Jair, multicolorido

 

 

Grava discos e discos e discos, disciplinadamente, desde 1964, sobretudo no campo do samba.

Foi a outra metade da brava laranja de Elis Regina, em tempos bicudos de juventude, conquista de espaço e reinvenção de regras na música brasiliera.

Empatou o festival de música brasileira de 1966 com A Banda de Chico Buarque, defendendo Disparada, do também bravíssimo Geraldo Vandré, em parceria com Théo de Barros.

Goza de popularidade e empatia imensas, embora nem sempre “intermediadas” pela “mídia”.

Tem vozeirão trovejante, com o qual pratica, entre outras cambalhotas, um samba impuro, misturado, miscigenado, que o faz ser a própria (e algo obscura) cara do samba de São Paulo (embora também seja raramente reconhecido como tal, pelo jornalismo, pelo enciclopedismo ou pelos pares musicais).

É Jair Rodrigues, 69 anos, homem e artista sempre expansivo e bonachão, que fala com orgulho do 46º disco da longa carreira, Jair Rodrigues em Branco e Preto, produzido pelos jovens sambistas paulistas do Quinteto em Branco e Preto.

A entrevista telefônica transcrita abaixo (em complemento a um curto perfil sobre o Quinteto publicada na CartaCapital 489) começa após um almoço na casa da sogra, e termina antes que Jair parta para a missa das 16h na igreja do Perpétuo Socorro. Em disparada, como sempre.

Pedro Alexandre Sanches: Queria que você contasse um pouco a história do disco Jair Rodrigues em Branco e Preto.

Jair Rodrigues: Então vamos contar já, você já vai ficar sabendo (ri). É o 46º disco da minha carreira, e tem a direção de João Marcello Bôscoli, que é o diretor-presidente da Trama. Eu ajudei a fazer também, mas quem me fez essa grata surpresa foi ele. Me chamou na sala dele e perguntou se eu conhecia o Quinteto em Branco e Preto. Falei: “Claro que conheço, rapaz, são os meninos que foram lançados pela Beth Carvalho. Esses meninos até estão precisando de um apoio para se soltarem, porque som bons demais”. João Marcello então perguntou se eu aceitaria que eles produzissem um disco para mim, porque o sonho deles era fazer isso comigo. Falei: “Meu Deus do céu, demorou, vambora”. Entrei em contato com eles, começamos a ver o repertório. Também fiquei surpreso de saber mais deles, gravei três músicas da família. Gravei Toda Maria, Depois Chorei e Migração.

PAS: Que é do pai de Magnu Sousá e Maurílio Oliveira…

JR: É, Migração é um tipo de “sambaião”, dos dois pretinhos do Quinteto em Branco e Preto. 

PAS: Qual é o parentesco dos autores de Toda Maria com o Quinteto?

JR: É do Azambuja com parceiro, eles são amigos do pai deles, que é o Xique-Xique (Geraldo Alves). Me mostraram, achei bonita, eles mesmos disseram que no Samba da Vela essa música e Depois Chorei estouram a boca. Falei que só ia gravar se o samba fosse inédito, e era. Esses meninos são maravilhosos.

PAS: Você só queria se fosse inédito? Por quê? JR: Porque eu não estava querendo muito ir no baú. Eu já vou nas músicas antigas, já faço relançamento, mas deixo isso mais para projetos. Estou, por exemplo, projetando fazer um novo disco só com músicas sertanejas, e um só com serestas. Mas, para disco de carreira, sempre gostei de lançar compositores novos. Aí falei: “Já que as três músicas que vocês me deram são inéditas, já estão no disco”.

PAS: Acho que nem é uma novidade em se tratando de você, mas o disco acabou sendo um passeio pelo samba de São Paulo, não?

JR: Ah, também. Há muito tempo eu estava com vontade de fazer isso para São Paulo. Fui crooner aqui muito antes de gravar discos, e desde que cheguei aqui noto que São Paulo é completamente abandonada por esse lado. E os caras não acreditam, mas foi aqui dentro que praticamente tudo começou. Aqui os caras cantavam bossa nova, está aí o Johnny Alf para não me deixar mentir. Não sei se ele é lá do Rio, mas sempre viveu aqui. E nossa Alaíde Costa, também. Tudo era aqui. Quantas e quantas vezes eu saía para a noite e encontrava Cyro Monteiro, Ataulfo Alves, esse pessoal todo, mas quando se fala em samba é só o Rio de Janeiro. O saudoso Vinicius de Moraes, acho que numa frase infeliz, disse que São Paulo era o túmulo do samba. Mas nem São Paulo é o túmulo do samba, nem o Brasil é. É o berço do samba. o samba não tem túmulo, o samba tem berço.

PAS: A mídia se apropriou muito da frase do Vinicius, amplificou muito ela, não?

JR: Foi. Ele tentou depois se explicar, mas não acataram bem a explicação dele, não (ri).

PAS: Mas então foi de propósito que você reuniu vários sambas de São Paulo no disco?

JR: Foi, foi. Inclusive me lembrei de um grande sambista, um dos ícones do samba de breque, do samba malandreado paulista, que sempre teve aqui, que é Germano Mathias. Convidei ele para cantar comigo um samba que foi um grande sucesso dele dos anos 60, Baiano Capoeira, que foca também os outros dois autores, Jorge Costa e Geraldo Filme. Foi tudo de propósito, os meninos do Quinteto. Nós precisamos resgatar essa coisa, o próprio paulista parece que tem vergonha. Ele vai para a Bahia, quer ser baiano. Vai para o Rio, quer ser carioca. E não exalta São Paulo, estou falando musicalmente, que é o que faço.

PAS: A música de abertura do disco é de Luis Vagner e Bedeu, que são dois artistas mais ligados ao que se chama de samba-rock que ao samba propriamente. É uma das misturas promovidas pelo samba de São Paulo.

JR: Pois é, a faixa Eu Vou Só também é um samba-rock, desse menino, Faeti.

PAS: Quem é o Faeti?

JR: Eu não sei de onde ele é, parece que de Minas Gerais. Mas já está aqui há muitos e muitos anos, canta na noite. Fiz mais esse resgate. E até os sambas de enredo, eu estava conversando com os meninos do Quinteto e falei que queria regravar um samba-enredo de São Paulo. Não que já não tivesse gravado, gravei sambas do Camisa Verde, do Rosas de Ouro. Mas queria fazer um resgate de um samba-enredo conhecido em São Paulo, e eles mesmos me mostraram Marquesa de Santos, da Nenê da Vila Matilde. E botei no medley Independência ou Morte, que é da Vai-Vai, um samba do Zé Di. E aí coloquei junto um clássico, Exaltação a Tiradentes, do Rio.

PAS: Foi outra idéia proposital, misturar sambas-enredo de São Paulo e do Rio?

JR: Olha, tudo que eu fiz nesse disco foi proposital mesmo. E com um aval muito grande do João Marcello, que pensa dessa mesma forma que pensei. Ele também ajudou na escolha do repertório. Tem também um samba de minha autoria, em parceria com Paulinho Dafilin, que se chama Quem Falou?, (cantarola) quem falou que não gosta de samba/ não fui eu (ri).

PAS: Tem também um do seu filho, Jair Oliveira, que não é exatamente conhecido como sambista…

JR: É, porque manifestei para o Jairzinho uma idéia de gravar um samba tipo samba-choro, uma coisa que fosse mais para o lado do chorinho. Ele falou: “Pai, escuta, vê se o senhor gosta desse”, o dia amanhece como todo dia… Falei: “Pô, Jair, superlegal, um samba-choro muito bem feito”. E fiz também esse resgate. Aqui em São Paulo sempre teve esse negócio de chorões. Tinha no Rio de Janeiro, mas aqui também pude ver quantos e quantos conjuntos de choro, no centro da cidade, nas imediações da rua Aurora. Vivi muito durante a noite as serestas, os choros, tudo feito em São Paulo. Quis enaltecer São Paulo (ri).

PAS: Entrevistando Magnu Sousá, ele comentou que, quando se fala do samba de São Paulo, os estudiosos falam como se fosse um samba mais rural, interiorano. É curioso que ouço isso no seu disco, encontro mesmo elementos mais interioranos. Você concorda?

JR: É… Durante cinco anos morei em São Carlos, foi lá que comecei minha vida profissional na noite. Então a gente notava que lá no interior, no lugar onde eu cantava, havia muitos pedidos de sambas que o interiorano cantava. Também procurei por esse lado. Tudo no disco é referente a São Paulo, sem esquecer do Rio – gravei Nelson Cavaquinho, o samba-enredo…

PAS: Almir Guineto…

JR: Sim, mas procurei mais as coisas daqui, falar das coisas musicais que São Paulo tem.

PAS: Não podemos esquecer que você é nascido no interior de São Paulo.

JR: Isso, eu sou de Igarapava. É uma cidade paulista, embora muito perto de Minas Gerais. Igarapava faz divisa com Uberaba, mas minha cidade natal é paulista.

PAS: Dá para ver Igarapava nesse disco, de algum jeito?

JR: Dá, dá, dá (ri). É mais São Paulo, mas dá para ver. Na verdade só nasci em Igarapava, quando saí devia ser menino de colo ainda. Mas, nas vezes que voltei a Igarapava, primeiro havia muitas casas, barzinhos, muitos redutos de música. Na última vez que estive lá, há uns dois anos, não vi mais isso. Mas acho que lembro de Igarapava nesse samba romântico que tem aí, Madrugada Sorrindo de Novo, do Almir Guineto e do Gilson de Souza. Fui eu que contei essa história para eles, e eles trouxeram já o samba pronto. “É isso aí que eu quero.” Então tem um cantinho de Igarapava, sim (ri).

PAS: Você nasceu na zona rural?

JR: Nasci numa usina chamada Usina Junqueira.

PAS: De cana-de-açúcar?

JR: É, cana-de-açúcar. Aliás, estive lá, até hoje tem lá a casa onde nasci. Era uma casa de colonos, um conjunto de muitas casas.

PAS: Seus pais trabalhavam na lavoura?

JR: Meu pai era amansador de burro brabo. Era peão amansador. Amansava cavalos, até boi ele amansava (ri).

PAS: Há algum eco disso em Disparada?

JR: É, justo. E minha mãe era empregada dos donos da fazenda. Eu vivia não em Igarapava, que mal conheci. Conheci Nova Europa, que fica no estado de São Paulo, perto de Araraquara, São Carlos. Minha mãe foi trabalhar em Nova Europa, na Fazenda Itaquerê. Você vê que tenho um pé dentro das fazendas. Minha mãe era empregada doméstica, e eu, com meus 5, 6 anos, já ajudava minha velha mãe nos afazeres da fazenda.

PAS: E para São Carlos você foi logo?

JR: Morrei dos 6 aos 14 anos em Nova Europa, e dos 14 aos 19 em São Carlos. Aí vim para São Paulo, trazido pelo meu irmão mais velho, Jairo. Cheguei aqui no final dos anos 50, acho que em 1959.

PAS: E nunca mais saiu?

JR: Não, não. Moro na Granja Vianna, já dentro de Cotia, mas perto de São Paulo. Saindo da minha casa, 40 minutos depois estou dentro da Grande São Paulo.

PAS: E sua origem perto da fronteira mineira, você acha que aparece na sua música?

JR: É, porque meu pai era mineiro. Minha mãe era paulista, de Cristais. Mas eu morava a um passo, só o que dividia Igarapava de Minas era o rio chamado rio Grande e uma ponte. Se atravessava a ponte, estava em Minas Gerais. Um dos primeiros shows que fiz na vida, já depois de sucesso, foi em Uberaba, em Belo Horizonte. Não saio de lá, quase sempre estou lá. E minha primeira namorada, né?, não sei se você está sabendo, era mineira. Foi a Clara Nunes. Depois tive uma outra namorada de Minas, chamada Ângela.

PAS: Clara foi a primeira mesmo?

JR: Clara Nunes foi, rolou um amor muito bonito entre a gente. Depois que ela começou a fazer sucesso, cada um seguiu para um lado. Não tínhamos mais tempo de nos encontrar, então achamos melhor mesmo ser amigos.

PAS: Quando começaram ela não era conhecida ainda?

JR: Não era, não. Estivemos juntos, eu, ela e os Originais do Samba, assim que ela veio para São Paulo. Precisavam de uma cantora, levei ela, fomos parar em Buenos Aires.

PAS: É como foi que o samba foi encontrar esse menino de fazenda, como você falou há pouco?

JR: Pedro, eu, antes de gravar meu primeiro disco, fui um crooner. E você sabe, um crooner, cantor da noite, tem que cantar de tudo. E as músicas pedidas eram sambas do Ataulfo Alves, Aquarela do Brasil, e eu acabei gostando. Embora cantando outros ritmos, o ritmo que gosto mais de cantar é o samba. E pude observar isso depois de muito tempo viajando, fora do País. Notei que o samba é uma tradição e que eu estava infiltrado, estava dentro. Como diz, o samba me cantou e eu cantei o samba.

PAS: Não se fala muito de você como o sambista paulista mais conhecido e atuante, mas você é, não é? Por que não se lembra muito que Jair Rodrigues é o samba de São Paulo?

JR: É porque eu tenho uma característica de cantar de tudo, não é? Não sou considerado só um sambista, embora o que eu mais goste de cantar seja o samba. A gente canta de tudo, acho que por isso os caras não me têm como um sambista, me têm mais como um intérprete. A gente já fez sucesso e continua fazendo com seresta, música sertaneja, samba de enredo, bossa nova, bolero… A gente grava de tudo.

PAS: Você mencionou o projeto de gravar um disco de música sertaneja, como seria isso?

JR: É, já estive fazendo umas pesquisas… Eu chamaria, por exemplo, Chitãozinho & Xororó para gravarmos novamente juntos, Sérgio Reis… Queria fazer 14 músicas sertanejas e chamar 14 amigos que cantam esse estilo de música, uma espécie de Jair e Seus Amigos Sertanejos (ri).

PAS: As músicas seriam mais antigas, ou o sertanejo mais moderno?

JR: Não, seriam músicas mais antigas, aqueles clássicos sertanejos. Talvez, se pintasse alguma música sertaneja de raiz, mas inédita, a gente gravaria também.

PAS: Que clássicos, por exemplos, não faltariam?

JR: Ah, Menino da Portetra. Índia, que não chega a ser uma música sertaneja, mas eu sinto. Regravaria novamente Disparada com alguém, ou A Majestade, o Sabiá. Luar do Sertão… Coisas que Tonico & Tinoco cantavam, os clássicos mesmo.

PAS: Índia é sertaneja do Paraguai, Luar do Sertão, do Nordeste. Seriam sertanejas de todo canto, então?

JR: É, vou dar um jeito de trazer Índia do Paraguai para o Brasil (ri). 

 

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6 Respostas to “Jair, multicolorido”

  1. Beni Borja Says:

    Pedro,

    O Jair é uma força da natureza !

    O seu email ainda é aquele do UOl? accho que não..queria continuar a conversa sobre a continuidade na MPB…

  2. guto Says:

    Pedro,
    Eu vi um show do Jair Rodrigues em 1993, na cidade de Mococa (minha terra natal) onde ele tocou na abertura do carnaval, em cima do coreto da praça. Ele fez tanta festa – cantou com a banda dele e depois com a philarmônica mocoquense – que terminou o show até cantando no colo de uma senhora que assistia ao show. Nunca vi nada igual nesses tempos em que o improviso deixou de existir nos shows dos cantores de música popular. Em 2005, ele voltou em Mococa e cantou DISPARADA ao lado do mocoquense Nando Manini (o tocador da queixada de burro) num encontro que levou os mocoquenses ao delírio e ao choro orgulhoso. Bom ver que vc sempre fala do Jair Rodrigues que´tem o poder de ser adorado pelo meu pai de 72 anos e pelo menino que começa a compor rap e descobre “Deixe que Digam”

  3. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Oi, Beni. Aquele funciona ainda, sim, mas muito mais freqüentemente fico no pas@cartacapital.com.br. Abraço.

    Guto, incrível esse seu relato mocoquense! E o Jair, puxa, no geral é mais adorado pelo pai de 72 e pelo menino que descobre “Deixa Isso pra Lá” que pelo meio-mídia entre um e o outro, né?…

    Um pouquinho de palpite, só? Alguém vai se indignar se eu indagar se não há um tiquinho de r-a-c-i-s-m-o em alguns desses desencontros aí?… Não por parte do pai de 72 nem do filho de “eu não tô fazendo nada, nem você também”, bem entendido…

  4. Robert Moura Says:

    Grande Jair…essa mesma Índia o Roberto Carlos gravou para o que seria seu disco sertanejo, então ela É sertaneja mesmo, hehe.

  5. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Sim, sim, sim, Robert! E isso sem nem falar em Cascatinha & Inhana, né?

  6. roolando felis Jerson Nunes de Sousa Says:

    Vi um show (á uns anos de Jair Rodrigues) adorei. Parab´mnes ao seu blogue. Abraço

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