Chuta lata, gira mundo, corre pra ver

Na terça, assisti ao belíssimo show do grupo paulistano Julia Car, no projeto de novos talentos do Sesc Pompéia, o Prata da Casa. E não me atreveria a querer inventar um nome, um rótulo, para o que vi. Mas me atrevo, sim, a constatar que estava testemunhando um passo inédito, em público, da constituição de um novo gênero musical, esse de que ainda não sabemos o nome, nem sei se um dia vamos saber.

O rótulo de rock não cabe ao Julia Car, embora seja o rock o gênero-base de sua música polvilhada de anos 80, de anos 90, de anos 2000.

Rap não é nome que se ajuste no grupo, embora entre eles exista um inventivo MC convidado (não fixei o nome, peço desculpas), que arrasa a cada participação que faz.

Eletrônica não basta para classificá-los, embora esteja ali no canto direito, atrás das picapes, um elétrico e energético (e negro) DJ, Nelsinho Black – que poderia ser chamado de rapper e, além de DJ, também é cantor e vocalista de apoio (taí, um DJ-cantor, ineditismo total, pelo menos para mim).

Reggae nem MPB nem funk carioca nem axé music nem mangue bit nem música árabe muito menos “protest song” são termos ajustáveis ao grupo, embora os tope de frente, todos eles, a extrovertida garota de frente Julli Pop (mais uma aparição nesta neo-tradição pisoteada em veludo por meninas feito Lovefoxxx no Cansei de Ser Sexy, Marina Vello no Bonde do Rolê, Mariana Eva no Madame Mim, daí por diante).

Isso tudo junto é o que Julia Car é. Já não se trata “fusão” ou qualquer desses gêneros desgastados; Julia Car demole fronteiras e dissolve as bordas de gêneros musicais contíguos (mesmo que “inimigos”), uns nos outros. Mestiçagem total, de som, imagem & corpo (integrados, ainda, por Pipo Pegoraro, na guitarra e programação, Rob Cox, no baixo, e Tatá Muniz, na bateria; ah, e o veterano oitentista Clemente, dos Inocentes, em arrebatadora participação especial).

E música de rua é, ao meu ver, o que eles fazem de mais sensacional – no show e no CD de estréia em SMD, Urbano, música de rua é o que se ouve nas passagens mais empolgantes: Chutalata (de onde sai o verso que dá título a este texto), Godzilla, Maloca Baile

E na terça, para o bis, voltaram todos juntos batendo palmas e cantando juntos, em coro, sobre uma base eletrônica que parecia sair sozinha das manivelas. Não só a vocalista-líder e o DJ cantaram. Cantaram o guitarrista, o baixista, o baterista, o MC (taí, MC-cantor, ineditismo quase total, pelo menos para mim). Cantaram, e, simples assim, confirmaram que tampouco rótulos de conjunto, banda de rock, núcleo anarco-punk ou bonde se adequam ao que são – e que denominam, ele(a)s mesmo(a)s, “corpo orgânico eletrônico coletivo”. O nome é longo, complicado, difícil de memorizar. Mas dá mais pistas substanciais dos rumos muito, muito, muito novos da música das ruas deste novo mundo.

 

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18 Respostas to “Chuta lata, gira mundo, corre pra ver”

  1. camilo pegoraro Says:

    Valeu, foi ótimo, com muita animação e transmitindo belas mensagens.
    Vale apena de assistí-los.
    Muito sucesso enunca desanimem pois a concorrencia é grande.
    camilo

  2. Tiago Barizon Says:

    Olá Pedro, é uma satisfação para mim, como produtor do Julia Car, ler essas suas palavras, uma vez que um dos pontos que me conquistou no trabalho deles, da primeira vez em que ouvi o grupo, foi a minha completa incapacidade de poder falar que Julia Car é isso ou aquilo. Gosto da forma como eles se sentem livres para fazer música como querem, sem se prender, e chegar em um resultado final tão bem acabado e tão pessoal.

    Abraços!

  3. aildes Says:

    Parabéns ao grupo, gostei muito do show. Vocês estão crescendo muito, têm tudo para conquistar o público que os assiste.
    Valeu o esforço e a dedicação de todos, desejo que continuem crescendo e fazendo sucessos mil.
    Pipo é a mamãe Aildes

  4. Rodrigo Miranda Says:

    Eu tb gostei bastante e até me confundiu quando tentei pensar quais seriam as referências da banda. Depois de um tempo, relaxei e só curti o show. E o melhor que neste projeto do sesc posso sair de casa sem idéia da banda que irá tocar e ter ótimas surpresas feito esta. A proposito, se não me engano, o MC convidado se chamava JC.

  5. Almir Says:

    A melhor banda de todos os tempos da última semana…

  6. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Oi, Tiago, obrigado. E meus parabéns, por seu intermédio, ao Julia Car – vida longa a essa meninada!

    Pois é, Rodrigo, o “Prata da Casa” é bacana, não é? Por falar nisso, encerro neste maio minha passagem de um ano e meio pela curadoria do projeto, foi muito legal. E no meu lugar vem aí uma profissional de respeito no jornalismo musical, não sei se posso falar, mas é a Patrícia Palumbo…

    Ah, e é isso, MC Jottacê, obrigado! Só não vou corrigir lá em cima para não ficar fazendo maquiagem de texto, mas que fique registrado: MC JOTTACÊ!

    Almir, mas o que nos resta, se não isso? Conversarmos mais um pouco sobre o melhor papa da bossa nova que veio lá de Juazeiro e conquistou o respeito do mundo, ou coisa parecida?… Ou calarmos a boca, e não falarmos nem do “velho”, muito menos ainda do “novo”?…

  7. Julli Pop Says:

    Pedro, venho pessoalmente mais uma vez agradecer a você e a Adriana Balsanelli que têm creditado brilhos de luz em nós, este CORPO ORGÂNICO ELETRÔNICO COLETIVO que pulsa! Urbano e inventivo cheio de necessidade de troca, de troco, de truque, de transe…valeu a oportunidade e as fichas!!! Valeu mais uma vez de coração!

    O CORPO AGRADECE!

    Ju

  8. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Oiê, Julli Pop! Quêisso, eu é que agradeço, o show foi bacaníssimo mesmo. Força (orgânica, eletrônica e coletiva) aí procês!

  9. Deivid Augusto Says:

    JULIA CAR é tudo isto que foi dito e muito mais. Sou aficcionado por tudo que diz respeito à cidade: seus sons, sua correria, seu trânsito, sua inquietação. JULIA CAR me faz imediatamente lembrar de São Paulo, que está sempre em movimento. Estava no show do Sesc Pompéia, imaginei-me dançando em plena Avenida Paulista descontroladamente. Foi o melhor show que assisti da banda, até agora! Foi tão bom que nem percebemos o terremoto enquanto, extasiados e atônitos, pedíamos pelo BIS.

  10. Julli Pop Says:

    Deivid, que delícia “lersentir” suas palavras plenas de organicidade e sutilezas. É uma honra para nós da banda saber que pouco a pouco nossa música ganha a potencia necessária para invadir os corações e corpos das pessoas que passam as vidas por aqui, tão rápido…tão urbanas no sentido de cheias de tantas coisas que as vezes nem sobra tempo para sentir… poder atravessar estas pessoas é nosso objetivo, música é para isso, é para fazer sentir, pensarsentir.
    Depois de ler um depoimento como o seu me aproximo da idéia que JULIA CAR é para todo mundo…basta se dar a chance de ouvir!
    De coração, mais uma vez, muito obrigada!!! O corpo agradece!

  11. Pâmela Says:

    Também pude presenciar o show da banda Julia Car no Sesc Pompéia. Contudo, não sei se concordo com as opiniões daqueles que até agora escreveram aqui, inclusive o Pedro Sanches. O fato é que o show, para mim, só valeu a pena pela presença do DJ Nelsinho – totalmente criativo e constante no palco – e pela presença do Jottacê, um verdadeiro artista. Fora isso, o que presenciei foi uma banda sem inovação alguma a começar pela vocalista, com um apelo sexy e com voz igual à muitas cantoras que encontramos por esse mundo afora.
    Acho que não é necessário se revestir de algo novo para fazer algo de qualidade.

  12. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Pâmela, obrigado pela opinião contrária. Viva a diversidade de opiniões, né?!

  13. Pâmela Says:

    Afinal de contas…isso é o que importa!

  14. Julli Pop Says:

    …Como dizemos quando citamos Pero Vaz durante o show, UM PONTO DE VISTA PODE SER APENAS UM PONTO DE VISTA…depende quem apresenta as palavras sobre algo e de qual modo as multiplica…gostos, olhares, opiniões…Julia Car realmente não é algo que se deva descobrir talvez em um único encontro…Julia Car é para ser degustado é só o é, o grupo, o corpo por que todos ali presentes o forma e o completam…o que se ve é o que é sem apelo nenhum…o corpo orgânico eletronico coletivo se faz por que acredita poder dizer o que pensa por inteiro, organicamente cada um como é… como o público lerá isso, já não mais cabe ao nosso direito…fazemos arte…escutem e opinem muitos…a favor ou cont´rarios…sempre é plural e multiplicador… como disse PAS viva a diversidade!!!
    De todo modo, Pâmela, vale ouvirversentir mais este grupo…
    Abraços Organicos eletronicos coletivos da vocalista
    jULLI pOP
    parte deste corpo

  15. Nelsinho Black Says:

    Boa noite Pedro Alexandre beleza Pessoa?
    Foi muito classe A tu escrever estas coisas muito mesmo, haha poxa tu acha que não temos rótulos? Isso é legal , pois o que amo é musica independente de rótulo.
    E sabe meu sonho era tocar no Sesc , pois moro proximo do Sesc Interlagos e sempre fui assistir show la , e pensava , opaaa um dia vou tocar em um Sesc também, e logo no primeiro show aparece uma entidade que manja de musica para escrever sobre a banda , mesmo que você escreve-se que agente era ruimmm eu ia ficar feliz pois ia saber que foi alguém escutou o som hahahahaha.
    Rapazz Valeu pela sua nota no seu site e pelo seu belo trabalho que não é facil néé?Abraço e até uma proxima , muito mais muitoa amor para nós todos e muita mais muita musiiiccaaaaaaaaaa.

  16. josué Says:

    Não confundir leite moça com leite de moça é bom de vez enquando. abraços

  17. Juliana Says:

    Graças a sua apuradíssima percepção Pedro! Estaremos nós novamente no Sesc! Obrigada de coração viu! Espero que esteja por lá!!! Abs Organico Eletronico Coletivos para vc!

    Julli Pop
    Banda Julia Car 2009

  18. Blog da Identidade Musical » Julia Car se apresenta na próxima edição das Noites do Bem Says:

    […] Em resenha sobre uma de suas apresentações, no projeto Prata da Casa no SESC Pompéia, o crítico Pedro Alexandres Sanches classificou o som do Julia Car como uma das pistas para a nova música brasileira. […]

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