Há quase uma semana, sábado passado, 21 de junho de 2008, a cantora Wanderléa subiu ao palco do Auditório Ibirapuera para gravar o primeiro DVD de sua história. Quem conhece meu livro Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) (Boitempo, 2004) sabe de minha admiração (embora não irrestrita) pela Wanderléa, e pelo Erasmo, e pelo Roberto. Não acho que me torne mais ou menos “suspeito” para falar, mas, dito isso, quero tecer um ou outro comentário sobre o novo show (e futuro DVD) da cantora, Wanderléa Maravilhosa.
Sobre o título, antes de mais nada. Trata-se de uma alusão explícita ao título do álbum de 1972 da artista, extraordinário desde a capa black power, ou melhor, black-blonde power:

…Maravilhosa correspondeu, à época, a uma tentativa da moça de desacorrentar grilhões, de se libertar, de afrontar o machismo popular brasileiro, de suspender por ora a herança e a maldição iê-iê-iê. Com músicas de Assis Valente (do repertório de Carmen Miranda), Gilberto Gil, Jorge Mautner, Hyldon e outros, foi o álbum transgressor “maldito”, “hippie”, “MPB” de Wanderléa. Nem ela se ajustou perfeitamente ao novo figurino e à transformação (levada a cabo, diga-se, pela Polydor/Philips pós-tropicalista de André Midani), tanto que o disco entrou rapidamente para a galeria das excentricidades e/ou ousadias secretas da música brasileira.
O fato de Wanderléa chamar de Maravilhosa um show de 2008 significa uma volta àquela experiência? Sim, significa. Várias de suas escapulidas ao ideário jovem guarda e ao romantismo à la Roberto & Erasmo freqüentaram a apresentação, de Back in Bahia, de Gil, a Kriola, do recém-reaparecido Hélio Matheus (alguém aí sabe detalhes sobre essa outra história secreta, e fortemente intrigante?).
Acima de tudo, e à parte hesitações vocais aqui, ali e acolá, Wanderléa esteve Maravilhosa porque esteve performática, audaciosa, provocativa, teatral. O uso do espetacular fundo retrátil do Auditório Ibirapuera e a impactante chegada da artista, das árvores do parque para dentro do palco, intensificaram o impacto e o impulso dramático desejados.
Mas era show para registro de um DVD rememorativo, um balanço de históra e carreira, e a Wanderléa não-Maravilhosa, a Wanderléa corriqueira e descomplicada da infanto-juvenília pop brasileira, haveria de estar presente também. E esteve. Desfilaram, lado a lado com as puladinhas de cerca, hinos iê-iê-iê (inclusive com a participação de um Zeca Baleiro ligeiramente desbaratinado, na pândega Horóscopo e um pouco mais) e baladas entre românticas (inclusive com simpática incursão do filho do “rei”, Dudu Braga, o menino para quem foi composta em 1969 a arrepiante As Flores do Jardim de Nossa Casa). Em especial na releitura da sexy-dramática-romântica Na Hora da Raiva (de Roberto & Erasmo, naturalmente), Wanderléa deitou e rolou, como era de esperar, corriqueiramente Maravilhosa.
A firmeza da mulher e a insegurança da menina pairaram lado a lado, e talvez isso tenha ajudado a fazer do show algo especialmente bonito, e especial. Me emocionou, por exemplo, ver a menina-e-mulher, a Wanderléa, cantar para uma platéia abarrotada, num espaço grande (e “sofisticado”) como o Auditório Ibirapuera, arquitetura marciana-e-lunática de Oscar Niemeyer, e tal, e coisa.
A propósito, eu estava sentado numa cadeira de corredor, à direita do palco. Bem ao meu lado, na cadeira de corredor da parte esquerda, estava Agnaldo Timóteo, cantor, político e homem, digamos, “polêmico”. E não nego que a presença dele excitou minha imaginação, tanto quanto minhas aflições. Ao mesmo tempo que me alegrava assistir à popular Wanderléa tomar conta daquele palco, me incomodou pensar que talvez nem mesmo o Auditório Ibirapuera, teatro paulistano que vem demonstrando vocação particularmente democrática, abrisse vaga para pôr em cartaz um show de Agnaldo Timóteo, ou que tal.
Fiquei pensando que ele, ex-motorista particular de Angela Maria, outrora vendedor milionário de discos para a indústria fonográfica (multi)nacional e hoje “poderoso” vereador, tem direito de se sentar à platéia de um show “chique” da colega jovem-guardista. Mas talvez não tenha o direito, como muitos de seus pares, er, “cafonas”, de ocupar como “estrela” aquele pedaço, ou aqueles outros todos com nomes de cartões de crédito, bancos, operadoras telefônicas etc.
E então me vem à mente a letra do samba Pedreiro Waldemar (de Wilson Batista e Roberto Martins), sobre o operário que faz tanta casa e não tem casa pra morar, que constrói um edifício e depois não pode entrar. Nem é bem assim (uai, o Timóteo não é até vereador?!), mas, simbolicamente, é, não é?
Seja como for. A pompa emotiva de Wanderléa Maravilhosa 2008 abre alas entre Agnaldos e Angelas e Carmens e Waldemares e pede passagem para a “operária” Wanderléa se tornar mais uma vez exceção às regras férreas do condomínio blindado chamdo MPB. É o que ela e seus pares têm sempre sido, como dois e dois são cinco.
Etiquetas: show, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Wanderléa, Hélio Matheus, Angela Maria, Carmen Miranda, Wilson Batista, Roberto Martins, Jorge Mautner, Assis Valente, Hyldon, André Midani, Zeca Baleiro, Dudu Braga, Oscar Niemeyer, Agnaldo Timóteo
30 Junho 2008 em 1:13 pm
Curiosa essa sua observação sobre a presença de Agnaldo Timóteo na platéia do show de Wanderléa, e também a menção à letra de “Pedreiro Waldemar”. Fez-me lembrar da canção “Cidadão”, de Zé Geraldo, que trata exatamente do mesmo tema (o cidadão que constrói edifícios nos quais não pode entrar depois).
Sobre a presença de artistas na platéia de show de outros artistas, cansei de ver a grande Alaíde Costa na platéia de Maria Rita, naquela casa enorme de Moema. Um lugar que o pequeno público de Alaíde jamais lotaria, embora Alaíde tivesse estatura e talento para encher aquela casa por semanas a fio.
Abraço
Mário Baggio
30 Junho 2008 em 3:27 pm
Pedro querido,
saudades!
Depois de ler este texto MARAVILHOSO sobre Wandeca, reafirmo o que já disse várias vezes: quando crescer, quero ser Pedro Alexandre Sanches. Sonhar não custa nada…
abs,
mauroFerreira
30 Junho 2008 em 8:11 pm
Pedro,
Achei interessante o seu comentário sobre Aguinaldo Timóteo. Acho que os espaços devem ser democráticos. As pessoas são livres para escolher : ir ou não ir. No meu caso, não iria.
Abraços,
Fernando
Obs: estou debutando no seu blog. É um espaço livre. Que bom!!!
30 Junho 2008 em 10:45 pm
nossa joelma. escandoóooosa.
30 Junho 2008 em 11:04 pm
Mário, legal o exemplo que você trouxe. E, nossa, deve haver tantos outros… Alaídes erguendo edifícios simbólicos, Agnaldos levantando prédios de cimento, e assim por diante… Falar nisso, experiência interessante deve ser a Cida Moreira, neste próximo fim-de-semana, naquele mesmo auditório - ela tem trajetória longa e respeitável, mas como Alaíde anda sempre pelos espaços menores, mas de repente, pluft, vai estar lá naquele teatrão…
Ê, Mauro, olha eu encabulado outra vez, hahaha… Mas, bacana, você sabe, fico honrado com sua manifestação - até porque muitas vezes 9 entre 10, ou 10 entre 10, ou 11 entre 10 de nós, “críticos” musicais, costumam(os) ficar na miúda nesses assuntos de wanderléas e agnaldos…
Ah, e aproveito para recomendar, sempre e sempre, o blog musical do Mauro Ferreira, na minha opinião o mais completo cá por estas bandas: http://blogdomauroferreira.blogspot.com/
Fernando, bem-vindo (ah, e se gostou, visite também o blog “irmão gêmeo” deste, que mantenho há bem mais tempo, o http://www.pedroalexandresanches.blogspot.com). E gracias pela discordância concordante, quanto ao Agnaldo…
Don Gabu, hahahaha, será ela a matriarca (mineira) do tecnobrega (paraense)?!
1 Julho 2008 em 6:50 pm
E salve o meu, o seu ,o nosso Pena Schmitd! Gente boa extraordinaire e sujeito de extremo bom gosto e inteligência.
Sempre sustentei, para pasmo dos circunstantes, que Agnaldo é o maior cantor do Brasil! Claro que em música esses superlativos são sempre duvidosos, mas como o João Gilberto não é um sujeito prá quem fique bem superlativos, sobrou pro Agnaldo e seu vozeirão.
Seria lindo ver ele cantando seus clássicos com um acompanhamento musical decente, prá variar.
3 Julho 2008 em 9:41 am
Pedro, me dá um prazer danado poder ler sobre grandes nomes da nossa música que, temo, cada vez mais se tornem histórias que apenas ouvimos da boca de nossos pais, sem nunca entender porque nossos pais estão falando isso.
Tenho um filho pequeno e quero muito poder educá-lo musicalmente, sem empurrar nada porque gosto cada um tem o seu e faz parte da nossa personalidade, mas espero que ele tenha pelo menos respeito por grandes nomes como todos os falados aqui.
Uma pena que não vai dar para você acompanhar o show do Dilei, para o qual te convidei, mas é claro que prioridades são prioridades. Então ficam, antecipadamente, nossos (meu e do grupo) parabéns! Abraços!
3 Julho 2008 em 9:21 pm
Salve o Pena, Beni! Cara inteligente à beça, além de competente, e bacana… (ah, pra quem não sabe: Pena Schmidt, de longa atuação nos bastidores da música no Brasil, é atualmente um dos caras por trás da enorme diversidade que anda pintando no Auditório Ibirapuera.)
Quanto à sua tese sobre o Timóteo, bem, ela é “polêmica”, não? Mas eu gosto, hehehe.
Tiago, puxa, tô apostando desde já nesse seu filho, daqui para o futuro… Sobre essa questão da preservação da memória, ou da falta dela(s), bem, esta vertiginosa era da internet já tá bagunçando bem as coisas, não é mesmo? Porque, a esta altura, já tá TODO mundo na internet, sejam os “grandes”, os “pequenos” ou quaisquer outros. E, até prova em contrário, isso é ETERNAMENTE, porque depois que nós morrermos os rastros que deixarmos no cyberespaço no cyberespaço ficarão, para sempre… Adoro essa idéia…
E, sobre o show do Dilei, também não sei se vai dar para eu ir, mas, puxa, essa é uma questão quase que aleatória, muito mais do que de “prioridade”, viu? Porque vocês (que fazem shows) são taaaaaaantos, são milhares, e euzinho… sou só um, trabalhando feito um camelo, e muitas vezes querendo desmaiar por fins-de-semana inteiros.
Bem, mas pelo menos agora os meus fins-de-semana são meus! Em anos passados, por experiência, dedicação e $$$, tive muuuuuuuuuitos fins-de-semana inteiramente sugados por dona “Folha”…
10 Julho 2008 em 10:17 pm
biu, só me explica pq chamar segundinho (cego) pra cantar “olha”? eu achei sensacional… hahahahahahahahaa. beijo
21 Julho 2008 em 10:31 pm
Puxa, eu nem estava sabendo da gravação desse DVD, já estou ansioso na espera…por acaso hoje ouvi pela primeira vez o disco da Wanderléa com o Gismonti…
abraços
24 Julho 2008 em 3:57 pm
Agradeço a citação de meu nome. Posso ser encontrado na Casa de Simeão. Fone 3228.20.64 (Pode procurar Joana d´Arc ou Raquel). Um abraço.
4 Agosto 2008 em 6:06 am
Gostei muito do artigo. Quem esteve lá no Auditório Ibirapuera, como eu, pode confirmar. Só não concordo quando faz referência ao LP Wanderléa Maravilhosa, de 1972, quando diz que “o disco entrou rapidamente para a galeria das excentricidades e/ou ousadias secretas da música brasileira”. É, sem dúvida, uma belo trabalho da cantora, principalmente pelas faixas Back in Bahia, Badalação, Quero ser locomotiva, Uva de Caminhão e Casaquinho de tricô. Esse disco representou, na época, uma tentativa de rompimento da cantora com a Jovem Guarda, apesar das participações que fez anteriormente no Festival Internacional da Canção (FIC) em 1970 e 1971, com as músicas “A charanga” e “Lourinha”, respectivamente.
Na minha opinião, o disco da Wanderléa que entrou para a galeria das “ousadias secretas da MPB” teria sido o LP “Feito Gente”, do show com o mesmo nome, no qual interpreta Gonzaguinha, Walter Franco, Sueli Costa, Jorge Mautner, Gilberto Gil e outros. Gravado ao vivo, esse disco é um dos melhores trabalhos da cantora. A foto da capa é muito boa e posteriormente foi até “imitado” por Elba Ramalho que, a cada dia que passa, está com visual cada vez mais parecido com a Wanderléa.
Parabéns pelo belo texto.
Abraços
10 Agosto 2008 em 4:18 pm
queria lhe fazer um pedido: fale para o seu pai gravar a música:magesta do sabia,de Roberta Miranda!!!
pois a vós dele ficara maravilhosa nesta música e saiba que eu sou sua grande fã!!!
mill beijos de sua fã número 1