a mídia local a assimilar o gênero, a contragosto.

A informalidade é marca central do tecnobrega. O modelo de Gabi Amarantos é o padrão, com artistas entregando por conta própria as gravações aos camelôs. O fato de direitos autorais e propriedade intelectual não fazerem parte da realidade daquela cadeia produtiva é o que enerva particularmente as gravadoras tradicionais. O discurso único que sai é de condenação à ilegalidade da pirataria e à supressão dos direitos de autor. Mas é a mesma indústria que permitiu passivamente a quase extinção das lojas de discos no País (o livro relata que em toda Belém só restaram duas). Para a massa de artistas que brota da democratização forçada do acesso à criação, é aceitar a distribuição informal por camelôs ou deixar de existir.

Outra característica é a subversão dos currais tradicionais em que alguns faziam papel de artistas, outros de produtores, investidores ou fãs passivos. O livro mostra que no tecnobrega essas categorias são móveis e maleáveis. Cita-se o exemplo de Beto Metralha, que de início teve banda e atuou como DJ e produtor. Hoje desistiu dos CDs, e redirecionou-se para produz DVDs de eventos tão díspares como comerciais de tevê e casamentos. Outro caso é o do cantor que, para patrocinar o próprio DVD, vendeu espaços de 30 segundos dentro do disco a dez instituições comerciais.

Nas aparelhagens, 84% dos envolvidos têm outras profissões. O livro documenta comerciantes, pintores, pedreiros, carpinteiros, eletricistas, o que dá a dimensão da inclusão social por trás do fenômeno.

Mas os novos modelos não são essencialmente uma movimentação de periferias marginalizadas, segundo o co-autor. “Não tem nada a ver com rico e pobre, com norte e sul. O que acontece no tecnobrega acontece igual no hip-hop de Baltimore, nos mixtapes do Texas”, diz. “O princípio do YouTube e do MySpace é exatamente o mesmo. Mas nesses casos as pessoas costumam olhar a inovação primeiro e só depois a ilegalidade. No tecnobrega, enxergam só a ilegalidade.” Tal ambigüidade permeia o movimento, e o livro. Tecnobrega aborda “ilegalidades” que ofendem gravadoras e polícia, mas foi lançado com patrocínio da Petrobras e do Governo Federal.

O livro não trata o tecnobrega como o mar de rosas que de fato não é. Demarca, por exemplo, que o controle econômico maior das aparelhagens sobre os outros agentes hierarquiza o processo e faz com que seus proprietários passem a operar pela manutenção da hierarquia interna conquistada, como no capitalismo tradicional.

A co-autora relata estigmas persistentes no tecnobrega: “Voltei a Belém para falar sobre a pesquisa numa palestra, e não encontrei lá o pessoal do tecnobrega. O público, de professores e estudantes, tende a mostrar os preconceitos persistentes de classe média. De modo geral a platéia não se orgulha muito da música local”.

O que não ficava tão evidente em momentos como o do axé ou do pagode “mauricinho” pula a primeiro plano agora. Nos meios mais conservadores, a hostilidade “intelectual” a esses movimentos é em geral justificada sob pretextos “estéticos”. O tecnobrega sublinha não só preconceitos sociais escondidos atrás do arrepio estético, mas também a resistência da sociedade à conquista de autonomia e participação por quem nunca teve voz ativa.

À diferença dos momentos anteriores, o tecnobrega mostra amplo desinteresse pela conquista do eixo Rio-São Paulo. Em mais, adquirem de modo inédito total auto-suficiência econômica em relação ao “centro”. Talvez não fizesse o menor sentido uma “crítica musical” sobre a Banda Calypso. Pelo menos não nos moldes esquemáticos a que estávamos acostumados.

O que foi que aconteceu?… com a música popular brasileira?…, parte 2

20 novembro 2008

Vasculhando as ferramentas do WordPress, percebo que o segundo tópico mais visitado deste blog é a reprodução em pingue-pongue da entrevista feita com o pesquisador Jairo Severiano (o mais visitado de todos, até aqui, é aquele que fala sobre uma série de CDs de iê-iê-iê). Mas percebo também que nunca reproduzi aqui a reportagem de CartaCapital que resultou daquela entrevista e que tem tudo a ver com aquela discussão. Pois então, que nunca é tarde para fazê-lo:

MÚSICA POPULAR?

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Era uma vez uma sigla chamada MPB. Designava uma tal “música popular brasileira” e se tornou moeda corrente a partir dos anos 1960, quando adotada por toda uma geração universitária de compositores, cantores e admiradores. Décadas adiante, a sigla pouco a pouco se encastelou. Isolou-se de gêneros supostamente “inferiores”, blindou-se como num condomínio fechado de bairro nobre. Entrou em crise, até de identidade. Quem faria a MPB de 2008? O rococó Djavan ou a simplória Banda Calypso? O bissexto João Gilberto ou a onipresente Ivete Sangalo? O que seria MPB em 2008? O banquinho-e-violão em redutos exclusivos do eixo Rio-São Paulo ou o pop que corre por fora da indústria e lota arenas nas periferias do Brasil? 

A resposta seria tudo isso ao mesmo tempo, caso a sigla MPB tivesse resguardado o alcance do pomposo nome composto. Talvez não seja quase nada, tal é a tendência ao confinamento que passou a acompanhar os termos “música”, “popular” e “brasileira”, quando colocados lado a lado. “Criou-se esse termo MPB como se fosse um tipo de música, o que acho inadequado, apesar de estar consagrado”, afirma o historiador cearense Jairo Severiano, autor de um livro recém-lançado que, por sinal, leva no título o termo fatídico, Uma História da Música Popular Brasileira das Origens à Modernidade (Editora 34, 504 págs., R$ 64). “É uma sigla. Deveria ser usada para designar a música de qualquer gênero, moderna ou antiga, boa ou ruim. Mas passou a ser a música popular brasileira de elite.” 

Hoje automático, o uso da expressão perde de vista o fato de que a sigla é uma invenção, e que nem sempre houve sentido em usá-la, ou mesmo em discriminar a música entre “popular” e “erudita”, como se fossem pólos opostos, incompatíveis. O estudo de Severiano parte do compositor mulato Domingos Caldas Barbosa, cantor de modinhas e lundus para a aristocracia de Portugal nos anos 1700. Não era rotulado de “popular” ou “erudito”, mas, como relata Severiano, atraía manifestações iradas como a do historiador português Antônio Ribeiro dos Santos: “Eu não conheço um poeta mais prejudicial à educação (…) do que este trovador de Vênus e Cupido”. 

Segundo Severiano, a querela entre “populares” e “eruditos” já era pronunciada na década de 1930, época de avanço do cinema falado, rádio, disco e a primeira grande geração de músicos “populares” no Brasil, de Silvio Caldas e Carmen Miranda. “Fui adolescente nos anos 40, e na minha família havia um preconceito terrível contra a música popular, como havia na classe média e principalmente na alta. Só consideravam música o que era de concerto. Esse ente já nasceu com a conotação de inferioridade perante a música clássica.” 

Espezinhada pelos ditos “eruditos”, a música “popular” iniciou sua própria trajetória de elitização em 1958, com o surgimento da bossa nova. Tom Jobim incorporou Villa-Lobos, João Gilberto absorveu o jazz e os universitários dos anos 60 deram partida à sigla MPB, que mais tarde hostilizaria subliminarmente subgêneros “menores”, como samba, rock, música caipira ou romântica. A consolidação de guetos levou criadores e consumidores a fazerem vista grossa a “detalhes” fora de lugar nas gavetas classificatórias, como a sofisticação contida em gêneros “populares” como samba e choro, ou a banalidade inerente a muitas letras da bossa nova. 

De acordo com Severiano, muito da MPB operante ainda hoje tem raízes no samba-canção dos anos 50, em duas vertentes cada vez mais distanciadas uma da outra. A “moderna” nasceu da obra então acariocada do baiano Dorival Caymmi e de nomes como Lúcio Alves e Dolores Duran. Originou a bossa nova, que derivou para a canção de protesto, a tropicália e a MPB. A vertente “tradicional”, de autores como Herivelto Martins e Lupicinio Rodrigues, seguiria com os cantores Anísio Silva e Altemar Dutra e redundaria, segundo ele, na música “cafona” e “brega” das décadas seguintes. 

A distinção oculta um curioso paradoxo. Cafonas e bregas (e sertanejos, pagodeiros, axezeiros, funkeiros) formulariam a música efetivamente mais difundida do Brasil. Mas o termo “popular” seria seqüestrado por segmentos primeiro mais sofisticados, depois mais herméticos e por fim menos populares. 

Diretor da gravadora paulista Trama, João Marcello Bôscoli sai em defesa do “P” de MPB: “Entendo o termo ‘popular’ não como comercial ou de massa, mas como não erudito. É sabido que a maioria dos artistas da MPB não tem compromisso em construir hinos à multidão”. 

Ele lamenta a dissolução da sigla: “A bossa nova foi feita e depois não houve prosseguimento. O mesmo aconteceu com a tropicália. A indústria fonográfica perdeu a bossa e a tropicália, e também a MPB. Mas a indústria não é diferente do resto do País. Somos um país que não consegue construir”. E defende a permanência do termo: “MPB é um nome legal, embora hoje lembre música de festival, ou sofisticada, feita pela elite daqueles artistas que a gente sabe quais são. Mas vale a pena pegar a sigla e jogar fora? Só se vai gastar dinheiro para criar outro nome”. 

O jornalista e escritor paulista Zuza Homem de Mello sustenta que são menos distintos atualmente os limites entre MPB e música clássica: “A barreira é muito menor. A música de Luiz Tatit ou Guinga aproxima-se muito mais da de Villa-Lobos ou Radamés Gnattali que daquilo que hoje tem apelo pop, que é Ivete Sangalo, Ana Carolina. A atração delas é numa outra região, às vezes você nem sabe o que as letras querem dizer”. 

Ele situa a MPB perto do jazz, como música para ser ouvida, e não dançada. E mais ligada, talvez, dos gabinetes que das multidões. Outro paradoxo, pois o jazz nasceu dançante, “popular”, como o próprio Zuza esmiúça em Música nas Veias (Editora 34, 360 págs., R$ 46). A MPB talvez repetisse esse destino, de lenta viagem da explosão comercial à conversão em peça de museu. E os salões que já tocaram jazz, gafieira e rock hoje tocam funk e tecno. “A música dançante sempre foi mutante. O que é hoje não será amanhã”, avalia. 

O antropólogo Hermano Vianna reflete sobre a elitização da música “popular” com indagações: “Será que a MPB não faz mais canções populares? Mas, se o CD da Vanessa da Mata é MPB, aquela canção com Ben Harper (um pop de alta rotação no rádio) não é popular? E será que MPB significa alguma coisa ainda? Significa o quê?” E arremata: “A quem interessaria uma definição clara de MPB? Às lojas de discos que não mais existem?” 

A cantora Olivia Hime, diretora da gravadora carioca Biscoito Fino, diz receber diariamente cinco discos de jovens que afirmam fazer MPB. “Querem dizer que fazem música nos moldes de Chico Buarque e Edu Lobo, e não axé, rock ou hip-hop.” Ela reconhece os paradoxos da sigla: “É contraditório. Essa música passa a não ser popular, pois não é mais cantarolada”. 

Para quem não se ajusta bem aos cânones da MPB, o sentimento parece ser de inadaptação. “Existe uma separação, né?”, pergunta a compositora e cantora carioca Teresa Cristina, próxima ao samba. “Leio em notinhas e pesquisas por aí, ‘Chico Buarque, compositor’, ‘João Nogueira, sambista’. ‘João Bosco, compositor’, ‘Nei Lopes, sambista’. Quem escreve nem se dá conta da separação.” Preocupada com a música feita mais “para separar” que “para unir”, acrescenta: “Sinto que há uma resistência de assumir o samba como MPB, que as pessoas gostam dessa divisão como idéia de sofisticação. ‘Tal coisa não é mais samba, virou MPB porque se sofisticou’”. 

“Essa sigla me incomoda muito, porque o Brasil que vejo é muito diferente. A MPB vende um Brasil que não é o Brasil, com papel celofane, sofisticado”, reivindica o paulista Leandro Lehart, ex-integrante do grupo de pagode Art Popular e entusiasta da mistura de samba com outros gêneros. “MPB é como se fosse um clube, a que algumas pessoas têm acesso e outras, não. Ouvi de radialista que minha música não toca em rádio de MPB porque sou pagodeiro, ‘as pessoas vão se incomodar de ouvir aqui’. Não faço questão de fazer parte dessa sigla, ela não acrescenta nada. Meu trabalho é popular, de massa”, afirma, do alto de agenda de shows lotados Brasil afora, nos quais vende o CD Mestiço, lançado artesanalmente, sem gravadora. 

“Minha geração usou o samba porque pandeiro é mais barato que bateria, um cavaquinho custa menos que um contrabaixo. Sou fã de Raul Seixas, James Brown, Djavan, e economizava para comprar os tamborins de plástico que o Mappin anunciava na tevê”, completa, remetendo à cisão social por trás das músicas. 

“Nunca na minha vida usei esse termo. Podem me colocar em qualquer outro lugar, só não quero me localizar na MPB”, afirma o paulista Luiz Tatit, cantor, compositor, acadêmico e escritor. Autor de música elaborada na tradição de Noel Rosa e Lamartine Babo, ele explica a aversão ao termo: “Para mim, MPB tem uma conotação muito conservadora. Denota algo que parece de qualidade, mas é estéril, porque não pode se misturar, não pode ser rap, nem reggae, nem rock”. 

Refere-se a uma “atitude erudita” no topo da MPB e faz ressalvas ao modo como se costuma discriminar canção “sofisticada” de “comercial”. “A música brega é muito mais acessível e tem sempre um grande público, uma perenidade absoluta. A MPB se encaixa num segmento de elite, como se fosse mais elaborada. E não é, porque, quanto à melodia, é tudo mais ou menos a mesma coisa. A avaliação da qualidade muitas vezes está fora da música, é ideológica.”

Zuza Homem de Mello faz avaliação de ouvidos abertos ao futuro: “Tenho notado que, no interior do Brasil, há manifestações de jovens voltados à música local, ao folclore, de uma seriedade incrível. São violeiros de um preparo técnico como nunca vi antes. No Rio e em São Paulo, vivemos cercados, numa redoma, e não vemos nada disso”. 

O campo de força da chamada “qualidade” musical foi tensionado de modo dramático pelos tropicalistas de 1968. “Minhas tias diziam: ‘Esse negócio de vocês não é música, é ritmo’. Para elas, éramos a barbárie”, diz o baiano Tom Zé. E lembra um episódio do festival de 1969: “Tínhamos o gosto pela música caipira, que não se podia contar a ninguém. Quando eu e os Mutantes fizemos 2001, uma música caipira moderna, ela foi apaixonadamente odiada por Hebe Camargo. Ela não podia nem ouvir, porque era o passado que não queria lembrar. A platéia reagiu como Hebe, e 2001 teve primeiro lugar no júri e último no júri popular”. A dissociação acontecia também na cabeça do público, que afinal podia rejeitar 2001 porque era “caipira”, ou porque era “moderna”, ou por ambos os motivos, espalhados por um salão onde a música tentava simular uma democracia, em plena ditadura. 

Dois anos antes, em 1967, o bossa-novista Sérgio Ricardo quebrara o próprio violão durante a apresentação do samba Beto Bom de Bola, vaiado por uma platéia participativa e radical. Era tempo de guerra e, como assinala Tom Zé, “pela teoria da guerra, países vizinhos sempre brigarão”. A MPB iniciava a viagem da glória ao gueto e os estilhaços das batalhas de então se fazem sentir no território de facções beligerantes que em 2008 a música brasileira ainda não consegue deixar de ser.

Deixado para trás?

18 julho 2008

Fermentada e inflamada no underground paulistano, a banda Cansei de Ser Sexy consolida ainda mais a sua internacionalização com o álbum Donkey. O disco foi gravado no estúdio da Trama (a primeira gravadora dos CSS) em São Paulo, saiu pela gravadora norte-americana SubPop e mobiliza expectivas e reações na Inglaterra, onde a banda está radicada.

Ainda assim, prevalece um rastro de sintonia com o Brasil natal. Pois, diferentemente do que aconteceu por exemplo com o grupo curitibano Bonde do Rolê (cujo CD de estréia saiu há mais de um ano lá fora, pela Domino, e só agora ganha edição nacional, pela EMI), Donkey chegará ao patropi com poucos dias de demora, ainda pela Trama, em edição convencional ou em download gratuito pelo site da gravadora, dentro do projeto Álbum Virtual.

Assuntos como os mencionados acima nortearam entrevistas que fiz com três dos cinco CSS – Luiza Sá por telefone, de Londres, Adriano Cintra e Ana Rezende por e-mail, também de lá. À estrela mais reluzente do grupo, Lovefoxxx, mais uma vez não tive acesso, e pelo que percebi nos arrastões de mídia ao longo da semana, ela parece andar meio arredia a falar com o brazix muamba (pPor que será, hein?). A elas, as entrevistas [e, ah, leitor(a), você é testemunha, não fui eu que citei, nenhuma vez, certos totens-medalhões da MPB que nunca saem da boca de dez entre dez astros brasucas, ainda que sejam os iconoclastas CSS…]:

Primeira

Pedro Alexandre Sanches – Como vão as coisas para o CSS?

Luiza Sá – Vão bem, num ritmo parecido com o do ano passado, mas com mais organização e maturidade. Ficamos mais business class, apesar de que ainda não viajamos de business class [ri].

PAS – Como vocês estão estabelecidos atualmente? Todo mundo tem residência fixa em algum lugar?

LS – Todo mundo tem casa em Londres. Adriano tem uma casa, Carol [Parra] e Ana moram em outra, Lovefoxxx mora em outra com o Simon [Taylor, líder] dos Klaxons. Em tour, isso nem faz diferença, porque aí moramos na estrada.

PAS – Há uma identificação maior com Londres, então?

LS – Londres é a casa, é onde está a empresa do nosso manager, onde acontece a maioria das coisas.

PAS – Quer dizer, não é exatamente que vocês escolheram Londres, mas que é o lugar mais prático para ficarem?

LS – Foi Londres que escolheu a gente (ri).

PAS – Em Londres tem a NME [a New Music Express, revista inglesa que os colocou na capa no lançamento de Donkey]…

LS – Não é só a NME. Aqui a gente tem um status que não tem em qualquer outro lugar. Em Paris está acontecendo algo parecido agora, mas o lugar principal é mesmo Londres.

PAS – Essa proximidade maior com Londres se reflete de algum jeito na sonoridade do segundo disco?

LS – Não, o disco refletiu mais o que a gente é ao vivo, e sempre foi. A gente se tornou uma banda melhor do que era no primeiro disco, mas sempre fomos roqueiros. Dizem: “Ao vivo vocês são mais rock”. A gente não sabe por que o CSS é visto como electro. O primeiro disco era mais eletrônico, mas a gente sempre foi roqueiro, sempre se identificou mais com isso. É óbvio que amamos o pop e tentamos fazer na nossa cabeça o que achamos que é pop.

PAS – O electro também não está mais tão na onda quanto na época do primeiro disco, né?

LS – É, mas para o público a gente ainda é electroclash, ainda somos uma banda de rock com um monte de sintetizadores.

PAS – O idioma português desapareceu de vez neste segundo disco…

LS – Um jornalisa disse que a única coisa em português nesse disco é “Cláudia Ohana”. Só tem “Cláudia Ohana” e “vitaminas” [ambas são citações da faixa Jager Yoga]. Esse disco foi feito num momento em que a gente estava envolvido em tanta coisa que essa foi a última preocupação. O português é uma língua muito complicada para fazer pop e rock. A gente não é Chico Buarque nem Caetano e Gil para escrever em português, e a gente não gosta muito das bandas brasileiras de rock.

PAS – Tudo isso leva à conclusão de que vocês não são mais uma banda brasileira, mas sim inglesa, ou talvez do mundo?

LS – Somos uma banda do mundo. Na verdade, essa preocupação é de gente mais velha. É óbvio que a gente é brasileiro e sempre vai ser, mas essa não é a nossa maior preocupação, nem é a dos fãs mais novos.

PAS – Talvez seja uma preocupação daqui do Brasil, de querer saber se vocês ainda são “nossos” ou não…

LS – Tem isso, o brasileiro ouve e diz “isso sou eu, ou não sou eu?”, uma necessidade grande de ser…

PAS – Falo por mim, a gente nunca teve uma banda que seguisse um caminho como esse que vocês estão seguindo. Sinto orgulho, e fico querendo que vocês continuassem a ser “nossos”.

LS – A gente é brasileiro, claro, mas acho bom ter a organização que tem aqui. No Brasil a gente não poderia viver disso. Se não tivesse saído… As formas de trabalho no Brasil não são muito justas.

PAS – Apesar disso, o disco foi gravado em São Paulo.

LS – O disco foi gravado em São Paulo, e isso foi muito bom. Estávamos em casa, no calorzinho, podíamos comer fora, andar na rua sem nenhuma mídia ou gavadora enchendo o saco. Foi bom ter essa liberdade. Se fosse em Londres, teria muita gente querendo entrar, ouvir. Gostamos de não ser muito famosos aí, ser meio anônimos. Não que aqui sejamos tão famosos assim, mas é diferente. É uma sensação boa, ter o escape que é a nossa casa.

PAS – Você falou de mídia e gravadora enchendo o saco. O assédio é muito grande?

LS – A Subpop não enche o saco, nem um pouco, nunca ouviu o disco antes de ficar pronto. Na mídia inglesa, principalmente, tem um assédio grande. Na França estamos começando a viver isso, no Japão também.

PAS – O disco foi totalmente gravado aqui, ou foi parte aqui, parte fora?

LS – Foi escrito em turnê e gravado inteiro no Brasil. A mixagem foi feita em Los Angeles, com um cara famoso, que mixou Madonna e deu a maior diferença, uma sonoridade mais igual. E a masterização foi nos Estados Unidos, acho que em Nova York.

PAS – Ou seja, escrito no mundo, gravado no Brasil e finalizado nos Estados Unidos.

LS – É [ri].

PAS – A última vinda ao Brasil foi para gravar? Ou voltaram depois?

LS – A gente saiu do Brasil em maio, e… foi isso, a gente saiu. Temos plano de voltar para visitar família, mas nenhum plano profissional. É bom, o Brasil é bom porque a gente não gasta dinheiro. Para férias, é o melhor lugar do mundo.

PAS – Vocês são menos conhecidos no Brasil porque aqui há alguma resistência a vocês, ou é também porque vocês investem menos aqui que em outros lugares?

LS – Faz tempo que não vivo aí, não sei, tomara que esteja mudando, mas o Brasil, ainda, até que me provem o contrário… Deve ter uma cena que esteja crescendo, mas quando penso no Brasil penso em moda, não em música. Acho que na música é um pouco equivocado. Quando estamos aí tem umas coisas arcaicas, de quererem que paguem para tocar no rádio, ou que a gente vá a programas esquisitos na tevê. Não vejo a gente no Faustão. Por outro lado, temos fãs adolescentes no País inteiro. Mas eles não têm poder aquisitivo… Aí você é underground ou é Banda Calypso. Apesar de que Calypso é a banda mais legal do mundo, totalmente indie, e totalmente regional, Manaus, tecnobrega…

PAS – Também é um pouquinho electro, lá no fundo.

LS – É muito electro!

PAS – Você pode afirmar com certeza que não existe jabá aí? ENão pode ser que o jabá seja mais profissional, mais institucionalizado, que exista e vocês não fiquem nem sabendo?

LS – Não existe jabá aqui. As rádios escolhem, se gostou vai tocar, se não gostou não vai. É claro que existe política, cada um querendo que a gente dê o single para eles antes. Mas isso é assim mesmo. A Inglaterra é diferente do mundo inteiro, aqui ainda se vendem discos.

PAS – Mas mesmo essa cultura de single é algo profissionalizado. Estamos acostumamos, mas mais natural seria cada rádio escolher a música de que gostou, não necessariamente um single pré-determinado…

LS – É, existe um protocolo adquirido, e algumas músicas que fogem disso e fazem sucesso espontaneamente.

PAS – Qual é o primeiro single de Donkey

LS – O primeiro foi Rat Is Dead, agora é Left Behind, depois vem Move. Lançamos Left Behind ontem [terça-feira 15] no YouTube. Nenhum jornalista do Brasil perguntou disso.

PAS – Eu não sabia…

LS – Foi dirigido pela Renata, uma amiga brasileira que mora fora e é da turma do [estilista] Dudu Bertholini, dos abravanistas. Não sei exatamente o que a gravadora vai fazer com ele, mas é o clipe oficial da música.

PAS – O maior profissionalismo que você citou no começo torna as coisas um pouco menos divertidas para vocês?

LS – Quanto mais gente tiver cuidando das coisas chatas, mais legal é para a gente [ri]. Por outro lado, a gente sabe onde vai estar em todos os dias do ano, isso é meio maluco.

PAS – É um pouco assustadora essa idéia, não é? Não dá um pouco uma sensação de gaiola?

LS – Para mim é estranho, eu gosto da aventura diária. Mas, se é profissional, deve dar liberdade também saber exatamente onde se vai estar. Mas tudo surpreende, e é bom aproveitar os momentos em casa. A grande lição que aprendemos nestes anos é viver aqui e agora.

PAS – Na última vez que falamos, você citou turbulências hormonais, a dificuldade de se adaptar à rotina de turnês…

LS – É, eu melhorei, fui ao médico. Foi difícil me adaptar com tanta mudança. Agora sei lidar melhor, até de forma física.

PAS – Adriano mencionou, numa entrevista recente à revista Junior, que hoje vocês bebem menos, fazem menos loucuras.

LS – É verdade. Porque ou você se cuida, ou vai ser a Amy Winehouse.

PAS – É curioso que, no Brasil, vocês pareciam ir mais para esse lado mais doidão…

LS – É, mas no Brasil tem uma leveza que não tem em nenhum outro lugar. Aqui, quando as pessoas se acabam, é deprê, é mais pesado. É frio, as pessoas ficam depressivas. Daquela vez que nós conversamos, eu estava completamente louca, até porque havia muita coisa errada, de dinheiro, dívidas, mentiras.

PAS – Pois é, houve a ruptura com o empresário [Eduardo Ramos] e a saída da Ira Trevisan. Ela era namorada do Eduardo, teve a ver com isso?

LS – Acho que não namora mais, parece que está namorando o cara do Air, estudando moda na França. Desde sempre ela disse que música não era a vocação dela, e sempre foi muito segura como estilista. Entendo que a situação de ela ter namorado o nosso… não-sei-o-quê… deve ter feito as coisas mais estranhas. Mas foi melhor para todo mundo, e veio dela, foi natural.

Segundo

PAS – Você disse numa entrevista recente à revista Junior que tem namorado aqui no Brasil e volta freqüentemente para visitá-lo. É uma ponte que permanece unindo você ao Brasil? Há outras pontes, além dessa?

Adriano Cintra – Minha família e meus amigos. E as padarias, o centro da cidade, o Estadão e o Yamaga, meu restaurante japonês preferido!

PAS – Como vão seus sentimentos em relação ao fato de a banda (e por conseqüência seus integrantes) ser “brasileira”, “inglesa”, “do mundo”, ou nenhuma dessas coisas, ou todas elas?

AC – É um sentimento meio esquisito, mas desde o começo da banda rolava algo parecido. É electro? É rock? É sério? É palhaçada? E é um clichê muito grande falar que “encontramos” nossa brasilidade depois de passar tanto tempo longe. Mas sabe que é a mais pura verdade? Outro dia fomos todos no Xodó da Leninha bater um pratão de feijoada, ouvir um pagode e tomar caipirinha! Assistimos muito felizes à Record Internacional, estava passando uma novela bizarra. Ficamos bastante felizes de achar pão de queijo congelado pra vender no Minas Transfer. E eu tenho ouvido muita música brasileira, muito Caetano, muito Chico. Los Hermanos. Tiririca.

PAS – Sim, mas… O que é o Minas Transfer?

AC – Hahaha! MInas Transfer é tipo uma venda que só tem produtos brasileiros, tipo bala Sugus, gelatina Royal, biscoito Bono, ahhaha!

PAS – O que é o Xodó da Leninha?

AC – Xodó da Leninha é um restaurante em que você paga sete libras e come até explodir, devia chamar Explosão da Leninha! Hahaha, tem guaraná e pudim de leite condensado. E toca pagode e passa Record na tevê!

PAS – E muito Caetano, Chico, Los Hermanos e Tiririca, sei, sei… E nada de Klaxons, Scissor Sisters e Beyoncé, né?

AC – Ah, muito Tilly and the Wall, Lykke Li, Natalie Portman’s Shaved Head, Ssion, Metronomy. O disco novo do Metronomy é genial.

PAS – Tive a impressão Donkey é um disco mais sério que o primeiro. Você acha que é?

AC – É mais sério por vários motivos. Primeiro que eu tive dois anos para fazer esse disco. Compus as músicas no meio da turnê sem fim, longe de casa, SEM CASA. Passando por muitas dificuldades, sem dinheiro. Com saudades de tudo, pensando se estava valendo a pena. Bebendo todo dia, porque tinha show todo dia. Tomando um monte de Frontal, porque estava com medo de viajar de avião depois do acidente em Congonhas, e a gente pegava avião quase todo dia. Foi um período bem turbulento, eu nunca vou me esquecer. E o disco é um retrato de tudo isso, não ia ter como não escrever músicas sobre isso tudo… Então acho que é um disco mais “sério”, assim, entre aspas. E eu estou muito feliz com os comentários que tenho lido, estamos fazendo muita imprensa e todo mundo “entendeu” esse disco. É só um disco! O segundo disco. Vamos fazer o terceiro, o quarto, o quinto! O DVD… Só acho que não vamos encarar um acústico!

PAS – Acho que foi na Junior, também, que vi você dizer que os CSS hoje bebem menos, fazem menos loucuras. Verdade? Por esse lado também estão mais sérios, profissionais?

AC – Não, a gente cansou mesmo. Beber e fazer festa pra gente virou sinônimo de fazer show, então quando eu não tenho show, eu quero mais é ficar em casa jogando Wii, fazendo remix, lendo. Tenho lido bastante, agora estou relendo Cem Anos de Solidão em inglês para ver como fica diferente. Eu fiquei obcecado e li todos os livros do Augusten Burroughs (do Running with Scissors) de uma vez só, tipo em um mês. Agora estou escrevendo bastante, mas não sei o que vou fazer com isso, cansei de confusão!

PAS – Por que o sumiço de canções em português no novo disco? Foi desejo de vocês, prerrogativa de gravadora, necessidade devido às características que a banda adquiriu, o quê?

AC – Ai, Pedro. As músicas em português do outro disco eram brincadeiras… Bezzi, Acho um Pouco BomAcho um Pouco Bom ainda é um pouco menos brincadeira, eu fiz de raiva do meu emprego. E Superafim, que é a música em português que eu mais gosto, foi feita junto com o Carlos Dias. Ele é que sabe escrever bem em português. Eu morro de vergonha das coisas em português que eu escrevo, das letras em português. Na minha outra banda eu tentei escrever umas musicas, mas eu morro de vergonha de mostrar. E, como estamos morando aqui em Londres, só fazendo show fora do Brasil, temos falado muito inglês, quase o tempo todo. Então foi muito natural não escrever nada em português. Agora o português é nossa língua secreta.

PAS – Gosto da sua resposta, e entendo totalmente os sentimentos atrás dela. Mas, ainda assim. Umas brincadeiras em português ali pelo meio não seria muito do gosto das gravadoras e do show business bem mais sério e profissional em que vocês estão integrados, em comparação cá com a realidade cá do, er, Terceiro Mundo, não é mesmo?

AC – Ah, sim, quem sabe a gente faz alguma coisa de novo em português. Acho que na história desse disco não cabia nada em português…

PAS – Por que o disco foi gravado em São Paulo? Em que isso influenciou no resultado final dele?

AC – Depois de tanto tempo fora, a gente queria passar uns meses em São Paulo. MORAR em São Paulo.  Foi a melhor maneira que encontramos. Fora que gravar no estúdio da Trama foi uma experiëncia incrível… Ja tínhamos trabalhado lá, mixado o outro disco. E escolhemos o Rodrigo Sanchez para gravar, ele que mixou o primeiro disco. Foi uma coisa em família. O João Marcello [Bôscoli, presidente da Trama] deixou eu usar os teclados dele. Isso teve uma importância imensa no som do disco, poder fuçar em todos os teclados do João! Ele foi muito muito muito legal conosco, todos lá na Trama foram. Foi muito tranqüilo e produtivo ficar em casa, comendo bem, indo na academia, vendo os amigos. Isso influenciou MUITO o resultado do disco.

PAS – E a “seriedade” de Donkey, é mais londrina, ou mais paulistana?

AC – É super paulista de Santa Cecília, a baixa Higienópolis. Era lá que eu e a Lovefoxxx morávamos.

Terceira

PAS – Da última vez, falamos sobre as dificuldades de adaptação com a rotina de turnês internacionais e sobre o distanciamento do Brasil. Essas coisas se acomodaram de lá para cá? Como estão as coisas hoje?

Ana Rezende – Hoje em dia as coisas estão bem melhores do que há um ano. O principal motivo é que nós finalmente construímos uma estrutura decente à nossa volta. Tinhamos um empresariamento amador que nos prejudicou muito quando saímos do Brasil. Passamos dois anos morando em lugar nenhum, e tendo a nossa mala como “casa”. Ano passado foi o ano da transição, em que conseguimos tirar tudo de ruim que estava nos circulando, e agora as coisas estão bem melhores. Moramos em Londres, que é o lugar mais central em que poderíamos morar, e sabemos bem o que estamos fazendo, ao contrário do primeiro disco. A gente não entendia nada que estava acontecendo, e nos deixamos levar por pessoas não muito bem-intencionadas. Isso nos fez acordar para muita coisa, e nos transformou numa banda melhor em todos os sentidos. Não voltamos muito ao Brasil, mas agora estamos trabalhando muito por conta do lançamento do disco. A idéia é trabalhar bastante agora, e depois aproveitar umas férias bem longas com a família no Brasil.

PAS – Entre as primeiras impressões que tive ao ouvir o disco novo, me pareceu que, mais até pela parte musical, vocês estão mais sérios, menos brincalhões, digamos assim. Existe isso? A maior profissionalização poderia ter o efeito colateral de tornar as coisas um pouquinho menos divertidas?

AR – Não menos divertidas. Acho que pelo fato de estarmos mais confortáveis com o que estamos fazendo, em todos os sentidos, nos divertimos muito ainda, fazendo o que fazemos. Não é que a gente pode reclamar do nosso trabalho, e achar tudo chato seria meio ridículo! O fato é que esse disco foi escrito em meio a uma fase muito turbulenta pela qual a gente passou. Algumas letras são, sim, mais pessoais, e acho que isso soa mais sério, mas acho que o resultado do disco é muito “divertido”, “pra cima”, energético etc. A gente ultrapassou os nossos problemas, e crescemos muito. Hoje em dia estamos muito felizes com o que está acontecendo, e acho que o disco reflete isso também. As letras são um pouco mais subjetivas em relação à emoção que a parte instrumental da música traz para quem está ouvindo. Nós somos uma banda que faz música pop. Ninguém ouve All That She Wants do Ace Of Base e percebe que é uma música sobe aborto. A gente é meio assim. Mesmo falando sobre a coisa mais séria do mundo, a nossa música vai sempre trazer uma coisa alegre, e uma vontade de dançar, ou de ser feliz… Pelo menos é essa a intenção.

A gente passou dois anos tocando praticamente todos os dias. É claro que estamos melhores nos nossos instrumentos, mas isso é uma coisa natural. Só uma pessoa muito limitada não melhoraria nada praticando quase todos os dias do ano. Isso não quer dizer que somos “músicos”. Continuamos com o mesmo humor e a despretensão de sempre. Não achamos o que fazemos relevante e não queremos mudar o mundo.

AR – O abandono do idioma natal no segundo disco foi um desejo de vocês, uma necessidade pelas características que a banda adquiriu, o quê?

PAS – Pra gente sempre foi mais natural cantar em inglês. Nunca sentamos para conversar sobre isso. Foi uma coisa que “veio”. Provavelmente por dois motivos:

Um, que crescemos ouvindo bandas de rock alternativo que cantavam em inglês. A nossa herança musical brasileira foi uma coisa adquirida quando “viramos adultos”, e nós nunca aplicamos isso a nada que criamos. Sempre que fazíamos uma música em português, era um tipo de brincadeira, como Bezzi, ou Superafim

Dois, a língua portuguesa é muito bonita, extremamente bem estruturada e complexa, e acho que por isso é a língua perfeita para a bossa nova, que é uma música igualmente estruturada e complexa. O ingles é simples e fácil de manipular, por isso é a língua perfeita para o rock. Somos uma banda de rock, e eu sinceramente não consigo pensar bons rocks cantados em português. Tirando a Rita Lee, mas ela está numa categoria de pessoas geniais, assim como o Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque. Nós não somos geniais, então preferimos não entrar nesse terreno, e nos mantemos num terreno mais familiar, que é cantar rock em inglês.

PAS – Que coisas o CSS ganhou, que coisas perdeu, desde a última vez que nos falamos?

AR – Perdemos muito diheiro por sermos ingênuos e não cuidarmos do que era nosso. Ganhamos MUITA experiencia no melhor sentido dessa palavra.  Aprendemos a ficar com o olho bem aberto em relação ao que ganhamos.

Ser uma banda punk que toca em lugar tosco, viaja mal e dorme no chão é legal por uma semana. Somos meninas. Gostamos de dormir bem, tomar banho e ter nossos confortos. O que aconteceu com a gente foi uma coisa incrível, mas temos conciência agora de quanto o nosso trabalho vale, e de como é importante ter um chuveiro e uma cama boa pra dormir. Afinal, fazemos shows cinco ou seis dias por semana quando estamos em turnê. Aprendemos a cuidar da nossa saúde, sem parar de nos divertir. Temos o melhor trabalho do mundo. Acho que somos pessoas de sorte, que estavam no lugar certo, na hora certa e fazendo a coisa certa, mas sabemos o quanto trabalhamos para chegar onde chegamos, e somos muito felizes e orgulhosos em relação a isso!

O “prefeito” de Xerém

4 abril 2008

Texto-reportagem extraído da “CartaCapital” 490, de 9 de abril de 2008, nas bancas desde a sexta-feira 4.

O PREFEITO DE XERÉM

Um dia na vida interiorana de Zeca Pagodinho, com cerveja, angu com miúdos e distribuição de cestas básicas

 

Lá fora, uma longa fila serpenteia sob o sol da manhã e do início da tarde. Há uma farta distribuição de cestas básicas, que o dono da casa controla cá de dentro, entre gritos, broncas e uma dose considerável de divertimento. Embora a situação lhe confira ares de líder comunitário, cacique ou chefe político interiorano, ele rejeita com veemência qualquer rótulo dessa natureza. “Ah, não faz isso comigo, porra. É atividade de gente, você também pode fazer isso”, protesta. Não, ele é cantor, músico, sambista, só. Chama-se Jessé Gomes da Silva Filho, mas é nacionalmente conhecido como Zeca Pagodinho. 

O cenário é Xerém, eleito como segunda residência há mais de 20 anos pelo carioca suburbano do Irajá, hoje estabelecido no bairro de classe alta da Barra da Tijuca. Distrito do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, a cerca de 50 quilômetros do Rio de Janeiro, Xerém é local pobre, plantado em área intensamente verde, ao pé da serra de Petrópolis. O repórter chega de táxi, às 10h30, e encontra Zeca com um copo de cerveja na mão, de bermuda, descalço e sem camisa, torso adornado por uma tatuagem de Cosme e Damião e barriga proeminente, aboletado num quiosque no pátio em que se misturam automóveis, cavalos e uma charrete, a meio caminho entre a ampla ala residencial da família e a rua. 

As 997 cestas estão amontoadas numa das salas principais da casa, e são fruto de uma “parceria” que o artista firmou com uma marca de sapatos. Zeca compareceu e levou amigos da Globo ao desfile da marca. Em troca, recebeu as cestas levadas como ingressos, em nome da Escolinha de Música Mata Virgem, que ele construiu do outro lado da rua. 

Os primeiros beneficiários da assistência entram de bicicleta no pátio. Cumprimentam de cabeça baixa o benfeitor, trocam com ele uma ou duas frases tímidas e se vão. A rua se agita pela notícia de que é dia de Zeca distribuir cestas. O portão se fecha, e o funcionário Negão, responsável pelas entregas, cumpre a tarefa com uma expressão de medo no rosto, controlado pelo patrão em regime simultâneo de pressão e simpatia.

Ao lado da churrasqueira, funcionários com pinta de compadres (ou vice-versa) preparam o angu com miúdos que será servido no almoço. Abridores de garrafa pendurados por barbantes facilitam o ritual quase ininterrupto de abrir cervejas, depois acondicionadas em recipientes de isopor ornados por emblemas da Portela. Jane Barboza, divulgadora do artista junto à imprensa, chegou com a filha pequena já vestida de biquíni, pronta para mergulhar na piscina com a caçula de Zeca, de 4 anos. O sambista tem mais uma filha adolescente e dois filhos universitários, que cursam Direito e Administração. 

Para tirar fotografia, a assessora pede que ele vista uma camisa. Por vontade própria, ele mostraria a barriga. “Eu não me importo também, não”, concorda Mônica, a esposa há 21 anos, sorriso largo espalhado no rosto. “Eu é que sou a mala”, lamenta Jane. “Demorou tanto para conseguir essa barriga, né, Zeca?”, brinca Mônica, num vaivém constante entre o quiosque e o portão de entrega das cestas. 

O repórter é convidado a sentar e se integrar ao burburinho. “Tu não bebe, não, cara?”, provoca o anfitrião. “Estou trabalhando.” “Eu também estou, pô. Vamos resolver logo essa questão.” O repórter agradece, mas se furta da cerveja, dos pedaços de pão que Zeca come com apetite, de outros convites eventuais. Limita-se a uma água industrializada, aromatizada com limão, da mesma fábrica de bebidas de que o artista é garoto-propaganda. 

De dentro da vulnerável fortaleza, Pagodinho volta e meia troveja uma ordem, em tom algo autoritário, algo brincalhão. Bota banca sobre a população carente que protege. Criança não pode. “É cesta básica. Se você tiver dez filhos, vai mandar os dez filhos aqui?”, indaga.

O paraense Gilberto, que antes de trabalhar para Zeca foi funcionário de Gilberto Gil por 15 anos, denuncia: tem gente trocando de camisa para entrar na fila de novo. O chefe solta uma bronca de longe, para disciplinar. Mônica reaparece: “O cara saiu todo feliz, disse ‘ai, que legal, ele falou comigo’”. “Só se foi para dar um esporro”, Zeca diverte-se, entre risos gerais.

O atual ministro da Cultura é hoje um dos amigos mais próximos do sambista. “Você imagina, chega um Gil aqui, arrebenta até o portão. Mas ele veio duas ou três vezes, cantou aí até de madrugada. Chega aqui, nego entra no espírito, vai comer um angu. Não temos área vip. Aqui é a geral, sempre.” 

Política? “Não falo disso com ele.” 

Um cachorro vira-lata ronda o quiosque, e enternece o dono da casa: “Aqui é legal porque nego vem e traz cachorro. Tem sempre um bocado”. O portão de acesso ora se abre, ora se fecha, mas o ambiente nunca perde um aspecto de casa aberta, espontaneamente descontrolada. 

“Aqui come todo mundo”, discursa o artista que se diz apolítico e não é candidato a nada, mas andou acolhendo ali em Xerém, na campanha eleitoral de 2002, um certo Luiz Inácio Lula da Silva. “Aqui tem você que é jornalista, ele que é deputado, eu que sou um artista, maluco, mendigo. Todo mundo que passar por aqui entra, senta, come, conta uma história. Só o que não pode é ser abusado.”

Sim, está presente um deputado federal, Reinaldo Betão, do Partido da República, hoje secretário de Agricultura de Duque de Caxias. É amigo do sambista desde antes de entrar na política. Chega à hora do almoço, conversa, conta do bicho-preguiça que encontrou outro dia. “Pô, por que não levou para o meu sítio?”, brada Zeca. “Não pode, tem o Ibama”, reage Betão. 

Outra visita é um adolescente portador de síndrome de Down, que veio buscar sua cesta. “Tá morando onde agora, Léo?”, pergunta o músico. “Eu moro aqui, moleque”, Léo retruca, sob gargalhadas gerais. O “padrinho” serve pão com fígado, e sublinha repetidas vezes: “Não vai deixar ninguém roubar sua cesta”.

A entrevista não acontece, ao menos não como imaginada pelo repórter habituado aos ditames da indústria cultural. O entrevistado responde brevemente às questões, desvia-se dos temas, dirige o entrevistador rumo ao bate-papo errático. A certa altura, ocorre ao repórter que a saraivada de perguntas solicita muito do artista, mas nada oferece em troca. Resolve aceitar um copo de cerveja. 

Pela hora do almoço, um caminhão se insinua na rua estreita por entre a pequena multidão. É da mesma marca de cerveja que Pagodinho anuncia, e veio entregar 30 engradados. “Tenho uma cota por ano”, explica. “Mas tenho de pedir cinco dias antes, e como nada aqui é programado, às vezes vou lá e compro, fazer o quê?” 

Mônica passa perto do cozido: “Eu não gosto dessa comida aí, não, mas está cheirosa para caramba”. Explica que lá dentro, na “ala feminina” da casa, o cardápio é diferente. “Hoje vou comer maionese com hambúrguer”, ri. Bem no portão fronteiriço, um dos carregadores derruba uma caixa. Garrafas quebradas se espalham pelo chão, sob os olhos sedentos da torcida lá fora. O dono da bola manda entregar uma cesta para cada um dos trabalhadores da cervejaria. 

É deixa para entrar em assunto delicado, aquele pelo qual Zeca mais aparece na mídia. Por vezes, ele parece o homem-cerveja em pessoa, com cachês volumosos, mas também enroscado no ônus de permitir que tal imagem se cole a ele assim. 

Em que a fase de homem-sanduíche de cerveja transformou sua vida? “Ganhei uma grana, né, cara? Pude ajudar uma porrada de gente, pude me ajudar também. Foi bom para a minha carreira.” 

Em 2003, ele se transformou em pivô de guerra feroz entre duas cervejarias. Tal como num caso romântico, rompeu com uma, “experimentou” outra, voltou à primeira “por amor”, foi acusado pela “namorada” preterida de “traíra”. Tudo sob o olho público, diante das maiores vitrines publicitárias do País. Em 2006, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, defendeu o veto de celebridades em propagandas de cerveja e, ao se voltar contra o teor abusivo e preconceituoso saído das mentes dos publicitários, mirou artilharia contra Zeca: “É preciso pedir que ele pare. É patético, constrangedor”. 

O artista até hoje segue em apologia na tevê, de “Zeca-feira” e criações mirabolantes afins. Talvez acuado, ele costuma exacerbar a autodefesa, mas admite que o assunto o chateia. “A gente faz tanto disco bacana, ninguém fala porra nenhuma.” 

Tal situação é fruto de uma inversão de que Zeca é vítima, mas pela qual também é co-responsável. A publicidade não inventou o Zeca “biriteiro”, ostensivo em cada um dos 18 discos que lançou desde 1986. A sombra marqueteira se apoderou dele, a ponto de falseá-lo como se só se preocupasse com isso. 

Tributário de uma linhagem que inclui o nobre Monarco como influência e Beth Carvalho como madrinha, Zeca é fértil em lançar sambas que abordam problemas sociais, menores abandonados, atitudes não-violentas, sátira comportamental, o viés democratizante da pirataria. Diluiu e desenvolveu o samba rumo ao partido-alto, ao fundo de quintal. Dá guarida a uma galeria de compositores suburbanos e desconhecidos. “Torço sempre para que o cara que está fodido traga um samba perfeito”, explica.

O excesso é característica onipresente em sua obra, mas não se refere só à bebida. Seus discos fazem pensar nos versos de Roberto e Erasmo Carlos que perguntavam será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?, por entre alusões abundantes a comida, sexo, amor e uma ou outra referência velada a drogas ilícitas. Até nisso sua obra é idêntica à sua casa e, provavelmente, à sua vida. 

“Não completei o segundo grau, não pude estudar, fui fazer escola de música aos 18 anos. Aí eu já bebia, fumava, já estava perdido”, evoca. 

Escorregadio quanto ao tema cerveja, mostra que não é acrítico em relação ao que vê na mídia: “Não sou contra nada, mas hoje em dia tudo tem de falar de sexo. Você liga a tevê, sua filha está ali, ‘ué, pai, ele não estava com não sei quem?’ Para a gente que vem da ignorância, é outro choque. Como explicar para os filhos, se a gente não sabe nem para a gente mesmo?” 

Antes de partir, o repórter almoça, na “ala feminina”, angu com miúdos, maionese e um saboroso porco curtido três dias na própria banha. Jean, o taxista da volta, mora na mesma rua que o cantor famoso e conta que nem mesmo nas fases de baixa Zeca deixou de levar ovos de chocolate para seus três filhos. O carro passa pela escolinha de futebol do Fluminense e por cartazes de “Zeca Pagodinho e Banda Calypso na vaquejada”, de “Jackson Lima, o prostituto do forró” e do político peemedebista que afirma que “Caxias nunca viu tanta obra”. 

Vários Brasis convivem ali, em contraste e harmonia simultâneos, sob a sombra e os sons do prefeito informal de Xerém.