O sirimbó de Fernanda Takai

A já bem-sucedida história da homenagem de Fernanda Takai a Nara Leão ganhou novo episódio com a estréia do show correspondente, em São Paulo, no final de semana passado, e a esta altura é possível cravar qual é o trunfo principal da vocalista e co-líder da banda Pato Fu nessa particular estréia solo. Homenagens e rapapés à parte, Fernanda não se deixou abduzir pela lembrança ou pelo mito de Nara.

Essa constatação já se insinuava no disco Onde Brilham os Olhos Seus (Do Brasil/Tratore, 2007), mas se torna mais evidente agora, em especial devido às escolhas irreverentes de Fernanda no repertório do show. À lista completa das canções pescadas da obra de Nara, ela acrescenta rocks do Duran Duran (Ordinary World) e dos Eurythmics (There Must Be an Angel), soul infantil do pequeno Michael Jackson (Ben), canção “cafona” do trágico “ídolo negro” dos anos 70 Evaldo Braga (Esconda o Pranto num Sorriso).

Em outras palavras, ela completa o tributo a Nara com comentários excêntricos que mais parecem homenagens a si mesma, às músicas que compuseram e compõem o seu relicário particular. Soma à bossa e à suavidade vocal da homeageada sua própria personalidade, suas idiossincrasias, seu imaginário. Nota a semelhança entre a tragicidade “cafona” de Evaldo Braga e a melancolia “chique” de Nara e, zás-trás, faz a ponte.

Nara Leão vira estrada arborizada, não ponto árido e obrigatório de chegada.

Ansiosa por honrar genealogias e, ao mesmo tempo, se desvincular das garras do totem, Fernanda denuncia o tempo todo um certo constrangimento e um pezinho no ridículo inerente à situação de sacralizar um ídolo, de simular-se filha de quem nem a conheceu, até mesmo de estar num palco entretendo com mimosas palhaçadas musicais uma platéia risonha, predisposta à alegria e à diversão.

 Faz-se discípula de Brecht, desfazendo o jogo de faz-de-conta entre “ídolo” e “fãs”, tão caro a muitos, tanto num campo como no outro. Avisa que vai parar para descolar um esparadrapo que ficou esquecido no chão, e ri do fato de que ninguém teria notado o esparadrapo, se ela não o denunciasse. Observa a deselegância do ato de beber água entre uma canção e outra, e se curva para pegar o copinho d’água, toda desajeitada. Explica, bem sonsa, que colocou uma bossa sisuda ao lado de um pop inconseqüente apenas porque achou que combinavam, porque a primeira é de Dolores Duran e a segunda, do Duran Duran.

Não foi só por isso, é óbvio. Não resta dúvida de que Fernanda, ao mesmo tempo que respeita e admira o referencial bossa nova, nutre também certa antipatia e resistência por ele. De modo contíguo, não consegue (ou não quer, o que soa ainda mais interessante) bajular Nara Leão (e tudo o que está ao redor, da bossa à idolatria MPBóide em geral) sem ao mesmo tempo criticá-la, ralhar com ela, tomar dotes de filhota rebelde.

Tal ambivalência encontra espelho no marido, parceiro de banda e co-criador de Onde Brilhem os Olhos Seus, John Ulhoa. De presença discreta como músico acompanhante, ele praticamente se esconde embaixo de um chapéu de caubói, de um rosto cabisbaixo, de uma postura “cool” de bluesman mineiro interiorano. John é do rock e da irreverência, e não da bossa, da MPB ou do pop-chiclete tipo Duran Duran. O paradoxo é que está gostosamente à vontade, brilhante mesmo, no papel que a companheira-parceira-antagonista lhe reservou.

E o espírito de repulsa gostosinha, tanto por parte dele como da dona do microfone, chega até a platéia e reverbera. Todos estamos ali mais ou menos pelas mesmas razão: construir enquanto destruímos, destruir enquanto construímos, odiar o que adoramos, amar o que detestamos.

Talvez fosse um pouco assim a própria Nara, enquanto pulava feito saltimbanca da bossa à canção de protesto, de Jerry Adriani a Cacá Diegues, de Chico Buarque à tropicália e de volta a Chico, das cantigas de ninar à festa nordestina de Seja o Meu Céu (que Fernanda recria com especial empatia), de Roberto & Erasmo Carlos a Meu Samba Encabulado.

A Fernanda, seja como for, destina-se o papel mais complexo, delicado: respeitar o passado musical brasileiro sem desrespeitar-se a si, acarinhar Nara Leão sem se deixar escravizar por sua pesada nobreza.

Fernanda deixa o xeque-mate da conquista desse desafio para o bis, que desaba sobre o palco de modo absolutamente impactante.

O show terminara com a versão ensolarada de Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos , e recomeça, no bis, com O Divã, dos mesmos Roberto & Erasmo. Nara cantava O Divã de modo já pungente, em 1978, e Roberto expurgou a canção há décadas de seu repertório. Não é para menos, trata-se de canção doída que mergulha fundo dentro do narrador, uma das únicas em que Roberto mencionou o acidente na infância em que perdeu parte de uma perna. Em interpretação densa e emocional, Fernanda desce a águas profundas e geladas, as mesmas de Roberto, as mesmas de Nara.

A seguir, em pinote radical, ela emerge das profundezas. Reaviva Sinhá Pureza, um sucesso de 1974 na voz da sambista carioca mestiça Eliana Pittman, e canta que carimbó, sirimbó é gostoso/ é gostoso em Belém do Pará. Foi composto por uma sumidade popular paraense, Pinduca, e diz muito a respeito de Fernanda Takai, que mora em Belo Horizonte, mas nasceu no norte extremo do País, no Amapá. Nara Leão, capixaba criada no Rio de Janeiro que cantava com tristeza infinda o gauchíssimo tema folclórico Cuitelinho, certamente aprovaria a transgressão geo-ideológica.

No arremate do bis, ressurge enfim a bossa bonitinha (e enjoadinha) O Barquinho, gravada em 1961 por João Gilberto e por Maysa, arquirrival de Nara, dez anos antes que a própria a gravasse. Nada de novo no front, não fosse essa versão cantada em japonês. Por intermédio do reverbolê nipo-carioca, ali se encontram, numa pessoa só, a japonesinha da família paterna Takai, a indiazinha amazonense, a brasileirinha de pop-rock gringo-mineiro do Pato Fu. Ao fundo, está a mãe ilegítima, Nara Leão, que noutros tempos guiou a bossa nova pelas curvas das estradas do Japão. À frente e agora, está Fernanda Takai.

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17 Respostas to “O sirimbó de Fernanda Takai”

  1. don gabu Says:

    ê. lindura mais exercícios por aqui!

    bitter sweet takai! se bem que bitter também ainda não é a palavra, né?

  2. Robert Moura Says:

    Repertório esperto esse, adoraria ouvir a Fernanda cantando Sinhá Pureza, por acaso o primeiro compacto da minha coleção de discos(!?)…sem falar em Dolores Duran, e o Rei…

  3. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Ei, Don Gabu, obrigado!!! Acho que a Takai está mais para agridoce, não?…

    Putz, Robert, que sensacional, o seu primeiro compacto ser da Eliana Pittman… Lembro que o meu primeiro LP, em 1976, foi de Baiano & Os Novos Caetanos, a “banda” do Chico Anysio e do Arnaud Rodrigues… E o segundo foi “Entradas e Bandeiras”, de Rita Lee & Tutti Frutti.

  4. cris alcântara Says:

    duas boas surpresas, seu novo blog e mais um post sobre nara. esse assunto tem tomado conta de mim há 6 meses, desde que comecei minha série de pinturas sobre a cantora… espero ter oportunidade de levar de brasília pra sp o trabalho, qdo estiver pronto.
    ah e claro, te mandarei o convite, amigo blogueiro, de dois blogs, chique isso :)
    bjs

  5. doidivana Says:

    Que saudade de seus textos! Que bom que os reencontrei (em dose dupla)! Beijos

  6. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Cris, obrigado, obrigado. Nara cada dia mais presente…

    Querida Ivana, que bom, também!

  7. noizyman Says:

    ei, xará! parabéns pelo novo blog, mais um pra frequentar.
    gostei muito do texto do bob. não fui ao show e fiquei xingando os 900 paus… e, na verdade, acho que não (me) faz muito sentido ver um show dele hoje.
    mas acho que é isso mesmo, ele paira muito acima dos amei e odiei.
    grande abraço, xará, muito bonita a casa nova!

  8. Show, Entrevistas e Porto Alegre « Fernanda Takai Says:

    […] https://pedroalexandresanches.wordpress.com […]

  9. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Noizyman, obrigado!

    E, eba, estamos linkados no blog da Fernanda Takai!

  10. Beni Borja Says:

    Pedro,

    Grande idéia ! O espacinho da Carta é pequeno prá vc. e a sua participação no dia-a-dia da música dessa terra Brazuca é primordial.

    Quanto a Fernanda , acho que vc. intuiu uma coisa bem interessante sobre a continuidade na MPB. Um papo grande demais prá caber aqui..

    valeu!

  11. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Ê, Beni, obrigado! Vamos aqui, tentando pegar no tranco, devagar e sempre.

    Mas, ei, queria ouvir mais sobre essa intuição da continuidade que você mencionou (falar nisso, nem sei por que lembro – ou sei? -, mas no dia em que fui ao show da Fernanda, estava lá a Paula Toller, e fiquei achando bacana e importante a manifestação pública de não-rivalidade)…

    Abraço!

  12. leonardo Says:

    blog ótimo.
    texto excelente.

    virarei assíduo.

  13. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Obrigado, Leonardo!

  14. Rosane Says:

    Também achei o blog ótimo e os textos melhores ainda! Lí A Decadência Bonita do Samba como indicação do professor Henry Burnett, no curso de Filosofia da Unifesp e fiquei muito interessada em saber mais sobre esse autor que ousa criticar os heróis míticos da nossa música; adorei o conteúdo descoberto! Voltarei, com certeza.
    Você não aceitaria fazer uma palestra em Guarulhos obre o livro?
    Abraço,
    Rosane

  15. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Rosane, obrigado!

    Se quiser, me escreve, no pas@cartacapital.com.br.

  16. Rosane Says:

    Super on-line!
    Já estou escrevendo, obrigada!

  17. Caê Says:

    Delícia…

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