O chapéu de Bob Dylan

Parece bobo escrever sobre um show de Bob Dylan em São Paulo, Brasil, 2008. Dylan é locomotiva histórica que seguirá em inércia de movimento, em rota própria, antes, durante e depois da passagem de mais este cometinha. Seria assim, ainda que um milhão de textos críticos pipocasse simultaneamente, agora mesmo, em jornais, revistas, blogs e o que fosse, num uníssono “faça isto (ou aquilo), mr. Dylan”. Pipocas estourando no fundo quente da panela, apenas.

Há muito tempo a panela, ou melhor, Bob Dylan tornou-se um ente etéreo, que se move numa zona fantasma à qual a maioria de nós não pertencemos.

Tornou-se incomunicável, a não ser por intermédio do conteúdo guardado no conjunto de letras de música que escreve desde ao menos o início dos anos 1960. E que, por si só, nunca foi nada fácil, não. (Like a Rolling Stone, de 1965, por exemplo, é ou não é uma música sobre ressentimento e vingança? E os brasileiros que gritam e tentam cantar em coro assim que percebem que a melodia desconstruída à sua frente é a da antológica canção? Estão ou não estão em sintonia e aliança com o suave “pastor” em cima do palco naquela sede antiga e amarga de vingança?)

É que talvez pareça bobo ser Bob Dylan, fazer um show como Bob Dylan, hoje, 2008, em qualquer canto do mundo. É muita história contada aos pouquinhos, com pelo menos 31 álbuns conceituais, de material original, lançados desde 1962. Nada lógico que fosse retirado dali caberia num show de menos de duas horas.

O fluxo de criação, confrontado com o fluxo de exposição, já virou há muito a rebimboca da parafuseta. Ao “profeta” consolidado, não resta senão juntar os cacos fogosamente estilhaçados ao longo de quase meio século e colá-los num retrato efêmero, num pedacinho de (suposta) eternidade que daqui a pouquinho talvez já esteja petrificado na grande rede.

Dylan parece extrair desse quase acaso o balé cigano que elabora a cada sessão semi-imóvel de versões roufenhas que o descontroem o tempo todo, embaixo de chapéus bem arrumados na cabeça dele e da trupe mambembe (e ultraprofissional) que o acompanha.

A deduzir pelas listas de repertório de cada showzinho “around the world”, disponíveis em mil sites soltos na internet, o esqueleto de “sucessos” recentes é meio fixo no miolo das apresentações, e nos inícios e finais o “bardo” promove um rodízio de “clássicos”. Em 6 de março, em São Paulo, entram “Rainy Day Women #12 & 35 (1966), “Lay, Lady, Lay” (1969), “A Hard Rain’s A-Gonna Fall” (1963), “Highway 61 Revisited” (1965), “Tangled Up in Blue” (1975), a suplicyniana “Blowin’ in the Wind” (1963). Noutra noite serão outras, como se o pai quisesse e pudesse se preservar do enjôo das próprias crias.

O nome da amálgama entre todas as canções, canções renegadas e descanções é Bob Dylan. E isso em diversos momentos pode soar como cândida incongruência do pai que aprecia abastardar as crias. Pode soar até como bobeira, mas delicada e madura bobeira.

As notas à parte, nos shows em São Paulo, partem mesmo da platéia, tão boba como todo o resto (e risonhamente disposta a pagar de 200 a 900 dinheiros, à parte jornalistas e outros “sortudos”, que recebemos ração grátis de filé). Não é assim uma beatlemania, mas a dylanmania, iniciada quando ele era muito jovem e idolatrava Woody Guthrie, parece, sim, existir, até hoje, até no Brasil.

Nas duas noites, fãs supostamente descabelados conseguem subir ao palco no objetivo de arrancar um carinho ou afago do homem-esfinge. A menina da quinta-feira, de cabelos pintados nas pontas, consegue tascar um beijo no cowboy-trovador nascido em Minnesota.

Ato reflexo, ele se assusta e limpa o rosto com a mão. Perde o rebolado, fica abobado, sai da trilha da letra da canção, silencia, deixa a banda à deriva no acompanhamento por ora sem líder. Não esboça expressão, não deixa entrever se apreciou ou detestou a interferência, ele que tinha pavor de ser assassinado como John Lennon e há séculos guerreia em aliança de ódio & amor com legiões de fãs-vampiros. O guitarrista racha o bico, ele retoma enfim a canção.

Um pouco mais adiante, proferirá as únicas palavras ditas até aqui na passagem pelo Brasil, em público, fora das letras da canção e da liturgia do show. Agradece à “young lady” que “ficou com a gente” no palco, pergunta para onde ela foi, diz que gostaria de dar a ela o seu chapéu.

Por baixo da migalha roubada pela tiete e por trás da idiotia robotizante do $how biz, parece de repente que ainda mora um homem.

E a “young lady”, ao final, pula na calçada de saída do show, boba de alegria, dançando e gritando o bordão: “Uh, uh, uh! Beijei o Bob! Uh, uh, uh! Beijei o Bob! Uh, uh, uh!…”. Está sem chapéu.

Tags: , , ,

13 Respostas to “O chapéu de Bob Dylan”

  1. Dum De Lucca Says:

    Uma bobagem seu texto.

  2. Zeferino Says:

    O que significará para as pessoas que pagaram 900 dinheiros ver mr. zimmerman não cantar seus hits? Algo mais que dizer que o viu não cantar seus hits? Merecem tão pouco por tanto?

  3. Tiago Says:

    finalmente uma resenha inteligente, sobre o show do Dylan. depois de muitas resenhas fraquíssimas que eu li na semana passada, finalmente uma q acresenta algo, e que me faz ter idéia do que foi o show. ao invés de simplificar a apresentação a presença de um senador, ou meia duzia de hits. parabéns.

  4. Onaicram Says:

    Blogui novo?!?! Vai dar para conciliar com o armazém lá do blogspot? Em todo caso, boa sorte.

  5. Márcia W. Says:

    Pedro,
    duas coisas:
    Uma.Sabe que o episódio da garota no palco e o babado do chapéu foram manchetes aqui? Quase caí. Diziam: Bob Dylan FALA com o público em show.!!!Os artigos seguem contando como se fosse quase um milagre ou achando que o eflúvios ao sul do Equador realmente afetam os cocos das gentes. Mas nenhum pito sobre o$$$$$ preço$$$$.
    Duas: vocês viram o “I´m not there”? É filme para fã ou quem sabe um mínimo das histórias do cara. A Julianne Moore tá impagável como Baez e tem um garotinho negro s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l fazendo o Dylan (yes!!!) como bebedor na fonte do Guthrie. Gostei muito.
    Brinde: boa sorte outra vez no novo blog.

  6. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Tiago, obrigado!

    Pois é, Zeferino, várias variáveis, como diria o Humberto Gessinger, né?…

    Onaicram, vamos tentando, vamos ver no que vai dar!…

    Márcia W. (obrigado!), aí-Europa?, aí-onde-exatamente? Jura mesmo que o fato de ele ter falado virou manchete? Eu fiquei meio implicando que aqui teve manchetes tipo “Bob Dylan riu durante o show”… Mas então, de fato, foi uma façanha da “young lady” ter arrancado umas palavras de mr. Misantropo? Que coisa… Ah, o “I’m Not There” está para estrear aqui (como “Não Estou Lá”), escrevi algo sobre ele para a revista, que vou copiar aqui em brevíssimo. Eu achei maravilhoso, o filme.

  7. Márcia W. Says:

    Pedro,
    desculpe a intimidade vermelha por aqui: sim, aqui Europa, mais especificamente Holanda.
    E, palavra de bruxa, teve manchete sobre o episódio Mr. Dylan talks. Até aí, meio que tudo bem, mas já que fizeram a chamada, poderiam ter dito 2 ou 3 palavras sobre o show, mas não rolou nenhum comentário.
    Sabendo que adoramos o filme, vou ficar na escuta pelos seus comentários.

  8. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Valeu, holandesa (queria que você mesma citasse, hehehe)!

  9. Valéria Says:

    Eu beijei o Bob Dylan!!!!!

  10. Valéria Says:

    Eu beijei o Bob Dylan!! E ele não limpou o rosto. Ele passou os dedos nos lábios e disse em inglês:vem,vem, enquanto o segurança me arrancava do palco.Ele chegou a me abraçar enquanto eu o agarrava, foi por isso que quando o segurança me puxou quase o derrubou e também o seu chapéu. Fiquei na calçada dizendo: “Eu beijei o Bob Dylan”para conseguir retornar e pegar o meu chapéu. Antes de me tirarem eu pedi “Blowin’ in the Wind” e ele cantou para mim e isso valeu por todos os ematomas.

    Quero saber onde mais este fato foi notícia, e se tiver fotos ou vídeos por favor mande-me.

    PS Eu não estava descabelada,mas estava descalça.

  11. Valéria Says:

    Quando eu conseguir o chapéu, para mim não será nenhuma migalha e sim um grande presente de”Um Homem”que acresentou com suas palavras muitas coisas importante para pessoas com mente aberta e de coração leve .

  12. Pedro Alexandre Sanches Says:

    Valéria, foi você?! Bacana que chegou até aqui.

    Quer dizer que você não levou o chapéu, mesmo, é?… Isso é que fiquei me perguntando, se eles queriam mesmo te entregar e não te acharam, ou se era só charme de mr. Dylan…

    Não sei, não, se alguém mais noticiou ou publicou fotos. Só sei, como você pode ver aqui mais acima, nos comentários da Márcia W., que o fato de mr. Dylan ter sequer falado durante aquele show foi manchete lá na Holanda… Êita!

  13. Valéria Says:

    Olá Pedro,tudo bem?! Foram os seguranças que me impediram de pegar o meu chapéu. Veio o segurança do camarím e disse ,que ele me esperou e não deixou o chapéu com os donos por que eles poderiam não me entregar,então ele disse para me mandarem para o hotel,só que me disseram o hotel errado “Hilton”,não era,ele tinha ido para o” transamérica” ,mas já era tarde e eu não podia gastar mais.

    PS Da uma perguntada para os seus colegas de profissão,se alguém tem esse material valeu,no aguardo.

    Obrigado.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: