Bicho de sete cabeças

Texto originalmente publicado à CartaCapital 487, de 19 de março de 2008.

Bicho de sete cabeças (*)

POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

O território é o da imaginação, sem receios de deixá-la descambar para a piração. O cineasta californiano Todd Haynes (de Longe do Paraíso, Velvet Goldmine e Veneno) queria falar sobre Bob Dylan, herói pop norte-americano, de impacto fincado nos primeiros anos 1960, mas que reverbera e ecoa até os dias atuais (tome-se por exemplo a passagem monossilábica, hipnótica, às vezes soporífera de mr. Dylan pelo Brasil, neste mês de março). O retrato, Haynes percebeu, não poderia ser linear, como não o são a poesia, o canto e a presença do personagem, embora quase o seja, muitas vezes, a música folk, acaipirada, que ele pratica.

O truque imaginado pelo diretor foi o de estilhaçar a figura de Dylan em sete personagens fictícios vividos por seis atores diferentes, e correspondentes a vários estágios de sua trajetória, do início como imitador obsessivo de Woody Guthrie (entre outros homens-lenda do folk), até o caubói isolado e misantropo da maturidade. No primeiro caso, Dylan é interpretado por um garotinho negro, Marcus Carl Franklin. No segundo, pelo “gigolô americano” Richard Gere, agora grisalho e de traços relaxados.

Entre um pólo e outro, Dylan ganha vida ficcional como um ator hollywoodiano massificado (interpretado, ironicamente, por Heath Ledger, de Brokeback Mountain, que morreria pouco depois), como o converso fervoroso ao catolicismo que Dylan de fato virou no final dos anos 70 (Christian Bale) ou como ídolo frágil, andrógino e anfetaminado que choca a sociedade puritana ao eletrificar o até então sacralizado folk norte-americano (que a certa altura o filme define, com acidez, como música “de dedo em riste”).

Neste último caso, Dylan é encarnado com sensibilidade e crueldade impactantes por uma mulher, Cate Blanchett, nitidamente apaixonada pelo personagem, na fase anos 60, em que ele se envolvia em tiroteios verbais agressivos, reciprocamente destrutivos, com a imprensa.

O crítico musical, Mr. Jones, arrasa e é arrasado por Dylan-Blanchett. Trata o ídolo pop como fera excêntrica enjaulada num show de horrores, mas na cena seguinte ele, o crítico, aparece trancafiado na mesma jaula. É interpretado por Bruce Greenwood, que, não à toa, adiante reaparecerá como antagonista do caubói marginal de Gere, Billy the Kid, num vilarejo de idílio e loucura habitado por circenses, ciganos, avestruzes e girafas.

Por baixo de tal atmosfera deslinear de delírio e alucinação, oculta-se um recado simples, transparente. Se Dylan é ora um menino negro, ora uma mulher, um cristão fervoroso, um crítico musical, um pacifista em guerra consigo e com o mundo, um velho caubói, Dylan é uma multidão. No rodízio de identidades imaginado por Haynes, o “nowhere man” é a somatória, o resumo e a alegoria de todos e qualquer um de nós. Ele é, como o cineasta-fã demonstra obsessivamente, o sonho e o pesadelo de existir, seja no 1964 de The Times They Are A-Changing ou no 2007 de Modern Times (e de Não Estou Lá).

(*) O título, confesso, foi marotamente inspirado em Laís Bodansky, diretora de filme homônimo, que está prestes a estrear o belíssimo (e muito musical) Chega de Saudade, comentado pela parceira Ana Paula Sousa na mesma edição da CartaCapital. 

Tags: , , , , , , , ,

4 Respostas to “Bicho de sete cabeças”

  1. Marcio Gaspar Says:

    talvez a única característica de dylan que esteve presente em todas as suas ‘personas’, tenha sido o fato dele sempre recusar o papel de líder, de profeta, de exemplo a ser seguido, de guru de qualquer grupo ou tribo. interessante, isso.

  2. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Sim, Marcio, ele, digamos, virou “especialista” nisso. E o público, os fãs, a corte, sempre desobedecendo o (não-)”mestre” e fazendo de religião tudo e qualquer coisa que ele falasse, né?

  3. Márcia W. Says:

    Pedro,
    quem traduz títulos de filmes no Brasil oscila sempre entre uma tradução literal, nem sempre fazendo sentido ou uma coisa totalmente escalafobética. Dentro do espírito do filme, que sabemos que é sobre os Dylans, seu nome nunca é mencionado, como vocês falaram aí em cima, o cara não está a fim de ser guru de ninguém, acho que o filme poderia muito bem ter se chamado “Eu não tô nem aí”.

  4. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Hahaha, podiscrê, Márcia W. Ou então poderia chamar “Tô Nem Aí”… Não deve ser da sua época cá no Brasil, mas é o nome de um sucesso maciço e mais ou menos recente, tipo dance music misturada com country music, de uma cantora chamada Luka. Ela fica só repetindo “tô nem aíííííííííí”, “tô nem aiíííiíííí””, entre Donna Summer e Chitãozinho & Xororó, entre Fernanda Abreu e Bob Dylan… Mestiçagem é isso aí, hehehe…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: