A gandaia sem fronteiras do Turbo Trio

Cisões e polarizações são constantes na história da música do Brasil (por vezes são até seus  motores de propulsão). Reproduzem-se até mesmo nas vertentes mais inquietas e arejadas da música nacional.

Pense-se, por exemplo, no combalido bairrismo Rio-São Paulo, quase mais antigo do que andar para a frente.

Em São Paulo, a periferia viceja e não pára de inventar misturas e produzir renovação, sob a matriz enfezada e compenetrada do rap, do hip-hop.

No Rio, a inovação trilha caminho quase oposto, na vitalidade festiva, e continumente renovada e atualizada, do funk carioca.

Ambos os “bairros” se servem, sob estratégias bastante distintas, dos recursos e modismos da (já fatigada e resfolegante) “música eletrônica”. Drum’n’bass em São Paulo, Miami bass no Rio, as periferias dos dois lados se conecta(ra)m com o mundo muito antes de se conectar com a mídia.

Uma rivalidade compacta, mas retumbante, ecoa de lá e de cá. Quando o Rio produz hip-hop, distancia-se dos modelos sisudos do rap paulista. Engendra Planet Hemp, Quinto Andar, pândegos e pícaros afins. No pólo contrário, São Paulo pulsa em surdina nos bailes de samba-rock, gafieira, soul e funk, mas parece não saber, nem querer, fazer funkcarioca.

Mas eis que de repente todas as setas se invertem. Os muros desmoronam. O senso comum entra em parafuso.

Então surge, como aconteceu há já algum tempo, um trem como este chamado Turbo Trio.

Turbo Trio é, desde início, uma fusão Rio-São Paulo.

Do Rio, parte o sempre rebelde BNegão, egresso do comboio Planet Hemp, (muito) rock, (pouco) samba e rap na veia.

De São Paulo, vêm Alexandre Basa e Tejo Damasceno, do núcleo experimental Instituto, do núcleo rapper Mamelo Sound System, de experiências várias de troca entre hip-hop, eletrônica, nova música brasileira etc.

Baile Bass (YB Music/Música do Brasil/Brazilmúsica!, 2007), o econômico e sedutor álbum de estréia do trio, parte dessa origem em trânsito para demolir fronteiras e bairrismos a granel. É um disco de hip-hop paulista funk carioca, ou de hip-hop carioca e funk paulista, ou quais mais recombinações se possam formular a partir daí.

As recombinações, por sinal, não param na página 3. Podem eventualmente ser de butique, mas não são de fachada. A prova é a vulgar-e-chique-ao-mesmo-tempo Ela Tá na Festa, que promove verdadeiro remoinho em termos de demolição de divisórias mequetrefes de repartição sociomusical. Politizado pela própria natureza, o carnaval mestiço desse funk-rap-dance-samba-canção é forjado na solda entre o funk mui carioca de Deize Tigrona, o funk paranaense (?!) do anárquico (e já semi-auto-demolido) Bonde do Tigrão e o funk gaúcho (?!?) do DJ Tchernobyl.

É música nova criada no cotovelo nervoso entre centros e periferias de, no mínimo, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro, percebe? (E isso, diga-se, sem mencionar a sucursal européia, mundana, que o Bonde do Rolê trilhou na cola do duo mineiro-paulista-londrino Tetine e da turba paulistano-planetária Cansei de Ser Sexy, entre outros desbravadores.)

Melhor: o Turbo Trio e seu Baile Bass não parecem pretender mais do que a mera diversão, a gandaia descomplicada e descompromissada – do ouvinte, mas antes ainda dos criadores. Se no caminho conseguem demolir mais alguns lugares-comuns, barreiras e preconceitos, ulalá, que façanha.

Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

6 Respostas to “A gandaia sem fronteiras do Turbo Trio”

  1. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Nuossa!, olha ele aí outra vez! O Silêncio Ensurdecedor!!!

  2. Danilo Says:

    É o que precisamos. Música nova, com frescor.
    Fazia muito tempo que não sentia isso. O novo da Nação Zumbi suscitou em mim a alegria e o torpor pelo novo… e lá estava eu sentindo o cheiro gostoso de tinta nova.
    Vou ouvir, Pedro.
    Valeu!

  3. Marco Gomes Says:

    estava olhando o twitter pelo celular, nem ia olhar link pra nenhum blog, mas o título, sobre Turbo Trio, me tirou do controle e vim ver o texto, parabéns, ótimo review do grupo.
    Sou fã do B Negão tem tempo, curto muito tudo que ele faz. Conheça também o Seletores de Frequência, é funksoul de primeira.

  4. Pedro Alexandre Sanches Says:

    E isso porque ainda estamos falando só dos mais ou menos “novos” (Nação, BNegão, Instituto etc.), né, Danilo?…

    Ih, Marco, “velho” quem ficou até agora fui eu, que nem consigo entender o que é Twitter nem consigo imaginar como meu texto foi parar no seu celular, hahaha.. Mas, bem obrigado, fico feliz (ah, e conheço um pouco, e adoro, os Seletores de Freqüência, podiscrê!)!

  5. Márcia W. Says:

    Chegando tardinho pois por uma sincronicidiência ouvi ontem “make love” do Turbo. e várias dos Seletores. Muito bacaninha. Não foi twitter mas rádio na rede, uma modernidade que quase entendo e a+d+o+r+o.
    Como diria o MauVal (você deve saber quem é, Pedro), é muita pressão no turbo!

  6. Tunicão Says:

    Queria falar com Tejo Damasceno, sou amigo de Porto Alegre e estou em Sampa!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: