Debaixo dos caracóis dos cabelos deles

A certa altura (*) de Wave, a orquestra sobe, avoluma-se e toma conta do palco e da platéia, sob a regência de Jaques Morelenbaum e uma sinfonia de cordas que transborda afeição. Caetano Veloso e Roberto Carlos se fitam, sorriem reciprocamente, ensaiam a cumplicidade que suavizará  o decorrer do espetáculo (ou o acidentará, se ausente). CV se empolga, avança sobre RC, tenta enlaçá-lo como numa proposta de valsa. Desprevenido, Roberto rechaça o convite à valsa entre homens. Assustado, diz que não, segurando firme os braços de Caetano a relativa distância.

O que se passa nas cabeças e nos corações de ambos, nesse e nos demais momentos, é impossível adivinhar.

Mas, quanto a CV, o gesto ousado parece, aos olhos deste observador, algo tão incontido e espontâneo quanto genialmente ousado – já pensou as manchetes que os jornalões de amanhã deixariam de publicar se Caetano Veloso conseguisse extrair do “rei” da canção romântica brasileira uma valsa, uma contradança? Seria mais um gol marcado pela tropicália, maior que o leve beijo na boca entre Gilberto Gil e Silvio Santos, em 2001.

Quanto a RC, o veto protestado traduz-se, aos olhos desse mesmo observador, como susto, medo, rigidez, talvez a ternura antiga de se sentir peixe fora daquelas águas geladas. (Seriam, quem sabe, os mesmíssimos receios e inseguranças que perfuravam também o consorte?)

De todo modo, a rejeição brusca ao enlace proposto por CV parecia mesmo inevitável – pois o “rei” da música realmente popular brasileira não é, desde há décadas, um excelentíssimo “careta”? Como poderia, entre os tantos tabus que está nessa noite diligentemente conseguindo romper, ainda por cima aceitar tomar em valsa os caracóis dos cabelos de seu antípoda anti-romântico, quase romântico, muito romântico, excessivamente romântico? O que pensariam de RC e seus cabelos hoje desencaracolados as senhorinhas habituadas a receber rosas, rosas, rosas… a cada final de show (mas que excepcionalmente, nessa noite dedicada ao patrono soberano brasileiro de almeida jobim, saíram de mãos abanando)?

O gesto e o contragesto foram coisa de fração de segundos, mas condensaram todos os acontecimentos intensos (ainda que forçosamente formais) ao redor. Ambos os duelistas cavalgavam resolutamente princípios acumulados durante anos, décadas, séculos, eternidades. Por que um mero show de uns poucos milhões de reais haveria de obrigar cada um dos dois a apear das respectivas convicções?

Não apearam, e os acontecimentos seguiram o curso mais provável. Na condição de semi-rejeitado, Caetano possivelmente arcou com ônus e prejuízo maiores. Pareceu mais frio e distante dali em diante, especialmente nas várias canções que apresentou sozinho, da Inútil Paisagem que não ecoou a Paisagem Útil do tropicalista de 1968 ao Caminho de Pedra que tributou as entranhas de ACJ e a nobreza profana de Elizeth Cardoso, mas também fez ribombar, nos ouvidos deste observador, modas caipiras e a Disparada antiga de Geraldo Vandré. Os aplausos o aninharam, quase protocolares.

A tensão e o nervosismo não pareciam abandoná-lo um segundo sequer, e permaneceram no palco em igual voltagem quando CV foi ser rendido por RC. Para lá do choque elétrico de Wave, parecia óbvio e ululante que Caetano temia Roberto como Roberto temia Caetano, e que cada um ficava e tornava o outro inseguro em igual intensidade. Não deve ser para menos, quando se trata de dois desses homens que já deixaram de ser homens para virarem instituições. Quanto mais se tais homens-instituições polarizam, para o mundo que os idolatra, o ateísmo niilista versus o catolicismo fervoroso, a camisa rosa à mercê do terno azul turquesa, a rebeldia consentida e assimilada (pelo tipo de público ali presente) do (pós)tropicalista contra o convencionalismo rebelde e mal-digerido (idem) do jovem-(van)guardista.

Mas de volta ao baque maior para Caetano. Roberto voltou para sua sessão em evidente desvantagem, fosse pela menor intimidade com o repertório, pela destreza e sutileza encolhidas da orquestra de Eduardo Lages em relação à de Morelenbaum, pela condição de peixe mais ou menos fora das águas do auditório, da MPB, do elitismo que gritava nas entrelinhas.

Mas RC, peixe grande, raposa velha, emoções sempre à flor da pele, se entregou a Tom Jobim em profundidade, com nervosismo, afinco e paixão. Cantou as bossas de Antonio Carlos como peças rasgadamente românticas, o que de resto elas sempre foram mesmo. E a mágica começou a se desatar, já a partir da versão castelhana de Insensatez.

[E esse dado merece um colchete, um parêntese de dentro para dentro. RC lançava ali uma isca pop que críticos musicais costumam(os) morder vorazmente, auto-proibidos que talvez se sintam (nos sintamos) de aceitarem (aceitarmos) o “rei” do jeito que ele é: objetivo, derramado, oblíquo, determinado, comprometido com alguma simbologia de unidade latino-americana como sempre foi. Ignoram, os que detestam o romantismo em castelhano, que Roberto talvez precisasse cantar Jobim em espanhol, de raspão, antes de acumular coragem para cantá-lo em extensão, no idioma natal. Curioso é que nunca lhes ocorre cobrar, de bossa-novistas desde Tom e João, por que nunca converteram em bossa as bossas de Roberto e Erasmo.]

Pois então. Partiu de Insensatez e verteu loas mais ou menos explícitas a alguns de seus próprios mitos musicais, como Dolores Duran, Tom Jobim e… Roberto Carlos. Em Lígia, fundiu o presente à imagem do passado no telão, Tom, Roberto e cravo rubro na lapela, todos juntos reunidos numa só canção, num só imaginário de cafonice e sofisticação. Na dulcíssima Por Causa de Você, abordou tacitamente o parentesco das “flores na janela” de Dolores e Tom em 1957 com  as “flores do jardim de nossa casa” do Roberto safra soul em 1969. Eis aí que o (ex)roqueiro mais importante do Brasil retomava o fio da meada do nascedouro de sua constituição musical, ancorado em Tito Madi, Dolores Duran, Lúcio Alves, João Gilberto.

Isso, por sinal, ficaria mais explícito ainda mais adiante quando a neo-dupla retomasse em dueto o tema maroto de amor (quase) livre Tereza da Praia, que fora de Tom Jobim e Billy Blanco, e de Dick Farney e Lúcio Alves, mas que o próprio Roberto retomara em parceria e duo com Erasmo, em Papo de Esquina (1988).

Mas o esforço solo de RC culminou com o bruto e suave contraste do Samba do Avião, a tristeza da voz versus a luz dos versos, a alegria triste da bossa nova mais a tristeza satisfeita do romantismo robertocarlista, momentaneamente reunificadas.

E, como dizia, a mágica se fez. Sem ser mais preciso, agudo, seguro ou, er, chique que Caetano, Roberto foi a cada canção mesmerizando mais e mais aplausos, e aplausos mais e mais arrebatados e eloqüentes. Cumpria-se pela enésima vez a razão de ser do cantor efetivamente popular, e desta vez diante da esnobe platéia impopular brasileira que emoldurava aquele quadro tão esquisito e improvável (e especial), e, só por essa vez (só?), aplaudia mais o “rei” “cafona” que o “príncipe” “chique”.

Aos olhos e ouvidos zonzos deste observador, era como se o inusitado da situação e a sinceridade intrínseca de seu canto houvessem roubado para ele, de Caetano, o show. Mas antes acontecera a cena de valsa abortada, o fiapo de faísca de faca cortando a ferida entre agredido (Caetano) e agressor (Roberto), entre agredido (Roberto) e agressor (Caetano). Aí, ao provocar aquele desencontro dentro do (des)encontro, CV talvez estivesse entregando o show de bandeja a RC, para que o colega mais, er, “careta” e “romântico” (seria mesmo?…) consumasse a coragem nunca antes (na história deste país) possuída e praticada, de se aventurar por mares argonautas mais revoltos e hostis que os da segurança popular brasileira. O gesto distanciador de RC rumo a CV era talvez o mesmo que ele se acostumou a conservar em relação à dita “MPB” (essa, aliás, provavelmente o rejeitou antes que ele pudesse decidir rejeitá-la, ou não). Mas, nessa noite, Roberto Carlos estava ali. Peixe fora d’água, peixe dend’água.

Doçura atroz entre o beijado e o beijoqueiro, Caetano parecia naquela noite entregar seu afeto e seu ego a Roberto. Este, por sua vez, retribuiu a seu modo o carinho, e, eu aposto, só conseguiu chegar até ali, e cantar “e eu que era triste, descrente deste mundo” ou “tristeza não tem fim”, e enfrentar a garatuja do elitismo MPBesta porque tinha o respaldo e a cumplicidade de Caetano a lhe oferecer alicerce. A valsa pode ter sido formal, o beijo pode ter ficado implícito. Mas aconteceram, sim, a valsa e o beijo.

 

(*) Este texto se baseia no show que Roberto Carlos e Caetano Veloso lideraram na segunda-feira 25 de agosto, no Auditório Ibirapuera de São Paulo. As outras apresentações não presenciei e, portanto, sobre elas não posso elucubrar. Óbvia constatação, mas é que volta e meia o jornalismo se esquece dessa obviedade e se finge de onipresente, onipotente, e tal e coisa, o que carece do mais mínimo fundamento e não goza de nenhuma verossimilhança.

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2 Respostas to “Debaixo dos caracóis dos cabelos deles”

  1. guto Says:

    Acho bacana que ambos tiveram que montar um show novo, especial com novos arranjos,etc. Como vc disse , para o CV é mais fácil. Mas curioso é que me parece que o Caetano ainda está lançando um DVD ao vivo com músicas inéditas… Pelo menos é o que a impresna do Rio dizia no dia 19 de agosto. Ele teve que preparar dois shows praticamente simultâneos?

  2. Pedro Alexandre Sanches Says:

    É, Guto, o cara anda trabalhando à beça, mesmo. Outros, tipo Jorge Ben Jor, Chico Buarque, João Gilberto, Gal Costa, costumam ser beeeeem mais “preguiçosos”…

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