Eu também existo, eu também sou gente

Nos escaparam por entre os dedos, num minúsculo intervalo de tempo, Dorival Caymmi e Waldick Soriano. À parte os aspectos penosos inerentes à morte, uma sutil ironia parece morar dentro dessa “coincidência”.

Os dois fatos históricos próximos e paralelos dão margem a um mergulho nos conflitos e contradições envolvidos na relação do Brasil com a música dita “popular” brasileira e, de modo mais amplo, consigo próprio. Em outro plano, dão margem também a uma reflexão sobre o modo como costumam ser eportados esta música e este País, inclusive jornalisticamente.

Tecer homenagens a Caymmi ou escrever sobre a vida & a morte do mito é relativamente fácil. Se ele não chegava ser a unânime até o mês passado, agora pode por ora se tornar, inclusive pela ternura e pela comoção que nortearão os que sentem sua falta e os que escreverão sobre o grande artista morto.

Mas e a morte de Waldick Soriano, cantor rotulado como “cafona” ou “brega”, e nem de longe uma unanimidade, como há de ser tratada? Quão profundas podem ser as interpretações e as homenagens a esse outro artista, independentemente de quanto você gostava ou não gostava dele (e/ou de Caymmi)?

Tentemos alguma coisa. Sempre de chapelão e enormes óculos escuros, Waldick seduziu multidões sem sombra de dúvida ou conflito. Mas dividiu subterraneamente opiniões e sentimentos no topo da pirâmide cultural, econômica, social.

Nessa segunda ponta houve uma maioria que nem sequer se prestou a ouvi-lo, compreendê-lo ou assimilá-lo, e assim escondeu, atrás do silêncio, uma pesada desaprovação. Mas houve o maestro de formação erudita Guerra Peixe, que escreveu arranjos para o cancioneiro simples, direto e derramado de Soriano. E houve uma socialite como Beki Klabin, que nos anos 70 se apaixonou (literalmente) por ele e polinizou um bombástico diálogo entre castas quase sempre incomunicáveis.

“Com a saudosa Beki Klabin foi bom, quebrou aquele gelo de que Waldick Soriano era o cantor da ralé. Ela me colocou na melhor boate do Rio, foi um sucesso maravilhoso. Depois fui para São Paulo, idem, só tinha elite, empresário. Só casaca”, Waldick me disse em setembro de 2007, numa entrevista telefônica que culminaria na reportagem “Não sou cafona, não”, publicada na edição 464 de CartaCapital. “Tinha gente da alta que comprava disco meu escondido”, constatou.

Falar de morro morando de frente pro mar/ não vai fazer ninguém melhorar, cantava o jovem Marcos Valle em 1965, em reação ao avanço crescente da chamada “canção de protesto” por sobre os idílios burgueses da bossa nova safra 1958. Ainda que colossal, a obra de Caymmi talvez significasse um pouco isso, os problemas do mar de Itapuã relatados a partir do mar de Copacabana, se fôssemos brincar com as décadas e comparar seus versos com o imaginário e o vocabulário de Waldick Soriano.

Mas o que dizia o austero e extrovertido autor e cantor de bolerões que viveu ápice de popularidade nos anos 1970? Falava das mágoas do amor, e supostamente por conta delas proferia frases como eu não sou cachorro, não/ para ser tão humilhado/ eu não sou cachorro, não/ para ser tão desprezado (de seu maior sucesso popular, Eu Não Sou Cachorro, Não), ou eu também existo/ eu também sou gente (em Eu Também Sou Gente).

Sim, aquele narrador se dirigia à namorada do momento. Mas confira se as mesmas frases não poderiam ser arremessadas por ele a Dorival Caymmi ou a Antonio Carlos Jobim, à alta sociedade ou à elite “crítica” do jornalismo.

Mesmo se esses não ouvissem seu queixume, uma multidão de brasileiros ouvia. E se emocionava, interagia, identificava-se, nutria gratidão pelo autor. Pois o que Waldick sofria com a namorada (ou com a “nata” da MPB) seus fãs sofriam no dia-a-dia, possivelmente o dia inteiro, no emprego, na rua, no convívio social.

Por aversão ao imaginário “cafona” e à música “pobre” que o traduzia, muitos simplesmente fingiam que ele(s) não existia(m). A desaprovação a Waldick era tácita ou, quando explicitada, se travestia de condenação estética à sua obra “popular”, ou “populista”. Enquanto os intérpretes de Jobim seguiam cantando que eu não existo sem você, Waldick e os “cafonas” e “bregas” em geral eram “desprezados”, “humilhados”, supostamente por causa de suas supostas deficiências formais.

Como no samba do Pedreiro Waldemar (de Wilson Batista e Roberto Martins), simbolicamente construíam o edifício em que depois não poderiam entrar.

Mas e se por trás da discurseira estética e formalista estivessem camuflados a perplexidade, o desdém, a censura e a cegueira dos “de cima” para com os “de baixo”, ou seja, o imenso abismo cultural entre o lixeiro, o operário, a empregada doméstica e seus ricos patrões, entre Caymmi ou Jobim e os waldicks?

E se o desejo ou esforço de certos grupos por não enxergar um palmo diante do nariz provocasse neles mesmos agressividade passiva, raiva, rancor, fobia, desaprovação “estética” aos eu não sou cachorro, não, de resto quase sempre tão calados e submissos? E se a depreciação de “cafonas” escondesse, atrás da raiva surda, cega e muda, o medo formidável que os “de cima” talvez sentem dos “de baixo”?

E se Soriano e sua música, por critérios que não os de determinados grupos sociais e políticos, fossem mil vezes mais relevantes para os brasileiros que Tom Jobim ou João Gilberto? E, se fosse, quem haveria de ter coragem de dizê-lo?

E então, sob esses outros prismas, era mesmo sobre “arte” e “estética” que estávamos discursando o tempo todo?

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15 Respostas to “Eu também existo, eu também sou gente”

  1. Pedro Alexandre Sanches Says:

    E recebi aqui na caixa de e-mail uma nota de pesar do Ministério da Cultura pela morte do ator Fernando Torres.

    Mas, que curioso, não recebi nenhuma equivalente sobre a morte do cantor Waldick Soriano…

  2. Francisco Ernesto Guerra Says:

    Permitam-me pequeno depoimento pessoal.
    Naqueles anos, 75/76, com modesta atuação, dava minha contribuição na luta contra a ditadura, que começava a dar sinais de exaustão.
    Ao contrário de meus amigos, não gostava de bossanova (ou este tipo de MPB). Garota de Ipanema, Elis Regina e, especialmente, a música do “barquinho vai, a tardinha cai” é de um ridículo indizível, tão supérflua quanto os produtos anunciados na TV “shoptime”. Viva, Elis Regina estaria fazendo campanha para José Serra e Gilberto (ou seria Geraldo) Kassab.
    Mas ninguem é de ferro, meus hormônios falavam alto, no auge dos meus 18/19 anos, naqueles anos fui levado por um amigo e atrás de “um rabo de saia” começei a frequentar o circo do Sr. Mário Benelli, que viria a ser famoso anos mais tarde como o avô da Simony (do balão mágico). naquela época artistas “decadentes”, sem mercado oficial, ganhavam o seu “pãozinho nosso de cada dia” em circos das periferias. Assim conheci o Waldick e tantos outros, como Paulo Sérgio, Angelo Máximo, Wanderley Cardoso, Agnaldo Thimóteo, Mussum, Dedé e Cia (sem o Didi).
    O segundo maior “fogo” da minha vida ocorreu com o Waldick.
    Ele não cantava se não tivesse uma taça nas mãos, com sua bebida favorita, o conhaque. Naquele dia, após o show, tomamos tudo o que havia restado. Nem cachaça sobrou. Não fui embora para casa, dormi no palco mesmo, atrás das cortinas.
    Mas vamos ao que interessa, Waldick era adorado pelo público. Era amado, idolatrado. A simplicidade de sua música e o seu incomensurável carisma, atingia em cheio o coração da platéia. Letras simples, falava o que o povo queria ouvir, a realidade deles. Arrebatava a todos. Ficavam hipnotizados.
    Pergunto: Não é este o propósito do artista?
    Ou, então, pergunte você, que teve a paciência de ler este post, a qualquer pessôa na rua, citando trechos de músicas, se ele conhece Waldick e Caymmi. Tenho certeza que a esmagadora maioria se lembrará do “eu não sou cachorro não”. Já do Caymmi, me perdoem, não lembro de nada.

  3. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Francisco, obrigado pelo depoimento, li passagens lindas nele.

    E fiquei matutando na beleza que foi o circo passando pelas vidas dos artistas, e os artistas passando pela vida do circo. E lembrei que essa foi a história, por exemplo, do Roberto Carlos. Mas ouço dizer que foi também, acredite quem puder, a história do João Gilberto.

    Ouço tanto aqueles clichês de que “o Brasil é um circo”, “o Congresso Nacional é um circo”, e patati, patatá, mas… Será que não anda faltando circo na música brasileira, no jornalismo brasileiro, no Brasil?…

    A propósito, Francisco, se você ou alguém se interessar, olha aqui uma reportagem já quase antiga que fiz na CartaCapital sobre… o circo!:

    http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2006/08/o-circo-brasil.html

  4. r4f4 Says:

    Achei legal o depoimento, sincero, mas é e engraçado que a pouco estava lendo uma entrevista com o Jards Macalé no site Gafieiras e ele contando a “incrível” história por traz de o barquinho… E como esses momentos geram grandes canções. Mas é isso mesmo, é uma questão de contexto… certo?

  5. Pedro Alexandre Sanches Says:

    E aí ontem eu perguntei lá no Ministério da Cultura se não havia nota de pesar pela morte do Waldick, e hoje me responderam que houve, sim, e que por algum problema não havia chegado pra mim. Copio ela aqui, então:

    “Nota de Pesar

    Ministro da Cultura, Juca Ferreira, lamenta a morte do cantor e compositor Waldick Soriano

    Waldick Soriano foi um artista de origem humilde que conquistou uma grande legião de admiradores pela capacidade demonstrada, desde a primeira música que gravou, de interpretar a alma de seu povo. Com seu jeito franco, enfrentou os críticos e consagrou um estilo. Parafraseando o título do filme sobre sua vida, dirigido por Patrícia Pillar, podemos dizer que Waldick estará sempre no coração de seus fãs.

    Juca Ferreira
    Ministro de Estado da Cultura”

  6. Vinicius Duarte Says:

    Pô, a internet é uma maravilha, mesmo.

    Eu ando sem grana pras revistas, e uma das “perdas” dessa dureza foi não poder mais ler tuas colunas. Mais uma vez, PAS matador falando sobre a verdadeira MPB. Valeu, e vê se me suporta aqui, porque já está nos meus favoritos.

  7. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Bacana, Vinicius, fico lisonjeado com suas palavras! Ah, e dá um pulo também no http://www.pedroalexandresanches.blogspot.com, que é meu outro blog, bem mais antigo que este – lá está grande parte dos textos para a “CartaCapital”, tudo de graça, hehehe.

  8. r4f4 Says:

    Legal, não conhecia nenhum dos dois Blogs, caí aqui de paraquedas, adorei! O outro é ainda mais badalado né, mas eu acho o sistema do wordpress muito eficiente.

  9. danilo Says:

    fala, pedro, tudo bem? sobre só haver comoção quando se trata da morte de um artista “da elite”, concordo sempre com você sobre como a mídia reforça isso para os consumidores de informação “de elite”, ignorando o papel fundamental dos artistas populares. acredito que isso acontece até porquê, se não sai nada, aparecem intelectuais ou até gente comum (mas interessado por arte) para reclamar, enviar cartas para redações exigindo homenagens e tal. mas fico pensando, embora com medo de parecer ingênuo ou injusto, se devemos realmente salvar o povo de qualquer responsabilidade. é claro que são as rádios que escolhem o que o povo escuta, mas o contrário também pode ser possível. talvez, naturalmente as pessoas tenham deixado de ouvir o waldick simplesmente porque se interessaram pelos outros artistas populares que foram aparecendo, sendo injustos(?), portanto, com quem tanto lhes deu prazer. mas ninguém obrigou ninguém a deixar de gostar dele ou deixar de ligar pras rádios e pedir sua música. acho que o povo, que já o conhecia tão bem, esqueceu porque quis, não? porque eu nunca ouvi dorival caymmi em nenhuma rádio, mas quem gosta dele iria reclamar se nada fosse dito sobre a sua morte. me parece que o waldick foi esquecido não só pela mídia, mas pelo próprio povo, para quem música tem uma importância muito menor comparada a outros atrativos da vida. pelo amor de deus, não quero parecer reacionário, pelo contrário, apenas acredito que, para o povo, música é apenas entretenimento. e quem é que está errado, o povo, que deixa a cultura chegar e partir, ou a “elite”, que se apega tanto a ela?

  10. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Obrigado, r4f4!

    Danilo, acho (não tenho certeza) que entendo a sua argumentação, mas deixa eu fazer duas observações: 1) a gente não “salva” o “povo” de nada, não, né? a gente vive a colocá-lo na fogueira, sim; 2) pelo menos em termos de intenção, eu estava chamando essa discussão somente no âmbito de “cá”, das “elites” (ou quase-issos) que consomem textos como os obituários meio hipócritas dos jornais, dia após dia.

    Sim, Waldick passou, já faz tempo, pela própria dinâmica da coisa, mas a história se repete, sempre e sempre, com Joelmas e Chimbinhas, mas também com Marias Ritas e Los Hermanos, quando eles começam a lotar auditórios e ginásios de fãs alucinados… Nem sei se estou aprovando ou reprovando tais comportamentos (queria não fazer nem uma coisa nem outra), o que eu queria mesmo chamar atenção é para o “detalhe” de que só se fala que esses cortes são feitos por razões “estéticas”, mas eu não acredito mais nisso, não, eu acho que são razões ideológicas, grotescamente ideológicas.

  11. Militão Ricardo Says:

    Simplesmente brilhante o texto!
    Tá na hora de denunciar e desmascarar o enorme preconceito social que se esconde atrás da (indústria da) MPB, “de qualidade”. Tá na hora de destronar esta nobreza vampira grudada nas jugulares da cultura do povo brasileiro. O sol é para todos. Sai, bando de Chupim!!!

  12. guto Says:

    Pedro,
    Permita-me dizer também que a gente fica observando o que a folha e o estadão (não) dizem. Eu estava em Salvador no dia seguinte da morte do Waldick e fiquei muito feliz de observar o grande destaque nos jornais de Salvador. Eu até coloquei isso no meu blog. Num dos jornais, o enterro de WS dividiu a primeira página com a apresentação de João Gilberto. No outro, ele foi capa inteira do caderno de cultura. Dane-se a mídia paulistana. WS era baiano também como João Gilberto e Dorival. Lá eles reconheceram a força do cantor popular. Folha e OESP estão preocupados em livrar Daniel Dantas. E o pior é que eles conseguirão…

  13. Zé Luiz Soares Says:

    Olá Pedro, há quanto tempo…

    Então, nessa linha, escrevi algo sobre a Vanusa, que esteve no Villaggio semana passada. Se tiver tempo, dá uma olhada no meu blog.

    No mais, registre-se que adoro tudo do Dorival, talvez meu maior ídolo na MPB (tb escrevi sobre ele, apesar de não achar nada fácil fazê-lo…rs). E que respeito demais a importância do Waldick, apesar de não ser exatamente um apreciador.

    Ah, sim: popular por popular, “Maracangalha” não seria mil vezes mais abrangente que “Eu Não Sou Cachorro, Não”?

    forte abraço.

  14. Adriano Abner Says:

    Boa Tarde!

    Meu nome é Adriano Abner, sou produtor de um programa chamado Lado B da Rádio Web da Universidade São Judas Tadeu.
    Este programa objetiva mostrar músicas que nunca ou pouco tocaram nas emissoras comerciais, ou seja, músicas que foram consideradas Lado B no mercado fonográfico..
    Por isso, programadores, produtores e críticos musicais tem muito a contribuir ao nosso programa.
    Gostaria de o convidar para uma entrevista sobre esse assunto.
    A entrevista poderá ser realizada por telefone no período das 14h às 17:30.

    Desde já agradeço, e respostas podem ser enviadas neste mesmo e-mail!

    Adriano Abner
    Produtor.”

  15. Adriano Abner Says:

    O e-mail é : adrianoabner@yahoo.com.br

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