Pororocas

Na faixa 3 do disco Civilização & Barbarye (Páginas do Mar/ Tratore), Ramiro Musotto se faz ancorar por ilustres companhias. Gwyra Mi é cantada, em língua autóctone, pelos Meninos Guaranis da Associação Indígena da Aldeia Morro da Saudade. Misturada a eles, aparece gravação sampleada de um discurso do Subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, em Chiapas, México.

Percussionista apaixonado pelo berimbau, produtor pop e manipulador habilidoso de computadores, Musotto é argentino radicado no Brasil, e desenvolveu afinidades eletivas especiais com a Bahia, onde aportou pela primeira vez em 1984. O caldeirão étnico e ideológico de que se constituíram o centro e o sul do continente americano é a matéria-prima do artista. Do ponto de vista dos marginalizados de todo canto, e sem recortes hierárquicos entre eles.

A visão múltipla se espalha por Civilização e Barbarye, que faz conviverem e se acasalarem o Assanhado carioquíssima de Jacob do Bandolim e o Beradero paraibano-paulista de Chico César. Os ritos indígenas, a música africana, os orixás afrocubanobrasileiros, os ancestrais argentinos. E uma profusão de teclados, samplers, theremins e toda a parafernália eletrônica da esquina entre os séculos XX e XXI.

É mais ou menos o que faz também, em foco mais fechado e experimentalista, o disco Farinha Digital (Cooperativa de Música/ Tratore), que testa a confluência entre a viola de dez cordas do paraibano Pedro Osmar e os efeitos eletrônicos e a percussão em sucata do paulista Loop B.

O primeiro vive em intimidade com as tradições nortestinas, mas também com a vanguarda multidisciplinar concentrada no coletivo paraibano Jaguaribe Carne. O segundo segue desde os anos 70 trilha subterrânea calcada no rock industrial, na vanguarda paulista, na negação do pop pasteurizado. A resultante está estipulada pelos próprios criadores: farinha, farinha digital, nutriente, que pode descer engasgada na garganta ou fluir livremente na imaterialidade dos MP3.

O tempo, a considerar pela música atual dos errantes Ramiro Musotto, Pedro Osmar, Loop B, é de compactação, mestiçagem e pororoca, abaixo, nas cercanias e (por que não?) acima da linha tropical do Equador.

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Uma resposta to “Pororocas”

  1. camila Says:

    oque é voçoroca e pororoca

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